segunda-feira, 12 de abril de 2021

Hora de passar o mundo a limpo


De que adiantou saber tanto e não praticar, ou praticar pela metade. Ou não saber. Nunca se descobriu tantos mistérios, no entanto a natureza permanece a nós desconhecida nos momentos mais críticos. Há que haver uma autocrítica severa diante disso tudo que vem ocorrendo. Repensar a finalidade e o que significa existir. Rever objetivos. Crer verdades nas potencialidades que nos sobram, a fim de construir o mundo novo de que falavam os visionários. Sonhar acordado, mas exercitar o direito de sonhar de todos. Exercitar as virtudes que decantam os filósofos, os santos e profetas. Aonde foram parar os planos de viver em paz numa sociedade justa das histórias que contavam nossos avós em volta da fogueira? Por que encontrar as respostas e as deixarmos de lado quis fossem apenas ficções?

Enquanto isto, as leis da natureza prosseguem inevitáveis frente às estações, senhoras de si, por vezes severas, exigentes daqueles que as utilizam ao bel-prazer das humanas vaidades. Quanta exclusividade nas classes sociais dominantes, nas imposições da força bruta que arrasta os séculos, quantos gastos em armas, em sistemas de sacrificar populações no interesse de alguns, das elites hegemônicas... Quanto descaso no exercício da honestidade, do respeito aos demais, da ganância, interesses escusos... E querer respostas diferentes daquilo que apresentam, vê-se nisso as garras afiadas da ilusão que exigem justiça inevitável no decorrer das gerações, nas muitas ciências que devíamos guardar com zelo. Nada ficará impune nos delitos praticados em detrimento da paz.

Ainda que perfeito, maravilhoso, o Universo detém, infinito, o poder das vidas em todos os sentidos. E esse mundo principia dentro de cada um de nós, no espaço restrito de um tempo em movimento. Que estamos fazendo de nós mesmos, das nossas potencialidades em favor de revelar os valores positivos de existir em harmonia com as leis da Criação, apenas os indivíduos são capazes de responder, pois as determinações da existência assim impõem. O fazer do que nos resta face ao futuro desconhecido, só os seres humanos haverão de mostrar, nestes tempos de uma sobrevivência quase que tardia.

domingo, 11 de abril de 2021

Convicção


Além das certezas, logo ali perto, onde existe o território franco em que impera a entrega absoluta, isto livre de outras considerações, numa firme representação do que denominam Fé. Conceito por demais elaborado nos estudos das religiões, tal seja o Amor, tal disposição do ser contém valores adquiridos no decorrer das existências. Bem quando os conceitos das verdades várias deixam cair por terra os princípios só intelectuais, há que se adentrar o âmbito desse mecanismo guardado a sete chaves nos mistérios da consciência mãe. Reunir, assim, tudo enquanto vivência e valores, e mergulhar de corpo e alma no universo inesgotável da crença numa verdade única, indizível, insofismável, depois das considerações dos povos, tempos e costumes. Adiantar nos séculos e milênios e conhecer a claridade do poder divino.

Nisto impera o silêncio das horas, mares de infinitudes, sonhos de paz, ausência de preconceitos, divisões, obstáculos que sejam... Apenas a serenidade dos deuses na fronte das criaturas, passados que foram tempos de solidão e desventura. Novas florestas de esperança, desejos de serenidade, olhos de transcorrer as alturas e obter meios de cruzar os abismos mais profundos. A força plena do ânimo que sacode as bases da indiferença e impõe urgência de acalmar os pensamentos frívolos. Voos siderais às plagas celestes de que somos herdeiros e viventes.

Quantos disso necessitam, porém deparam laços de dúvida, amarguram intransigências da matéria, padecem a fome das alturas sem, no entanto, elevar aos céus o ímpeto das dores em princípio de vitória. Mesmo que limitada, a nossa humanidade atravessa, ardorosa e vadia, essa barreira do som das circunstâncias, por vezes longe de conhecer a que veio aqui. São gerações sucessivas de aprendizado pelas escolas deste mundo. Ardorosos aprendizes dos tantos sinais, contudo meros serviçais de sortes incertas, instrumentos de marcos ilusórios, transpiram necessidades desta condição dos entes fieis, heróis de novas danças e lúcidos donatários da Eternidade.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

As portas da ilusão


Largas, imensas, rasgam as vistas... Escancaradas bem na margem dos passos dessas criaturas humanas, por via do pensamento vacilado, torna-os meros escravos de si mesmos, entregues às ganas dispersas da ilusão entontecida, imprudente, das longas noites de loucura, vastos campos de amargas visões, dorsos amolados na fraqueza daquelas almas inebriadas de alucinadas perdições, dromedários dos vícios e das sombras.

