segunda-feira, 31 de julho de 2023

A Reencarnação


O espírito vai e volta tantas vezes quanto necessário seja que não precise mais de vir. Nesse meio tempo, aprende o que fazer até ser feliz para sempre.

Desde criança, houve um cuidado religioso católico de que não soubéssemos disso na família. Alguma literatura chegava perto de revelar, na cultura brasileira, esse conceito milenar, algo assim qual na obra de Érico Veríssimo e Machado de Assis. Este que escrevera o livro Ressureição, a deixar entrever aspectos dessa revelação, no entanto à margem do que depois conheceria no Espiritismo (a Terceira Revelação, segundo informa). A primeira delas fora Moisés, com a Lei de Justiça, no Antigo Testamento. Em seguida, Jesus, no Novo Testamento, a Segunda Revelação, com a Lei do Amor.

No Colégio Diocesano, Alzir Oliveira, meu amigo e Vice-Diretor da instituição, me daria a ler o livro A face oculta da mente, de Padre Oscar Quevedo, o qual batia de frente com a doutrinação espírita, negando radicalmente o conceito da Reencarnação, e relembrando a unicidade das existências. Quero crer, Alzir percebera que eu tivesse alguma tendência a admitir a formulação doutrinária dos espíritas.

Ao ler o livro e conhecer o que o sacerdote nele considerava, dali então compreendi mais de perto o valor de podermos vir quantas vezes até a total evolução espiritual, isso através da perspectiva das vidas sucessivas. Só então seria desnecessário ter-se de ir, de uma única vida, ao Inferno ou ao Céu, uma criação, pois, por demais sapiente.

No decorrer da existência, fui aprofundando a pesquisa teológica e, gradualmente, vir ao que hoje admito de percepção religiosa em relação aos valores eternos da vida humana.

Esse arcabouço de crença guarda origens nas civilizações do passado, quais Índia, Egito e China. Quando, no entanto, aqui no Ocidente, sofreria mudanças de concepção, até que Allan Kardec (Hippolyte Léon Denizard Rivail) trouxesse a Doutrina Espírita através de O livro dos Espíritos.

(Ilustração: Pieter Brueguel, o Velho).

domingo, 30 de julho de 2023

A Consciência Cósmica


Não sou eu quem vive, é o Cristo que vive em mim
. São Paulo

Creio haver registros dessa possibilidade noutras horas, no entanto quero aqui tratar do que presenciei nos idos da década de 60, do século anterior, quando iniciaram falar de Era Cósmica, Era de Aquarius e outras mumunhas mais a propósito de renovação dos valores da vida. Ocorreu espécie de mudança brusca na mentalidade daquela gente, sobremodo entre os jovens. Uma explosão de transformações tomou de conta de tudo. De um lado, era tempo de guerra, qual sempre foi na humanidade das conquistas da matéria, lutas pelos mercados consumidores, pelas fontes de petróleo, predomínio econômico colonial que fomenta a fome e outras misérias. Na França, da juventude cresciam os movimentos coletivos e a sede da liberdade que se espalhou pelo mundo inteiro.

Daí, em consequência, aumentaram as reações contra a Guerra do Vietnam, no Ocidente, com jovens recusando prestar serviço militar nos Estados Unidos e fugindo para o Canadá e a Europa. E a criatividade ganhou espaço nas mídias eletrônicas, com o Festival de Woodstock, o movimento hippie, a desobediência civil, etc.

Numa consideração do termo, através de Pierre Weil, Consciência Cósmica: O termo traduz uma experiência em que determinadas pessoas percebem a unidade do Cosmos, se percebem dentro dela (e não fora, como muitos poderiam imaginar); a experiência é acompanha de sentimentos de profunda paz, plenitude e amor a todos os seres. (Weil, Pierre – A Consciência Cósmica, Introdução à Psicologia Transpessoal, Editora Vozes, 1976)

Isso faria face ao materialismo que aparentemente prevalecia junto aos filósofos sociais e políticos, e abriria espaço a um novo romantismo nas artes, a ponto de propiciar verdadeira transformação ainda hoje em andamento.

Decerto, tais reviravoltas no pensamento humano ofereceram os instrumentos de percepção das novas formas de viver e ampliar o nível do conhecimento, em reversão ao derrotismo e as misérias que, por vezes, parecem querer dominar a Civilização.

Bom, as marcas seguem compondo a mentalidade dos que viveram aqueles anos de protestos em face dos valores arrevesados que quiseram prevalecer diante das novidades imperecíveis da Natureza e seus elementos eternos, com base na existência dos seres humanos ora só aprendizes da Felicidade.

(Ilustração: Bhagavad Gita).

sexta-feira, 28 de julho de 2023

A eternidade das casas


A primeira sensação que vem ao me dispor escrever algo trazido na inspiração é o temor de jogar fora a oportunidade de contar. Sente-se bem clara a presença de uma intuição que quer falar, e que sejamos sua voz, portanto. Nisso, vêm as ideias, palavras, imagens, lembranças esvoaçantes no céu das horas.

Naquela casa, exótico bangalô de cimento armado construído pelo Dr. Pergentino Silva num bairro distante ao leste da cidade, moraríamos durante uma década. Chegáramos a Crato em 1953. Passados alguns meses na casa de Tio Quinco, à Rua José de Alencar, no centro da cidade, dali fomos ocupar a Vila Dairo, nome dado ao lugar em homenagem ao um dos filhos do proprietário, um dentista tradicional e de família conhecida.

Era de dois pavimentos e um lajão plano de onde avistávamos em volta e contemplávamos o claro das noites. Posta em terreno espaçoso cercado de nove mangueiras, ainda possuía restos de muro baixo destruído pelo tempo.

Nesse recanto passei a infância e o início da adolescência, juntamente com meus quatro irmãos. Havia três dormitórios no térreo e mais três na parte superior. Foi uma fase bem movimentada, pois recebíamos de hóspedes ocasionais, nalgumas vez, e noutras em longas estadas, os irmãos de minha mãe. Além deles, ali viveram os serviçais, que vinha do Tatu, em Lavras, lá onde vivêramos antes.

Ali quantas histórias aconteceriam, fortes sinais das nossas recordações de uma vida em formação! Ao lado, em terreno amplo, funcionava a serraria de meu pai, de que ouvíamos o som das máquinas durante o dia e à noite permanecia em completa escuridão, porquanto só em 1962 a energia elétrica viria em definitivo ao Crato.

Qual sendo hoje, aquele rico panorama permanece entranhado dentro de mim. Os personagens, os enredos, as ocasiões. Gravação inextinguível, aquela história insiste continuar fiel nos mínimos detalhes, as emoções, os impactos, as formas, num caleidoscópio sem final. Aquele eu tão só seguiria a reunir mais e mais detalhes a esse afã inicial de querer saber a que veio e encontrar a paz dentro de si.

(Ilustração: Depositphotos (reprodução).


Busca incessante da Consciência


O Tempo é a matéria prima desse encontro, da revelação definitiva da essência de Si. Todos nossos passos servem a isto, à descoberta do real significado da existência, do encontro da Salvação, conquanto estamos em uma fase inicial da transformação do Ser a que viemos aqui. Enquanto pensarmos habitar tão só o mundo da matéria, vivemos o transe dos instintos em andamento e nos subjugamos ao crivo deste chão, no âmbito da natureza humana. E permitidos assim nos vemos. Pelo transcorrer das vidas, desenvolvemos as possibilidades do eterno que já o somos, contudo alunos desta escola restrita quase que às paixões e fragilidades.

