quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Neste mar das palavras

Lá um belo dia e você se descobre vivendo o mundo forjado só de palavras.

Sim, onde tudo tem de ter um nome, e se não tem está ali aguardando, esperando em alta voltagem a garras da apreensão humana de querer nomear de qualquer jeito o que encontra pela frente, ânsia incontida de domínio, de conquista. Olhou, quer logo denominar, formar a ordem no contexto antigo, ainda que por vezes careça de comprovação, no entanto quer correr e registrar o fenômeno. Surgiu nas dobras da memória, receberá o nome. Criou, produziu, inventou, carece de ferrar, no instituto e na instituição imediata de soldar a vida nas provas da consciência, de armas em punho. Visitamos continentes, e deixamos nossa marca nos acidentes geográficos, bichos e matas. No mínimo assinalar presenças no descobrimento das possessões do além-mar; desceram  homens nos botes do calendário e as eras dos encantos e das belezas viram o chão dos rastros de gigantes entontecidos, que ponteiam suas posses materiais, que viram fumaça, e transportam o que bem lhes aprouve nas caravelas de madeira e pano, rumo aos velhos continentes dos significados em blocos de areia e concreto das palavras soltas ao vento.


... Santificado seja o Vosso Nome, venha a nós o Vosso Reino e seja feita a Vossa Vontade, assim na Terra como nos Céus... 

O poder que as palavras detêm assim sustenta religiões e crenças, dogmas que invade o campo do mistério e nutre de paixão os sobreviventes dos textos, das epopeias. Queira alguém preencher o espaço das humanas relações, ali impera o furor agressivo das palavras, verbos consistentes da qualidade dos hábitos firmados nas letras dos hinos e das orações, ejaculatórias de precisão de todas as gerações matemáticas de tantas e doces melodias, que enchem de fórmulas e luzes a sede dos corpos na consciência surda.

Aonde seguirem os espíritos que habitam as vastidões e paragens, consigo levarão sentimentos e virtudes das dores e dos pecados, ilusões e verdades que viveram no cocho das palavras, redes inevitáveis de pensar e tecer as moléculas do sistema que elaborou, fez nascer, perecer, foles do ferreiro intangível da Criação. Uma mística, as senhoras palavras. De símbolos virão entidades reais dos os atos da raça de fazedores de lembranças, tais substitutos da ausência dos gestos e das visões que contêm, a todo custo, o direito de eternizar o momento nas palavras.

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