Foram, pois, muitas daquelas horas de coragem às avessas, nas aventuras de abelhas de fastios exasperados, longas filas de zumbis lançados aos universos inexistentes, pecados de religiões invertidas e à toa, no tempo e no espaço fugido, ao longo das patas daqueles animais enfurecidos no deserto.

E pensar que a morte não é o fim, só um novo recomeço. Regras imortais das calandras desse mundo de surpresas, viemos aqui tão apenas experimentar viver e aprender, reconhecer as tantas oportunidades na aplicação do fenômeno vida, instrumentos de elaboração da consciência que o somos e seremos sempre. Nesse dizer, resta aprender, guardar o definitivo das luzes que percorrem o firmamento, experimentos de segredos tenebrosos.

Insistir em renunciar a tudo isso na intenção dos acertos, construir novos seres e salvação no íntimo da criatura em crescimento espiritual, foi assim e será o ofício da natureza, no coração de todos nós. Aprendizes do destino, talhamos vencer a ilusão num esforço necessário à libertação que nos aguarda mais dia menos dia.

Conquanto ainda em aprimoramento, no entanto seres de poderes incríveis, na força suprema de criar o painel das histórias individuais, qual função inevitável, no gesto de existir nas dobras do tempo onde habitamos. Senhores desta possibilidade às nossas mãos, construímos o futuro ao sabor do presente. Somamos força ao poder infinito dos mistérios, e dormimos no seio do Eterno quais minúsculas partículas da perfeição de que já somos dotados.

terça-feira, 6 de abril de 2021

O rei de cada barriga


Nesses tempos que é de guerra e paz, dormentes e impávidos lá vão eles, os donos do poder de tudo, ou nada. Umas, vestais de credos desconhecidos; outras, senhoras dos ares e dos mares. Que vale dizer tangem os rebanhos das consciências nas trilhas das lendas. Claro que existem os menos inúteis, no entanto que carregam consigo do pouco que juntaram das tralhas dos vagões. Olhos acesos nas sombras do que deveriam carregar, esquecem o peso e transportam multidão de ilusões em forma do vazio que significam viver. Sóis e luas, arrastam cruzes e matulões de vaidades soltas, cacarecos da ansiedade, das dores atrozes do desespero, de amanhã, de horas desejadas de ambições perdidas. Eles, muitos, bichos de lata e cavaleiros da solidão.

Isso bem dos tempos quando as amarras dos navios começavam a virar fiapos de lã num mar de vícios. E as luzes do alvorecer pedem mais sinceridade às criaturas, estas peças de reposição do destino cheias de certezas artificiais e cicatrizes de combates que nunca aconteceram dentro de si. Apenas saltimbancos doutros filmes jogados à lama dos séculos, à lata de lixo da história. Neles, que as esperanças viraram feras sem dentes e lâminas de papel toalha. Quase isso, de alimentar o firmamento de seres destinados a outros planetas vindos bem de longe, certo dia, à cata dos seus habitantes.

Fôssemos recorrer aos sonhos da ficção, diríamos só que já atravessamos o lodaçal dos resultados aqui plantados no decorrer das civilizações, conquanto aguardamos nova fase de alegria e uma coletividade fraterna, fruto do que até agora aprendemos a ferro e fogo. Nada, porém, foi para sempre, se assim o será nalgum momento perante as ilusões de um chão de tanta fantasia. Há que haver, por isto, solo fértil de verdades absolutas, oportunidades da visão plena e dos valores eternos, que persistem acesos em nossos corações.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

A lenda da Pedra da Batateira


Eis o título do livro de Fátima Teles, que traz por subtítulo Uma história do Cariri, há pouco lançado, contendo ilustrações de João Alves, numa confecção gráfica da Premius Editora, de Fortaleza CE, 2020. Obra de cunho etnográfico, aborda em detalhes o mito maior da região do Cariri cearense, narrativa esta por demais conhecida, segundo a tradição, fruto dos tempos da colonização portuguesa. A autora desenvolve o tema distendendo sua narrativa em estilo prosaico e cordial, qual de uma avó, Dona Maricotinha, que conta aos netos esses feitos de quando os índios foram daqui expulsos de suas terras em nome do progresso e da civilização europeia. Resultado disso, esses tempos de agora e suas características profanas industriais.

A autora, no entanto, distende sua proposta a eras mais remotas, tratando do período Cretáceo, que bem caracteriza esta parte de mundo da Era Mesozóica, de quando surgiram as flores na Terra, enfocando, com isso, detalhes da nossa paleontologia regional, exaustivamente estudada, que marca presença nos anais acadêmicos. Vê, em paralelo, o aspecto ecológico conservacionista, por sermos detentores da primeira floresta nacional do Brasil, a Floresta Nacional do Araripe.