Tal qual seja, porém, ao que nos permite a liberdade em ação, usufruímos da oportunidade constante de achar o foco de nós mesmos, isto no âmago da Consciência de que fomos dotados desde sempre. Horas a fio isto em cada ser persiste, de deparar a inigualável chance do despertamento e virmos a possuir uma plena compreensão. Isso resume tudo quanto dizem as religiões e filosofias, na Ciência e nos segredos que compõem a arte e o sacrifício de viver.

Simples, no entanto de uma profundidade aparentemente inatingível, o motivo principal de tudo quanto há durante toda Eternidade a que pertencemos. Espécies de testemunhas e protagonistas de tão grandiosa experiência, caberá a todos o sentido amplo desse encontro consigo próprio nalgum dia, nalgum lugar. À frente é que as malas batem, tal diz o povo.

E o mais evidente nisso tudo significa sermos todos os coautores dessa divina criação universal e dela fazemos parte integrante, dotados da responsabilidade ímpar do desempenho supremo de nos tornar instrumento desta soberania da conscientização. Na origem de quantos mistérios, dali viemos e a isto retornaremos, com a claridade que vimos buscar neste plano.

(Ilustração: Oração de Nossa Senhora do Carmo).

 

quinta-feira, 27 de julho de 2023

Os sons do inesperado


Escrever, no mínimo, é prazeroso, instigante. Oferece ímpetos de a gente correr em busca de novidades e encontrar alternativas de jogar com as palavras, em meio às rotinas, viagem por vezes surpreendente. Os sons das palavras saem batendo nas paredes da visão, escarrancham sótãos de lembranças, notícias, pensamentos, sonhos, assim quase vadias, destituídas de propósitos ou direitos, no entanto firmes na intenção de revelar os segredos guardados nas sete capas do inexistente. Muitas, inúmeras, as chances de acalmar o instinto dessa função de transmitir, porém, ainda que tranquilizem durante algum tempo, lá adiante vêm de novo neste desejo de saltar fora e trocar em miúdos o que restara das refeições cotidianas, e tem mais, acham que queiram parar aqui e dividir a solidão das existências, nesta comunhão de pensamentos na mesma aventura das revelações interiores. Palavras, palavras, palavras...

E quando, outra vez, elas descobrem a gente presa da angústia de querer contar o inconfessável, psicografando junto o séquito de andarilhos, de longe, observam os desavisados e trazem sons do inesperado ao texto.

Outro dia, Ceci me falou que, recentemente, ouviram profundo estrondo nas imediações do litoral norte da Bahia, quando identificaram naquilo a queda de um meteoro de maiores proporções. A notícia gerou empenhos dos estudiosos em localizar os pedaços do corpo celeste, disso pedindo à população que tragam às pesquisas tais pedras de corisco que recolheram. Eis dos tais sons do inesperado em que falei. Quantas e tantas ocasiões correm nos céus as estrelas cadentes, riscos de luz desses corpos que penetram a atmosfera da Terra e incendeiam nos fachos luminosos. Deles veem-se os claros, no entanto há dias em que deles também se ouvem o estrondo ao tocarem o solo das proximidades dos núcleos humanos. Gabriel até me disse que todo o ferro que existe na Terra veio do espaço, que leu nalguma revista.

Isso lembra os sons das palavras quando invadem o silêncio em volta e chegam ao coração, no instinto de serem transmitidas uns aos outros, pela escrita, no discurso de papel. Algumas viram coriscos e chamegam o território íntimo de quem escreve e adiante dos que leiam.

quarta-feira, 26 de julho de 2023

O peso das lembranças


São elas as sombras das vidas a preencher o tempo. Através dessas longas estradas da vida conduzimos o ser que somos e vivemos com exclusividade. Bem acima das nossas vontades, elas permanecem ativas. Insistem continuar de uma cena a outra e haveremos, lá num fase da existência, de decodifica-las pouco a pouco. Pedaços de tudo no quanto já passamos pela longa estrada transcorrida, ali distinguimos a sequência natural dos espinhos, das flores; das músicas, dos filmes; das noites, madrugadas, momentos vários deixados em nossos rastros quais marcas indeléveis da própria alma. Gosto de imaginar que viver dói; mesmo assim as lições persistem nas tais que havíamos de experimentar o conhecimento aberto de tudo, porquanto viver não tem cartilha.

Isso que nasce das dores do coração e vem à tona à medida do ser são as lembranças vivas de que somos elaborados no transcurso das gerações. Algo de maravilhoso, afirmações perenes do que precisamos aprender de ser felizes. As minas do Destino às nossas mãos, as lembranças, nós, o ser em si.

Dotados desse mecanismo inigualável, daí sermos indivíduos largados neste chão em movimento. Horas a fio e o transcorrer desse roteiro fantástico de quanto a todo instante, que projeta os pensamentos, os sentimentos; as lutas, vitórias e dramas espalhados na história, nossa e dos demais. Um crivo de comportamentos, imagens mil das tantas alegrias dos que cruzam nossa jornada, que dizem das possibilidades que temos e sonhamos. As lágrimas, as saudades, as esperanças...

Vivemos disso, do farnel que transportamos pelos dias e pelas horas. Moléculas de felicidade, só desse jeito obtemos o direito de tocar adiante as próximas atrações de nós mesmos. Somamos, acreditamos, na certeza de que chegaremos a bom termo, ao escutar atentamente o solo das lembranças e que, nisso, revelaremos o solo da consciência no real motivo de termos vindos aqui.

(Ilustração: Reprodução).

terça-feira, 25 de julho de 2023

Esse animal que pensa


E que espera, age, sucumbe, levanta a cabeça, sofre, desespera, alimenta, cai, ergue os olhos aos céus e ama, ama muito nas novelas e no anonimato... Nós, esse animal que vive os dias e dias na fome de ser feliz; luta dos insanos combates com estranhos seres das entranhas deste mundo, que somos nós mesmos, que olha aflito o fluir constante das horas pelas chaminés dos destinos, sem adquirir, no entanto, a certeza definitiva de tudo. Observa as alternativas e corre o risco das léguas de desejo, na busca da fonte perene que sustente o sonho da verdade plena, da justiça e do perdão. Essa muitas vezes fera dos irmãos na luta pela poder do chão das almas. Formas e torrões do açúcar que escorrer de bocas sedentas da realização. Tropas e bandos na farra desembestada de posses, apegos vazios, objetos em decomposição; maltrapilhos senhores de inutilidades que traduzam ausências absolutas de convicções consistentes. Sombras essas que assustam as fronteiras da morte. Migalhas de saudades lançadas ao vento da angústia. Esses tais seres pensantes, nós.

Quais penas ao calor dos firmamentos, eles sobem escarpas e fogem nos becos das madrugadas, sem contar uma história real de progressos e realizações nos moldes limpos de paz e solidariedade. Ampliam os planos, mas largam de vez a convicção dos começos. Enganam, pois, a si mesmos invés de sustentar a firmeza e construir o mundo novo de que tanto fala. Gigantes prematuros, ainda poucos iluminados, que abaixam a cabeça aos instintos da sobrevivência do amor próprio insaciável. Ah! Esses heróis que todos somos e essa disposição de reverter os pecados em virtudes, longe, contudo, das práticas mais que necessárias. Ah! Quanto resta de caminhar até chegar...

