terça-feira, 24 de outubro de 2017

Contos zen

As vertentes místicas das religiões cumprem seus deveres de ensinamentos através das narrativas simples que tocam a faixa intermediária entre a razão e o sentimento, área neutra por meio de que será possível vislumbrar a essência do mistério. Toda religião leva em conta esse braço mais prosaico, menos afeito a tiradas filosóficas propriamente ditas. São os místicos do Catolicismo os Padres do Deserto, além dos santos, que buscam a solidão dos montes, os mosteiros, os conventos. Do Judaísmo, os rabis do hassidismo. Do Islamismo, os sufistas. Do Budismo, os mestres zen.

O Zen-Budismo dispõe a seu modo de historinhas simples, os koans, os contos, que oferecem meios de interpretação da Verdade à luz dessa neutralidade mística que não significa teoria nem prática, e significa as duas alternativas a um só tempo. Na ocasião em que o discípulo galga o nível da compreensão profunda, ocorrerá um insight, qual seja um relâmpago interior, que ocasiona infinita lucidez, também denominada samadhi, ou satori. Eis o início da vida de mestre, em que sairá pelo mundo a oferecer tais percepções a outros noviços.

Essa iniciação acontece, portanto, através de exercícios de concentração e meditação, nos espaços próprios dos monastérios, até esse dia quando a luz lhe tocar a consciência. Bom, uma vez trazido este assunto, cabe mostrar alguns koans, ou contos zen.

- Um monge acercou-se do Mestre e perguntou:
Qual o nome que podemos dar a uma pessoa que entende a verdade, mas não a consegue explicar por palavras?
Respondeu: Um mudo comendo mel.
E a uma pessoa que nada sabe sobre a verdade, mas fala sempre dela?
Um papagaio repetindo as palavras que ouve.

- Um noviço queixou-se ao Mestre: Como se está a tornar difícil meditar. Ou me distraio, ou partes do corpo, em especial as pernas são assoladas por dores terríveis. Por vezes, invade-me uma sonolência letal, que me obriga a dormir. Estou plenamente desiludido comigo mesmo.
- Verás que tudo isso é passageiro, respondeu o velho Mestre com suavidade.
Decorrido algum tempo, retornou o noviço: - Mestre, que felicidade a minha. A mente atingiu um estado de suprema tranquilidade. Meu corpo não tem dores e está perfeitamente descontraído. Sinto-me em paz, em união com todos os seres, com o Universo, um estado de maravilha constante.
- Isso também te passará.


(Do livro Textos do agora II, de José Maria Alves (www.homeoesp.org).

Nenhum comentário:

Postar um comentário