Assim, ao momento em que a escritora Maria de Fátima Araújo Teles, neta do emérito educador de Brejo Santo, Professor José Teles, nos conduz pelo universo da cultura original do povo e suas lendas, a publicação evidencia o talento de João Alves de Queiroz Neto, jovem desenhista que revela talento e criatividade neste livro que mereceu a revisão de Cleide Souza Teles, equipe esta que vem, com esta obra, enriquecer nossos acervos e aprofundar os conhecimentos de tradição rica e surpreendente, patrimônio, agora, também das novas gerações.

domingo, 4 de abril de 2021

Aos olhos da noite


Desde quando, lá adiante no céu do poente, o Sol esquece um dos lados da serra, nesse exato momento nasceu a noite, manto de negrume desenhado de estrelas. Bem ali, nas dobras do silêncio da natureza, outra realidade principia. Assim também nas pessoas, exames mais profundos da condição humana arma laços de busca lá dentro. Quais reflexos de si mesmos, caçam mistérios e respostas aos enigmas na Criação que vivem nas entranhas desses mundos que o somos. Saber de nós, das sombras que envolvem a compreensão de tudo, querer conhecer do que nos resta. Desvendar as histórias que acontecem e quase nem as dominamos. Pedaços de pessoas largadas no extremo de todo dia. As graves perguntas dessa existência que vêm mais fortes nessa hora.

Espécie de fantasmas da própria consciência, esses hominídeos vagueiam nas sombras à cata de reaver o que o dia os levou a deixar vidas que se consomem no furor do tempo. Fitam o vazio da compreensão e querem descobrir a que vieram, tais escravos de senhores esquecidos nas sombras que chegam.

A humanidade atravessa, pois, tempos tais, de tantas e largas indagações, porém certezas desconhecidas que lhes escapam à fome de saber. Marcas e filamentos dos lençóis esquisitos que os dominam, feitos fragmentos inúteis, lançados ao solo nas sementes e criaturas numa velocidade inevitável, nessa fase da história.

Qual manto de severa culpa, movem as estatísticas os números dos que se foram, aumentando inexplicavelmente novas perguntas, preenchendo o teto das condições deste chão. Vorazes senhores da transformação dos seres em objetos, seguem seu curso independente da ciência desses homens. Ninguém quer sumir de repente, no entanto aumentam os números ausentes, numa fase que já demora passar. De tão distantes e tão perto, a escuridão desses dias lembra as sombras noturnas que invadem a Terra, e os homens fixam no horizonte a sede do desejo de uma vida longa, saudável.

(Ilustração: Noite estrelada, de Vincent van Gogh).

O poder infinito da oração


Pouco antes de sua morte, o Rabi Haim disse a um visitante: - Contasse eu nove amigos fiéis, com cujos corações o meu batesse em uníssono, cada um de nós meteria um pão na sacola e sairíamos juntos para o campo, e juntos andaríamos juntos pelo campo, e oraríamos e oraríamos até que a oração fosse ouvida e viesse a redenção.
Martin Buber (Histórias do Rabi)

 Há alguns que oram dentro de tamanha convicção que as portas do Infinito se abrem e deixam passar a contrição. O fervor dos corações em plena coincidência daquilo a que oram e propicia o reviver as certezas e transformar o instante no que de melhor pedem os fiéis na força da convicção do Absoluto.

A oração qual fonte que vem dos que reconhecem a presença de Deus nos indícios do poder sem limites da Verdade. Abrem de si a leveza da emoção superior e deixam nascer a possiblidade de partilhar a força do mistério tenebroso na imensidão da vontade pura. Orar, que possibilita os meios reais de encontrar a própria essência do ser.

Daí o valor inestimável da prece com toda a intensidade da alma. Buscar uma forma de encontrar a resposta adequada aos nossos pensamentos de conforto. Fazer valer a fé em ação nos refolhos da consciência e chegar mais além das limitações do pensamento. Viver de dentro a experiência de falar com Deus. Circunscrever a vivência de guardar na certeza a glória infinita do Amor. Viver, afinal, o que de melhor possa, no sentido de responder ao vazio que, por vezes, quer tomar de conta dos dias escuros e trilhar as respostas que correspondam à conformação, e tranquilizar crises, situações inesperadas.

Uma forma de responder ao senso das fragilidades humanas. Sonhar com o impossível em termos de convicção e fervor.

(Ilustração: Angelus, de Jean-François Millet).