(Ilustração: Corações de ferro, filme de David Ayer).

segunda-feira, 24 de julho de 2023

Ilusão e Realidade


Maya
, assim os hindus denominam a ilusão. Certa feita, presenciei uma palestra do filósofo Huberto Rodhen, idos de 1978, em Salvador. Aberta às perguntas, da assistência alguém quis saber: - Se a ilusão não existe, por que nos preocupamos com ela? De logo veio, de logo o palestrante disse que a ilusão existe, sim. Que se manifesta no mundo físico e causa marcas no processo das existências. Se não, o que nos permitiria conhecer a sua presença junto das cogitações humanas?! No entanto, não tem perenidade, esvai no tempo donde vem, deixando tão só consequência e rastros no caminho dos que a seguem e sejam suas vítimas.

Tal qual fogo fátuo, rebrilha nas noites da ignorância dos que carecem da Luz, a fascinar incautos, fantasiar atitudes, demonstrar possibilidades inconsistentes, arrastando consigo almas mil nos laços das fragilidades e do fastio. Nada parece tanto com a verdade quanto a mentira, dizem os sábios. Iscas de perdições, alimenta efeitos e sensações e consome incautos naquilo de mais precioso, e que aqui permanece na intenção dos que precisam evoluir.

Enquanto isso, a Realidade significa o caminho das transformações, sentido único do aprimoramento dos espíritos mediante empenho e dedicação, fruto da busca incessante pela Eternidade afora. Deus não castiga ninguém. As pessoas saem do caminho e se encontram com o castigo, sendo esse o instrumento de desencanto e do regresso ao objetivo da realização do Ser.

Nisto, eis as leis essências da Natureza a que tudo e todos obedecem. Perante a sujeição da ilusão, há limitações que ensejam os meios de revelar em si a Consciência. Formas perfeitas dessa evolução, neste claro/escuro das percepções, lá um dia se descobrirá que o mal é a ausência do Bem. Da desilusão nascerá, pois, o vazio a preencher através da libertação das paixões fugazes. Da escuridão virá a Luz e uma consciência plenificada.

A maior das indagações


1. Que é Deus? “Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”
 O livro dos Espíritos, de Allan Kardec

Nisso de existir, e saber mais, se resume a causa primeira, suprema compreensão das interpretações durante todos os milênios. Buscamos por demais nas entrelinhas do Infinito e nos depararemos com a essência de tudo, a origem das origens, o que nos acompanha vidas e vidas. Desde sempre persistirá, pois, vontade maior de encontrar o motivo de estarmos aqui. Tateamos na escuridão das horas à busca de encontrar a porta que nos revele a claridade do que somos feitos. Quantos e tantos momentos de dúvida e esperança, na certeza de fazer parte de um todo maior que supere a transitoriedade dos acontecimentos, as muralhas do Destino. Assim tem sido desde quando quisemos sonhar e descobrir a imortalidade, diante das perfeições da Natureza de Deus, nós, pequenos seres à procura da Luz.

As culturas mostram isto, milhares de interrogações nos milhões de livros, filósofos, místicos, profetas, líderes religiosos, e seguimos a vislumbrar no horizonte os sinais da perfeição que em nós já existe e que ainda necessitamos desvendar seus segredos e mistérios. Muitos, muitos, dias de apreensões, atitudes vagas, equívocos, respostas só insuficientes, e o barco a vencer as ondas da Eternidade neste rumo da realização do Ser. Até quando? Quem nos revelará com as letras que toquem o nosso coração qual o sentido absoluto das quantas luas a circular o firmamento?

Há um desejo sem tamanho de, certo dia, nos deparar nesse plano maior onde vive o Poder de todos os poderes e apaziguar, de uma vez por todas, sentimentos e pensamentos, e ser feliz ao calor da humana consciência.

Enquanto isto, olhemos e ouçamos as vozes do silêncio a refinar nossos instintos de Paz, instrumentos da plenitude que compõe essa música do Amor, a força mais poderosa do Universo.

sexta-feira, 21 de julho de 2023

O rei da Serra


Idos da segunda metade dos anos 70, de quando regressei ao Cariri depois de sete anos em Salvador, e conheci, no Sítio Venha Ver, na Chapada do Araripe, um personagem típico daquelas bandas, Reis, qual chamavam o rei da Serra. Conversamos um tanto. Busquei conhecer detalhes de sua história. Pessoa de natureza alegre, meio fora de tempo, solitário e esquecido naquelas brenhas. Vivia nas matas. Segundo falou, se alimentava do que achasse (- De calango pra cima tudo se come, dizia). Tomava banho só nas estações chuvosas, épocas raras nessas bandas. Usava chapéu de couro curto e remoído pelos tempos; portava uma velha espingarda de soca e um bornal gasto pendurado de banda e trajes surrados, antigos e encardidos pelo uso.

Naquela casa de morador onde me achava e onde ele passava sem compromissos em horas imprevistas, as pessoas me contaram que havia décadas, quando a esposa de Reis perecerá de um parto, ele tresvaliou e resolveu subir a serra e nela se enfronhar até aquelas datas. Antes vivera em Crato, pessoa simples, trabalhador braçal, e não resistira ao trágico acontecido da família. Abandonara a cidade desde então.

Com ele me avistei mais uma ou duas vezes, nas andanças ocasionais. Gostava de fumo brabo e outros agrados. Uma figura exótica por demais. Vivia, pois, livre pelos eitos da floresta tal nunca estivera noutro lugar. Isolado, esquecido, mera ficção da sociedade lá debaixo.

Nem sei bem porque que ontem me veio às lembranças aquela fase de minha vida quando vivera essas experiências distantes, a buscar isolamentos e reflexões à margem, e quisera descobrir fórmulas outras que não fossem meras repetições dos tantos embates daqui de fora da floresta. Dias adiante tivera notícias de Reis, e ninguém mais soube dizer onde andava, mas que sumira definitivamente nalgumas novas matas desses encantos da Natureza.

(Ilustração: Serra do Araripe (repodução).

Brisa lunar


A força que a gente nota quando a Lua chega no céu mostra claramente o quanto a Natureza domina o tempo e traz as revelações de que tanto carecem os seres humanos. Grosso modo, muitos imaginam que as existências dos dias estão abaixo do domínio deles, porém o significado é bem outro. Qual numa melodia, há que obedecer aos acordes e manter uma cadência. Então, sinais crescem da presença da Lua tão logo, desde sempre, esteja ela no firmamento.

Essa leitura das normas naturais pede atenção a fim de encontrar os códigos que tudo regem, desde a nós mesmos lá dentro até os ditames do infinito cósmico de lugares inalcançáveis. Houvesse, portanto, maior discernimento perante as inscrições definitivas e seriamos peças também ajustadas a esse grande todo.

Alguns valores também contam na avaliação que se faça das normas da Criação, quais nós mesmos e a estrutura de funcionamento interno dos pensamentos, sentimentos, das atividades humanas. O cuidado por demais necessário de saber traduzir as reais providências do organismo e nossas práticas de vida determinam de jeito claro o quanto viveríamos bem diante dessa afinação de conhecimento racional com o senso espiritual superior.

São peças valiosas os gestos da Humanidade com relação ao movimento dos astros, contudo a indiferença exige um preço elevado face a desequilíbrios no transcorrer das eras. Conquanto exista, pois, o zelo das maravilhas do Universo, ser-nos-á possível a totalização da espécie num sentido pleno da herança com que nos deparamos a cada fase da Lua. Uma conotação perfeita dos padrões a obedecer, e quase ninguém desvenda seus mistérios na ação constante que nos evolve.

A gente faz esforço de acertar e, por vezes, desobedece ao que nos falam os sinais da Natureza. Isso representa a urgência de adquirir mais conhecimento e vivenciá-los sempre.

quarta-feira, 19 de julho de 2023

Os espantos


Certa vez, ouvi de Laércio Vasconcelos algo a propósito de visita que fizera ao presídio de Iguatu, anos 60, acompanhando o cantor português Francisco José, ídolo no Brasil da música lusitana, à época senhor de apreciável sucesso. O artista visitava as cadeias apresentando sua música aos detentos, numa disposição de confortar àqueles que se viam privados da liberdade.

