domingo, 30 de março de 2025

Numa manhã de domingo


Lá dentro da gente há o som espesso do Tempo. Isso, uma trilha sonora por demais resumida de tudo, desde pensamentos distantes, doutros tempos, a sentimentos dagora. Infinitas eras de lembranças, emoções guardadas, que falam de novo ao crivo da paciência. Latidos de cães e gorjeios de raras aves se somam ao barulho de motos e automóveis bem afastados. Em torno, só o vazio que organiza as falas dessa hora. Com isto, trazidas pelo ciciar da brisa na folhagem da serra, as palavras fervilham no juízo quais bichos afoitos, impacientes, a percorrer os cômodos das recordações.

Há, qual o quê, infinitos a vagar nas horas das criaturas. Vidas e vidas em profusão, nessa viagem dos sentidos pessoais. Humores. Apreensões. Expectativas. Sonhos ali talhados na memória. O próprio Universo, habitando o senso, insiste dizer algo ainda em elaboração, no entanto do instante que o somos, e foge. Pequeninas frestas assim revelam o mistério nas frases ditas de lugares até então desconhecidos. Um ser enigmático, destarte, pulula o coração e fala outras linguagens, descreve paisagens imaginárias, indica possibilidades incontáveis no silêncio voraz.

E lá fora, o Sol e os astros em movimento; cores; formas. Essa arte do dia preenche, magistral, de azul e nuvens brancas os céus donde existem. Faz nascer todos pelos sinais das escrituras sagradas e divisar nos horizontes o quanto houve e haverá sempre.

Enquanto isso, acontece a larga aventura dos humanos espalhados neste Chão. Tantas datas em um mesmo calendário. Climas diversos. Mares revoltos. Calmos. Passeios. Países. Filmes. Romances. Notícias. Conferências. Negócios. Crises. Apegos. Desapegos. Guerras. Promessas. Julgamentos. Melodias. Construções. Pesquisas. Experiências. Estradas. Automóveis. Aviões. Instrumentos vários. Histórias que fervilham, no íntimo, o turbilhão dos dias e regressam às origens também inesperadas da sorte.

Fôssemos querer, contudo, outros motivos de chegar a mundos desconhecidos, imaginários, escondidos nesse vasto firmamento sem fim, existiriam presenças em nós que jamais tocariam a visão. Por certo menores ficaríamos perante o instinto de trazer de volta a ausência de que estamos a caminho.

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