Na cidade interiorana do Ceará onde Laércio estava presente ao seu lado, Francisco José ver-se-ia atingido em cheio, bem na hora em que cantava belas canções, vítima de um ovo jogado de dentro das grades por preso que repudiava o gesto altruísta do cantor.

Impactado com a grosseira que sofrera, o que lhe constrangeu seria não achar uma explicação clara da ação descortês, diante do que demonstrou profunda decepção, e perguntava assustado: - Por que ele fez isso, se tudo que quero é oferecer o melhor de mim, já que não podem sair e assistir, lá fora, o show que farei?! Por quê, então, fez isso?!

...

Quantas vezes tais espantos acontecem no decorrer das experiências individuais... Por mais boa vontade que exista, surgem descontentes de várias ordens, dotados de razões inexplicáveis, frutos de desrespeito, desconsideração e revolta. Mudando o que deva ser mudado, imaginemos o peso do que sofreu Jesus em face de tudo o que promoveu de bondade neste mundo através de curas, ensinos, milagres, em demonstrações de carinho e orientação a tantos carentes. Palavras de inigualável beleza nunca haverá no caminho da verdadeira transformação que ofereceu.na vida inteira devotada  ao amor do próximo, exemplo de grandeza plena e absoluta, enquanto os humanos pouco viram da missão a que Ele se dedicou. Decerto sabia tudo por que passaria, restando para sempre nossa ignorância diante da ingratidão dos que necessitam por demais de esperança e paz, sobretudo nos dias de hoje.

terça-feira, 18 de julho de 2023

As barreiras do intransponível


Tais seres inanimados contidos por muralhas de um fortim abandonado nas areias do mais imenso dos desertos, cá vamos de passos dolentes rumo ao desconhecido. Vítimas tantas vezes da própria solidão, acreditamos em vagos sentidos e ansiamos distinguir a luz diante da contundente Eternidade sob o que adormecidos viemos aqui. Palmilhamos as pedras de uma caverna rigorosa de olhos abertos ao imprevisível das horas em movimento. Estes aventureiros do destino, divisamos de única alternativa continuar e continuar sempre na busca do Infinito de algum lugar certa vez. Há um sonho em todos nós de viver o inesperado de felicidade numa única atitude mística, pessoal, dos que têm a liberdade do impossível e nisso alimentam o desejo gritante de sobreviver a qualquer custo ao caudal da sorte persistente.

Depois de longos itinerários de vidas e vidas, de um instante a outro divisamos o Sol a iluminar o horizonte. Notamos alguém que existe nas dobras da própria consciência e alimentamos o firme propósito de revelar essa verdadeira identidade até então submersa aos impulsos da ausência dos animais que ainda somos. Abrimos os braços a tudo isso lá quando menos esperávamos e reunimos força de nos erguer aos céus. Poucos, no entanto, desvendaram a real necessidade que transportam do mistério em andamento, o que significávamos durante todo tempo.

Face ao poder da condição tão só limitada, restrita, de nunca ser de verdade é que advém o impulso instintivo de salvar a existência ainda que presa aos rochedos da angústia e do nada. Gastos, pois, os impulsos da verdade que nos sacodem o coração, apenas vultos vagam perdidos nesse mar de pouca ou nenhuma realidade qual transformaram o roteiro das noites de um mundo gasto e que se desmancha a olhos vistos.

E a gente o que disso concluir?! A que portos tangemos o barco das histórias que escondem o senso e aceita o desaparecimento sem o menor receio de ter de chegar a lugar algum. Bem isto esses tantos personagens que desempenham os papéis e desaparecem aos acordes plangentes dos sinos da imortalidade.

(Ilustração: Aquiles, o herói por excelência, de Arnóbio Rocha).

segunda-feira, 17 de julho de 2023

O fio da memória


Longo, um rosário de tudo quanto. Perene. Definitivo. A fonte do passado sobre que viajamos no barco do Tempo. Qual maravilha da Natureza, somos isto, o que fomos, somos e seremos. Arquivo de todos os instantes deixados ao léu, isto impera nas nossas ações aos pedaços que se somam a cada momento e realiza o plano do eterno aos olhos da nossa consciência.

Assim, desde sempre que nos conhecemos, trazemos conosco esse condão de marcas indeléveis, as saudades e as agruras que agora definem o que realizamos de nós próprios e tangemos nas hostes dos dias. A mim representa um dos motivos de estar aqui e contar do que guardo comigo, a fixar, nas folhas e palavras, este presente valioso tão preenchido de horas inesquecíveis. Aprecio o que ficou no modo de que jamais sumirá.

Nisto, divido em caixas distintas as vivências inúmeras das ocasiões por que passei, a observar nessa visão interna da mente cada gesto e as situações  palmilhadas, relíquias dessa eternidade que transporto na essência. Porquanto sermos peças que marcam a história dentro da alma, cumpro à risca o engajamento dessa missão.

Foram muitas as chances de exercitar a liberdade ainda parcial do que representamos nesse todo esplêndido. A consequência de um bloco harmonioso vive solta em nossas mãos. E além de autores também interpretamos o gesto do Universo que nos criou e contém. Fagulhas do mistério profundo, manuseamos a força viva dos nossos gestos e planos.

Sonhos lúcidos da existência, inscrevemos nas pedras do Infinito os olhos do destino que nos seguem através dos sóis. Nesses arquivos ora gravados impera o poder da origem donde viemos e o objetivo de aonde tudo isto há de nos levar. Fôssemos reviver e, decerto, criaríamos outros enredos e produziríamos outros quadrantes na forma imorredoura dos caprichos e das memórias perenes do que já significamos.

domingo, 16 de julho de 2023

Superfície das palavras


Isso de deixar vagar o pensamento através dos instintos de busca que trazem um senso que alimenta de imagens a tela da imaginação. São esses os milhões de impulsos a qualquer momento que invadem o quarto escuro da memória. A gente vive quase apenas disso, escravos que o somos de nós mesmos e senhores de fancaria dos romances capa/espada lá de antigamente. História assim que sucede a qualquer hora, nos hits da ocasião, e que deixam tontos de quando em vez os espectros sombrios desses vultos desconhecidos. Sair ao relento e presenciar a beleza das flores, o clarão da Lua, o nascer do Sol, o movimento de animais soltos na floresta virgem, as margens e os rios, as folhas que caem na velocidade do inesperado, tudo sujeito ao ritmo do Tempo e donatários das criaturas em volta que desaparecem numa fração instantânea.

Palavras, palavras que nascem dalgum lugar dos segredos guardados e tomam de conta dos desejos e das dúvidas, espécies de moléculas que preenchem a existência na forma de recursos inéditos. Vastos rebanhos que grudam os valores a conceitos e nisto submetem todos aos mesmos casarões da expectativa do impossível. Meros e pretensos intérpretes desses mistérios, talvez nutram a condição dos cativos da carne ao círculo intermitente dos dias que lhes fogem pelos dedos, escorrem no chão das almas e somem tais segredos enterrados nalgum lugar do Infinito.

Bom, depois que tudo isto for embora, nem as palavras restarão mais. Haverá outras e enormes dimensões estiradas no solo pegajoso das vaidades até agora incontidas. Séculos sem fim, amém. Catedrais doutros credos, iremos todos à cata dos novos empreendimentos na orla do abismo, lábios e mentes soltas aos vendavais da mera sorte dos ímpios. Seremos só isto, e olhem bem aonde se dirigem os comboios do destino, de ilhos abertos ao capricho das novas cortes que já formam suas bases na tecnologia pecaminante. Enquanto que haveremos de constituir uma nova vida noutras galáxias, após o crivo dos acontecimentos inevitáveis calcarem sob os pés as ilusões humanas.

sábado, 15 de julho de 2023

Influências e outras lembranças


Lá nos inícios de gostar de ler, conheci os contos de fadas dos livros infantis, lendas medievais, contos das mil e uma noites, os versos de cordel da feira, as primeiras histórias dos livros infantis da Editora Melhoramentos (livrinhos de capa azul de uma longa coleção para criança que fez absoluto sucesso nas escolas) e as histórias contadas pelos adultos às crianças, antes de dormir. Com isso, e demonstrando interesse em ler, minha mãe adquiriu também O Tesouro da Juventude, Mundo Pitoresco e Obras Completas de Machado de Assis.

...

Eles permanecem para sempre, os ídolos que nos fazem a cabeça. Vieram pela música, dos filmes, da literatura; chegaram e firmaram pés na nossa memória e agora sobrevivem qual jamais. Entraram na nossa história e ganharam status definitivo. Gilberto Gil. Caetano Veloso. Jorge Amado. Graciliano Ramos. Maria Bethânia. Gal Costa. João Gilberto. Milton Nascimento. Elis Regina. Raul Seixas. Chico Buarque. Godard. Bruñuel. Fellini. Agnaldo Temóteo. Roberto Carlos. Chico César. Almir Sater. Elomar. Torquato Neto. Capinam. Bergman. Truffaut. Machado de Assis. Manoel Bandeira. Cortázar. Jorge Luís Borges. Ernest Hamingway. Becht. Chuag Tzu. Leo Tsé. Buda. Antônio Bivar. Thomas Merton. Jesus. Viktor Frankl. Henry Miller. Sartre. Camus. Kurosawa. Edgar Allan Poe. Bradbury. Maupassant. Turguniev. Tolstói. Thecov. Sérgio Porto. Gláuber Rocha. Daphne du Maurier. Pasolini. Jorge Ben. Geraldo Azevedo. Joseph Cambell. The Beatles. The Rolling Stones. Bob Dylan. Elvis Presley. Cirino. Fagner. Ednardo. Belchior. Mautner. Wally Salomon. Florisvado Matos. Gérson Penna. Patativa do Assaré. Dimas Macêdo. Graciliano Ramos. Edmilson Félix. Monsenhor Montenegro. Gustavo Barroso. Joaryvar Macedo. Monsenhor Rocha. Padre José Honor. Lionel Brizola. Lúcio Alcântara. Levi Wenceslau, Carl Jung, Rabindranath Tagore. Van Gogh. Renoir. Pissaro. Picasso. Breguel. Bosch. João Cabral de Melo Neto. Márcio Catunda. E tantos mais.

Tudo somado aos meus contemporâneos de Crato, próximos de nosso convívio, com que privamos de longas jornadas através das artes e da cultura, a um tempo de tantas dúvidas e que, junto de nós, alimentaram o sonho da Geração Cósmica. Tiago Araripe. Raimundo Borges. Jurandy Temóteo. Pedro Antônio. Huberto Tavares. Flamínio Araripe. Jorge Carvalho. Eudoro Santana. Ermengarda. Assis Lima. José Esmeraldo. Abidoral Jamacaru. José Flávio. Roberto Jamacaru. Cleivan Paiva. Dihelson Mendonça. Luís Karimai. Gilberto Morimitsu. Célia Teles. Rosemberg Cariry. Jackson Bantim. Carlos Rafael. Antônio Vicelmo. Hamilton Lima. Armando Rafael. Heitor Feitosa. Jorge Emicles Pinheiro. Flávio Morais. Aglézio de Brito. Olival Honor. Plácido Cidade Nuvens. Luciano Carneiro. Edith Menezes. Maércio Siqueira. Edésio Batista. Tadeu Alencar. Geraldo Urano. José Roberto. Jefferson Junior. Eneida Figueiredo. Jósio Araripe. Ariovaldo Carvalho. Carlos Esmeraldo. Socorro Moreira. Claude Boris. Allan Bastos. Carlos Alberto Brito. Huberto Cabral. Hélder França. Hildelito Parente. Hugo Linard. Heron Aquino. Marcos Cunha. Ebert Teles. Almério Carvalho. Elói Teles. Pedro Ernesto. Geraldo Ananias. Lázaro Fontenele. Vera Lúcia Maia. Alzir Oliveira. Lirismar Macêdo. Baden Powell. Violeta Arraes. Alemberg Quindins. Renato Casimiro. Figueiredo Filho. Jefferson Albuquerque. Paulo Chagas. Paulo Tasso Mendes. Wellington Bringel. Roberto Brito. Ancheita Martinez. E tantos e tantos mais de tempos bons no Cariri.

São pessoas com que tive oportunidade, numa época de vida, de com elas movimentar os ideias de aprimoramento humano e social, enquanto segui a cumprir funções e produções pelos meios de comunicação e que, dalgum modo, me influenciaram grandemente. Paisagens de épocas de nossa evolução, a todos tenho admiração e respeito, isto sem  dos que virão aos poucos às minhas recordações.

(Ilustração: O jardim dos prazeres terrenos, de Ieronymus Bosch).

quinta-feira, 13 de julho de 2023

O poder infinito do Amor


Os poemas de Castro Alves por vezes regressam ao gosto do sentimento e marcam presença de um passado bem de hoje junto de nós. São falas do doce coração a reviver sonhos de antigamente nos olhos da imortalidade. Um querer de sempre, alimento das vivas impressões de horas eternas grudadas intensas na memória da gente, que se sobrepõem à vontade de permanecer nos momentos de felicidade. Unidas, ah quem pudera, numa eterna primavera...

Quantos lugares na alma insistem permanecer assim perenes no campo da continuidade. As existências inesgotáveis na música do instante, pedaços de emoções que sustentam os céus das substâncias de quando tudo houver depois, no sumiço das cores e dos movimentos. Nem sei lembrar o tanto de lembranças que flutua no decorrer desse mistério de estar e aqui permanecer para sempre.

As palavras têm disso, retalhos das paisagens de rastros inolvidáveis, sobrevivência dos haustos da alma em forma de colchas que o tempo sacode nas fímbrias do horizonte sem fim. Luzes. Imagens. Sentimentos acesos nas tardes intensas do universo das vidas. Amor, afinal. Força de um poder descomunal que rege fenômenos e sóis nos céus. Sacode as circunstâncias e alimenta o gosto de sustentar as barras dos dias nas hostes dos corações. Suavidade intensa, música terna e doces harmonias. De tudo, a luz definitiva de uma calma interior.

Fermento dos deuses, o Amor cobre de sonhos a inexorabilidade das dez mil coisas que compõem os acontecimentos. Sustenta a condição dos seres que sentem seus segredos guardados no tesouro da existência. Resiste a tudo quanto há, no fio condutor da essência que rege o Mistério. Amor, fonte suprema das histórias e dos personagens que nele movimentam o oceano das certezas. Amor, o limite das existências no sacrário de dores e virtudes, esperanças e realizações. Amor, o autor do quanto alguém imaginou e fez disso o eterno motivo de todas as aspirações de perfeição.

(Ilustração: Castro Alves (Câmara Municipal de Teixeira de Freitas BA (reprodução).

terça-feira, 11 de julho de 2023

Adeus aos engenhos


Uma das heranças marcantes do Nordeste ainda é o engenho de rapadura, com todos os seus mistérios e segredos. Quanto passado acumulou-se entre rústicas muralhas?!

Um mundo de estórias. Más assombrações. Gemidos de morcegos em noites profundas. Ratos a correr no telhado, onde apodrece a poeira dos tempos. Altas cumeeiras. Linhas de carnaubeiras. Telhas coloniais. Mugidos de bois vindos da bagaceira. O bater dos cambitos vazios de volta ao corte. Gritos dos cambiteiros. O cheiro gostoso da fornalha.

na fornalha, o mel está sendo preparado. O paiol cheio, a garapa despeja-se pelas altas bicas do tanque, e o batedor de caixas não para um instante. Corre para lá e volta, trazendo a caixa vazia. O caixeador, encostado à gamela, tange os apetrechos da água para a massa, lotando mais uma vez os espaços das formas. O mestre, de grande colher em punho, sacode o liquido fervente, reconhecendo o ponto de transportá-lo à outra caldeira. O tacho é de um tom vermelho cegante. A quentura abafa o ar, dificultando a respiração. A porta que dá para o bagaço está aberta. Por ela passam os filhos dos moradores, carregando para casa latas de mel e rapadura quente.

No bagaço está encostado o boi. O bagaceiro, junto à forquilha, arrasta para o couro o que sobrou da cana triturada. O capim verde, arrancado do brejo, fora colocado em frente aos animais, a fim de evitar qualquer contratempo devido ao barulho e a monotonia do trabalho.

Pelas bandas do Poente, as aves sentadas na jurema seca descem aos montes de bagaço, catando algo que lhes atrai. A bagaceira é de uma amarelidão ressequida. Nela está a secar o futuro alimento da boca do fogo.

Situada de frente ao beco, entre a casa grande e o engenho, a entrada do fogo é habitada por um único servidor sempre a par do ponto de quentura. Sua face enegrece-se, herói, o metedor de bagaço. Não para um instante e chega logo pela manhã, antes mesmo do Sol surgir. A fumaça é infernal.

Mais em frente, geme a caldeira. Áspera como a alma que a maneja; ela ruge, como querendo manter a vantagem que levou dos bois de tempos antigos. A cana agoniza ao ritmo lento das moendas localizadas num corpo de aço, por elas arrastada.

Na moenda, debruça-se, pelo peso dos feixes levantados do banco, o metedor de cana. Os pesados rolos de ferro esmagam entre si a arvore liquido. O som esparrama-se por todo o recinto lotado de cargas trazidas pelos burros. A palha é lambida das linheiras, nodosas varas suculentas pelas mãos ágeis dos homens limpadores. Depois jogadas em um canto. Servirá de estrume, quando nas roças do inverno distante.

Grande movimento do engenho. Misterioso. Cheio. Sacrifício de tantos. Alegria do Sertão. Farturoso. Fumacento. Cruel. Criminoso, Túmulo de muitos. Felicidade mas também escravidão. Amargores de raças inteiras.

Morrem os engenhos. Poucos persistem. A civilização os consumiu. Consumiu com ele a saudade. Vida. Famílias. Infâncias. Bons dias. Dias do fausto de antigamente.

segunda-feira, 10 de julho de 2023

No reino das interrogações


Nesse tempo de tantas parelhas que habitam o Chão das almas, fase de quantas máquinas espalhadas pelo mundo; eis que desponta a necessidade urgente de transformações consistentes no senso dessa humanidade. De tropeços e expectativas cá vamos todos, na certeza de que haverá meios de reverter o quadro da superpopulação pouco considerada diante da ganância dos líderes e senhores do poder político. Mesmo que de imediato haja isso de ansiedade e sofrimento, ainda assim persistirá o equilíbrio dos tempos. Quase ou nada se fez que demonstrasse o instinto de sobrevivência dos que padecem nos rincões de pobreza, nos guetos abandonados, nas crises de organização e formação. Existe, sim, excessiva propaganda dos que dominam os veículos de massa de que algo está sendo feito nalgum lugar. Sei, porém feito em proporções bem menores do que as reais carências.

Entra ano e sai ano perante o quadro de prevalência dos grupos totalitários, durante o panorama geral sem refazimento, que demora e raramente chega nalgumas nações, as ditas ricas e impositivas. Isso requer dos habitantes das gerações que desvendem o mistério do tal enigma do egoísmo que alimenta e fere, a desvanecer os recursos do Planeta de modo sórdido. Veremos, sei que será, o momento do ajuste das épocas perdidas, conquanto vivemos o ciclo de um aprendizado individual e coletivo sob a força maior da Natureza. As nomenclaturas e os métodos preveem a concretização dos sonhos humanos, isto desde os mais longínquos profetas na Civilização.

Outros sentidos inexistem senão o alimento da consciência dos líderes em formação, processo lento por demais, outrossim fundamental à transformação de que todos nós aguardamos de olhos fixos. O valor essencial da vida requer, pois, atitude e sensibilidade, otimismo e desejo ardente da união em volta dos objetivos verdadeiros da paz social e da justiça universal. A mim asseguro a firmeza de tais possibilidades, porquanto uma vontade imporá que queiramos a construção de um ideal coletivo de harmonia e felicidade. Tudo isto pulsa forte nos corações e nas nossas próprias mãos.

domingo, 9 de julho de 2023

Os cavaleiros da Távola Redonda


Só nesses dias recentes, 53 anos passados desde que inauguraram o Cine Educadora, em Crato, assisti ao filme que fora mostrado bem nos inícios de suas atividades. Tinha de dez a doze anos e a censura restringira em 14 anos a idade dos espectadores. Fiquei fora, olhando a fila dos felizardos, cheio de vontade de acompanhar a exibição, sem, contudo, lograr êxito. O comissariado de menores da Comarca era irredutível.

Depois de mais de meio século, pois, remexendo os tabuleiros das Lojas Americanas, dou de cara com o DVD do filme. Na primeira oportunidade deste mês de junho de 2011, sentei em frente à televisão e mergulhei com sofreguidão na história que já conhecia de livros, a saga do Rei Artur, da Inglaterra heroica de antigamente.

Desta feita, variadas interpretações subiram à tona para atender ao desejo do menino contrariado; ver as cenas, que antes eram em celulose e projetadas numa sala fechada, agora através de máquina que nem existia a cores na hora lá atrás; o mesmo filme proibido com sabor renovado; analisar a produção de cinco, seis décadas anteriores sob a visão dos dias atuais; e reencontrar os personagens da lenda inglesa, tudo em alimento do sonho simbólico que a arte proporciona.

No vídeo, Robert Taylor, Ava Gardner, Mel Ferrer, e outros atores menos festejados, encenaram o drama dentro do prisma amoroso que quis abordar seu diretor, Richard Thorpe. Largou de lado os aspectos apenas épicos da história e prendeu a trama nas intrigas da corte e na paixão de Lancelot e Guinevere, aos olhos ardilosos de Mordred e Morgana, inimigos figadais dos titulares no trono.

O que se vê: um Artur Pedragon encurralado entre o vínculo profético da condução do seu povo, substanciado pela espada Excalibur presa na pedra, e as questões palacianas, o que lhe custará o poder e a vida, desenrolar por demais solitário e trágico, conduzido à distância pelo mágico Merlin, guardião das forças do Bem no jogo de poder do reino de Camelot.

Em tudo isto, ainda uma esperança prevista com a vinda futura do salvador da Ilha, Galaad, o cavaleiro da promessa, filho de Sir Lancelot e Elaine.

Belo filme, posso dizer com tardança, que resistiu ao tempo devido à evolução da tecnologia da comunicação. Há esta chance de preservar as oportunidades e nutrir a perspectiva de nada se perder, guardado em algum lugar ao dispor das gerações. Quem diria houvesse a conservação de tantos registros através de monumentos e obras criativas, transmitidos no decorrer dos séculos? Músicas, livros, pinturas, esculturas, filmes, desenhos, jornais, revistas, elementos essenciais ao vasto conhecimento e à transmissão dos valores...

sábado, 8 de julho de 2023

O trilho do passado


Rastro imenso que deixamos atrás no caudal das nossas histórias. Milhares, milhões de momentos, episódios, ocasiões, situações... Num fio de longo alcance das circunstâncias vividas, é a presença de pessoas, os instantes da dúvida, as expectativas. Um filme que teve seu começo quem sabe onde e que terá fim nos tempos conhecidos que também vivem soltos na imaginação de tantos, engrenagens do Destino.

Esse trilho de nossas vidas mora em nós a caráter definitivo; uma conquista de aquisições, lembranças grudadas na nossa carne quais pedaços da gente mesma a perfazer o intervalo entre os sonhos e as esperanças, sentimentos, emoções. Isso que hoje acho fascinante no ato da existência, que preenche o espaço das ideias, das palavras e das atitudes, nem sempre vem de bom grado, por sucesso positivo. Serve, isto sim, de lição continuada, a indicar os caminhos vindouros aos nossos pés.  

Há, nas horas afins, quando esses instantes voltam com intensidade e sacodem o ninho das saudades a ponto de doer tal estocada ferina, indicando no coração o território do impossível de forma hostil, devastadora. Nesses surtos, rio cheio das sensações avassaladoras, torna-se necessário o domínio de si na descoberta de conter os excessos destrutivos. São os pensamentos que invadem o teto da memória e querem, a qualquer custo, exigir espécie de regresso ao sítio das recordações, preço alto impagável.

Os místicos ensinam que esse personagem exigente carece de ser disciplinado por meio da meditação, porquanto essas exigências que chegam de algum lugar de dentro vêm grosso modo e reclamam preços elevados do que ficou na estrada aonde jamais conseguiremos regressar. Numa correlação de pensamento e memória, a bem dizer que se forma outra criatura e quer nos dominar. Alguns dizem ser o Ego esse personagem, e precisa de freio, senão sujeita virar inimigo de nossa paz, e dela precisamos no sentido de viver e cumprir o que vem pela frente na longa jornada dos dias..

(Ilustração: Fahrenheit 451, de François Truffaut).

sexta-feira, 7 de julho de 2023

Não há manchas no céu


Os dois andavam às tontas de saber o quanto de risco habitava naquele cômodo escuro do sótão de uma casa abandonada. E tiveram medo, conquanto apenas vissem lá fora a guerra e seus movimentos devassos de marchas e contramarchas, de dor, tanques, explosões, crianças e mães aflitas a correr na rua cinza defronte. Enquanto isso, eram apenas dois perdidos naquela noite da alma e de aflições. Liam a natureza através dos vidros esfumaçados, cobertos da poeira do tempo. Era monótona de cascalhos e feras soltas.

Aguentar as dores daquele mundo tornou obrigação de sobrevivência; trocavam opiniões entre si sobre viver, amor, alimentos, sede, durante o tempo dos ruídos nefastos lá de fora. Mas resistiram o tanto suficiente de presenciar, nalgumas mudanças que as horas trazem, algo de possibilidade que definiu primeiras sombras de que logo ali ao lado novas chances de libertação mostrariam o jeito de pessoas diferentes da batalha virem em multidão às bandas de cá do leito da rua. Umas mulheres de trajes longos, cabelos escorridos, quais damas misteriosas do destino, olhos ofuscados na claridade com que se deparavam ao presenciar a paz.

Aquelas aparições vieram chegando silenciosamente; foram abrindo as portas de baixo dos cômodos da casa envelhecida; reanimaram eles dois e indicaram claridade do caminho do que, pouco antes, parecia final dos tempos em definitivo. O que só parecia desespero, impossibilidade, reverteu o rosto e revelou otimismo, alegria.

Assim, nas transições das nuvens que passam no firmamento, durante vezes, o universo parece fechado para sempre; em seguida, bonança sem par envolve as fibras do coração e os viventes nutrem de paz a consciência, um alento dos deuses que prevalece diante dos panoramas ocultos. Espécie de renascer estonteante, capaz de converter piores incrédulos, bárbaros e facínoras, porquanto há estrelas no céu que iluminam trevas e plenifica de amor os corações.

(Ilustração: 2001 - Uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick);

quinta-feira, 6 de julho de 2023

O que restará depois de tudo


A aceleração das máquinas aos poucos domina o silêncio. Houvesse um limite e seríamos surpreendidos logo após tantas lembranças ingratas que custeiam o quadro das muitas histórias. Existe quadro imprevisível que impõe o andamento dos acontecimentos. Nem os videntes mais entontecidos imaginaram tamanhas alterações dos planos originais.

Isto no que tange o universo geral das produções, desde filmes, livros, considerações outras da espécie humana desta hora. E saber que somos um só face ao panorama. Quais devessem destoar o coro dos contentes, enxovalham e pecaminam o quanto de expectativas girou o mundo até então. Mesmo, entretanto, houve de ser assim. Correram séculos e milênios, e debuxaram o espaço por meio das correntes dogmáticas que engessaram a fria política dos homens.  

Quer-se correr sem ter aonde ir. Baixar a cabeça aos espasmos e só. Ainda que o otimismo seja a lei do Infinito, somos tais e quais os mesmos de todo tempo. Restos das alimárias do destino. Contrições e sórdidos filamentos dos traços grosseiros das experiências humanas. Uns, os poderosos. Outros, meros joguetes do tabuleiro desse jogo insano das horas dentro das cápsulas em queda livre.

Parar um pouco e enxergar, no entanto, as forças vivas nas gerações inextinguíveis que refazem os planos e constroem novos barcos a preencherem o pomo das ilusões. Querer considerar o que disse até aqui e ter-se-ia espécie de circunstâncias instransponíveis à matéria que chegasse a uma transcendência espiritual. Eis, destarte, o que impera aos olhos abertos dos dados eternos ora em nossas mãos.

Portanto, de que adiantaria fingir que estivéssemos a caminho da Luz, visto sermos esses entes perplexos no espelho das nuvens que passam. Carecemos, isto sim, de novos padrões de infinitude e revelações em andamento. De que construir novas arcas se dormimos sob o louro de todas essas atitudes pouco imaginadas antes...

(Ilustração: Reprodução).

quarta-feira, 5 de julho de 2023

A busca incessante da realização do Ser


São tantos esses momentos, dos quais só alguns inesquecíveis. Na alma da gente, bem ali, pulsa vivo o coração; porém, numas quantas intensidades, o que determina continuar, o que prevalece no decorrer da Eternidade. É o som vago dessas harmonias, que cresce no mais íntimo das criaturas e ecoa ao longe, pelo Universo inteiro. Lembranças de razões marcantes que permaneceram, das vivências, das emoções, que determinaram a sequência natural da sobrevivência do ser; ânsias, lamentos e sonhos que permanecem guardados desde sempre, determinações que conduziram nossos passos rumo da felicidade.

Inúmeras vezes, elas regressam na forma de recordações; tristes ou felizes; sobrenadando por dentro das pessoas quais restos dos naufrágios antigos que teremos sido. Chegam, batem os porões da percepção e pedem que sejam ouvidas, espécies animadas que persistem e crescem à medida dos próprios desejos, pois adquirem vida íntima. Nem sei de que mundos regressam, tão incólumes e faceiras. Sei, sim, que avançam e dominam o território da presença nas pessoas. Gritam, revivem, sustentam, onde estejamos, a criar espaços intermináveis entre hoje e nunca mais, longas pontes do Infinito ao Desconhecido.

Preenchem espaços no pensamento, nos bastidores dos dias, até dominar as asas da imaginação e mergulhar o firmamento da memória; vivemos, assim, submissos dessas visagens do passado que nos dominam e crescem, senhoras feiticeiras de reinos encantados, restos de filmes de antigamente.

Do pouco que ora esquecemos do poder dessas influências misteriosas, disso a gente alimenta vorazmente o que restava de significarmos. Trabalho inevitável,  urgente, das sobras desses fantasmas, daquilo reconstruímos o ser que ora somos. Arquitetamos fugir sobre o abismo das horas mortas, e tricotamos tecidos de esperança, a revelar faces novas. Alienígenas de nós mesmos, batemos muitas portas à procura do que a gente seja de verdade. Fervilhamos pântanos, sobrevoamos hemisférios, experimentamos existências, enquanto a Paz crepita em nossas entranhas, no poder maior da Consciência eterna que nos aguarda logo adiante.

(Ilustração: Reprodução).

terça-feira, 4 de julho de 2023

Amplidão


Nalgumas dessas paisagens que vêm assim cheias de letras e palavras e imagens nalgumas delas há repetições de títulos, o que leva a mudar noutros a fim de chegar mais perto de contar as visões do interior dos túneis internos os corredores da alma da gente. Isso de querer falar o que todo mundo sente e também quer dizer e diz ou não diz de vez em quando. Na vontade incontida, pois, do trabalho da expressão delas das palavras nascem outros nomes de forma insistente do ato de narrar os acontecimentos das moléculas nas células, e dessas nos elementos do corpo através dos sentidos, busca de ampliar o ímpeto e reverter o quadro harmonioso do silêncio em outros quadros, jeito de sobreviver ao instante e narrar os acontecimentos interiores. Foram inúmeras as oportunidades de calar, porém do outro lado existem os que também querer conhecer o que ocorre dentro dos demais, nos sobressaltos dos caminhos e das histórias.

Diversos abrigos escondidos nas pessoas vagam decerto soltos nas prateleiras do mundo em gestos de papel, de sinais expostos ao vento do desaparecimento, convites ao sentido de procurar o sentido nos objetos e nos corpos em constante movimento. Eles, os pensantes humanos, nós, enfim, trocam de postos a todo dia, insetos fervilhantes nas letras em ação. Novecentos e sessenta e tantos suspiros viraram nisso literatura atirada nas calçadas do firmamento, e as perguntas continuam persistentes. Umas indagam da razão de estar aqui; outras o valor do perdão; as dores do espanto aberto dos corações enamorados; as nuvens que circulavam o sentimento dos poetas e dos heróis nas lendas; os vastos campos da compreensão que pedem maiores interrogações face ao desamor que circula nos presídios e nas fugas da culpa; por isso além de querer contar e levar adiante o impulso das gestas, vem daí alvoreceres dos poucos esquecidos deixados fora da sorte que ainda impera na força do pensamento a vencer as visões fantasmagóricas da ignorância. Ampliar nalgum lugar a consciência em atitudes de purificação dos seres que abrem os olhos pouco a pouco à visão do Paraíso.

sábado, 1 de julho de 2023

O poder que tem a música


Essa potencialidade que nos faz reviver o tempo. A gente retorna àquele momento exato de quando ouvíamos as mais variadas interpretações, da época, da fase da existência. Isso de uma força mágica. Transcendem as possibilidades da imaginação. Arrastam-nos de volta com as mesmas emoções, circunstâncias, presenças. Um verdadeiro sentido de reviver que sacode por dentro e faz com que avaliemos essa possibilidade do que contam as escolas místicas desses registros permanecerem intactos nalgum lugar do Universo. Horas distantes que ficaram nas nuvens, nos dias, regressam, assim, a sacudir de novo as lembranças guardadas, alimentos que, por vezes, pensávamos perdidos.

Dia desses, um amigo me enviou pelo WhatsApp uma sequência de belas músicas que marcaram época em nossa geração, temas variados, todas de ótima qualidade e que fizeram sucesso ímpar através do rádio, do cinema, dos discos, sobretudo. Uma verdadeira viagem no tempo; uma viagem de regresso a dias de expectativas, ansiedade, às vezes angústia, no entanto a preencher com toda intensidade tais instantes. Sacudiu por dentro de mim a trilha sonora desses mistérios que resumem o passado. Semelhante a longa viagem nos arquivos da alma, dali vêm as recordações, as oportunidades, os sonhos de outras vezes largados ao léu.

Face de tanto, chega outra vez uma gama infinita de pessoas, lugares, amores, filmes, livros, notícias, uma reconstituição daquilo que, na verdade, permanece intacto no coração. Daquelas apreensões do que seria o futuro naquele presente, hoje tiramos conclusões de várias ordens, tudo por conta desse poder inigualável das notas musicais, das letras, dos intérpretes, algo valioso.

Há momentos em que avalio a profundidade espiritual de cada um dos sentidos. O tato requer a presença da matéria que possa sentir. A visão também necessita de objetos ou fenômenos perceptíveis. A gustação, por sua vez, exige o conteúdo de algo que satisfaça as papilas gustativas. O olfato, menos um pouco, no entanto precisa de um contato direto com o emissão de odor. Já a audição trabalha o invisível, o que vem no ar e toca os ouvidos, o que quero admitir ser o sentido por demais vinculado ao Espírito. Bom, são considerações gerais de quem busca usufruir das benesses da boa música.

(Ilustração: A música no Egito (https://www.todamateria.com.br/historia-da-musica/)

O silêncio de todos nós


Isso que somos agora, loterias de movimento incessante. Em cada cabeça uma sentença. Todos, sem nenhuma exceção, aqui, neste exato momento, trazemos a interrogação e resposta de nossos dias. Valor inestimável, teremos cá de dentro a resposta dos nossos sonhos. Bem isto, o fruto de todos os dias, painéis em constante formação, eis o que o somos. Aparentemente senhores de si, no entanto um jogo de claro-escuro pela vida afora. Dois lados do mesmo grão, trabalhamos a necessidade urgente de harmonia. Colhemos a todo instante essas fagulhas desta fornalha.

É que viemos, a fim de resolver de vez a equação do Destino, o que passa dentro da gente feita razão de tudo quanto há, durante todo tempo. Esses dois seres extremos em um só habitam a nossa essência na busca de paz, numa medida certa dos acertos e descobertas. Açúcar e sal, tangemos os dias vidas adiante. Desejamos o melhor, porém à medida do domínio que se faça dessas forças que assim conduzimos neste ser que significa indivíduos em aprimoramento. Simples e direto, o conhecimento sacode a tal máquina das circunstâncias e propicia os meios de respostas perante desafios que os transportamos.

Nesse tribunal da consciência, fervem anseios e verdades, contradição só aparente, porquanto desse modo deveria acontecer. Nem de longe existe a quem reclamar senão a nós próprios face aos desatinos e praticados. O resultado disso vem, sem falta, na ordem do firmamento. Se houver de quem indagar, indaguemos do silêncio que em nós vive guardado sempre.

Portanto, alunos e professores, o segredo da transformação lá um dia virá à tona, razão de tudo quanto o Tempo traz a mover as criaturas. Todo momento, pois, criamos em nós o universo de que somos motivo e artífices, na Lei maior de nosso Eu superior.