sexta-feira, 28 de abril de 2017

Um coração de amar

Quisessem reunir todos os filósofos e lhes pedir a resposta definitiva quanto aos universos paralelos e todos os mistérios que circulam nestes ares, e eles quedariam incólumes nas suas elucubrações. Baixariam cabeças tão fustigadas de interrogações, exangues e submissos aos segredos naturais. Parariam defronte aos portais do Infinito e renderiam graças à pequenez da função mental, cientes da ausência pronta das contradições que buscaram desfazer, no afã de acalmar os ânimos da Humanidade.


Quantas vezes o gosto do desconhecido alimentou a vontade extrema no desejo de concretizar o sonho das novas realidades, confirmando o propósito de vencer as limitações da matéria. Firmar em bases sólidas o ímpeto de viver a coerência das espécies. Cruzar as barreiras dos impossíveis e tranquilizar as almas, na febre terçã de solucionar os limites da morte. Vencer, sobretudo vencer as fragilidades do Chão. Erguer os olhos à imensidão dos céus.

E no valor maior das existências, pousar nos planos abençoados da Eternidade, sem sofrer mais os percalços das contradições. Quanto de solicitação elevamos ao cérebro, que nem de longe responderá a tantos pedidos... Baixamos os olhos, só então, depois de reconhecer a fragilidade daqui; dobramos o cenho e aguardamos fiéis as normas justas da Verdade. Lá de dentro do coração, o laboratório da Salvação, virá a magnífica escritura da Paz.

Lá seremos reis de nós mesmos, pois a isto aqui chegamos, fruto do plano divino da felicidade maior. Receberemos da química do Amor essa luminosidade das maravilhas. Ser-nos-á depositado, no equilíbrio absoluto dos nossos seres, o alimento definitivo e prudente da elevação ao páramos superiores. Bem nessa hora tudo nos animará o senso. As situações ver-se-ão resumidas ao foco da plenitude, religião das religiões, único objetivo de tudo quanto há. Assim, o poder inesgotável da harmonia abraçará de suavidade e união os valores de que um dia seremos os herdeiros e autores desde as origens.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

A infâmia da contradição

Vejam quem me pego lendo, diante dos absurdos em que a política se reverteu neste começo de século no Brasil. Jean-Paul Sartre. O Ser e o Nada. O velho problema da liberdade e da responsabilidade de novo a levantar a crista, no auge de todas as agruras morais do neoliberalismo que dominou o mundo inteiro, não sendo aqui exceção. E a classe política estéril deita os intestinos ao terror da inutilidade. Talvez inimaginável diante de todas as ficções, tão só culpados chegam ao palco das sombras de mãos abanando, a receber prêmio do fracasso que impuseram ao tempo.

Não bastasse em que se transformou o senso clássico da administração da sociedade, herdado de gregos e romanos, apenas o interesse individual prevalece e deita seus tentáculos a credos e cores, numa sanha de ganância jamais prevista nas terras cabralinas.

O desespero pequeno-burguês de arrecadar em conta própria, confiar em quem agora?, toscos parasitas de boteco. Em que fragmento, que ideário, quais sonhos... Enquanto a massa populacional apenas repete os slogans vencidos do desespero e da alienação tecnológica. Passar aos outros embriaguez de fama, dos prazeres fáceis, na intenção da cidadania inexistente. A que santos acender as velas? Era infame esta, quando a História exige atitudes e entendimento e os filmes viraram superproduções ideológicas descartáveis. 

De cabeças enterradas na areia, o exército dos acadêmicos entediados apenas reclama melhores salários a fim de preservar a dominação do gigante Moloc, senhor das terras e dos mares de todos os continentes. Ninguém sabe mais onde mora o dono da máquina totalitária que impera nos mercados digitais. 

A liberdade, esta esqueceram nas prateleiras do passado. A responsabilidade, a transferiram aos outros por demais, aos zumbis dos subúrbios, que ainda insistem manter funcionando a máquina esfumaçada e vadia das antigas fábricas. 

Nisso, urgente, olhos postos na realidade inevitável, a consciência humana impõe o compromisso das horas aos ombros das novas gerações. Admitir o erro requer humildade e profunda reflexão de tudo, da incompetência posta em prática até que hora, onde quer que seja. Os horizontes cinzentos, sim, gritam aos ouvidos das maiorias silenciosas o dever que lhes chama, no mínimo a título da sobrevivência de uma espécie bendita. 

(Ilustração: Jogos infantis, de Pieter Brueguel).

terça-feira, 25 de abril de 2017

Há que se pensar

As mudanças de viver que restam às pessoas, os rastros da Lua Cheia nas madrugadas, os metais com que fazem as armas de matar as feras que somos nós, em tudo e por tudo há que se pensar. Diante das ilusões extremas de passar o tempo em meio a tantas inutilidades que significam transcorrer os calendários nas frias ausências, as pessoas a cruzar o caminho umas das outras, os veículos espaciais a circular nas mentes enganadas, tantos temas e coisa alguma, há que se pensar, imaginar, usufruir. Enquanto as poças do inverno enchem e secam aos sabores do vento, do Sol e dos momentos, a refletir estrelas e carrosséis, multidões indefesas perante os tribunais do dia, marcas avermelhadas no cristal do firmamento, tudo por tudo, deixa margens imensas aos horizontes da verdade, à medida que palavras nada dizem e o desejo imenso de responder aos enigmas parece fazer nenhuma diferença.

Em todo parágrafo da escrita, um passo na história da sobrevivência. Sinais de estradas escondidas nos socavões doutros mundos. Vontade soberana de achar as respostas que desaparecem sempre a toda esquina, deixando vazios abertos às novas oportunidades que sucedem. 

Aos poucos, na repetição das frases, o prazer de descobrir a inexistência da matéria que simplesmente representa apenas energia em movimento nos objetos e nas pessoas. Pedaços de reinados jogados fora, os sentimentos quase falam de vilarejos abandonados, nas montanhas mais distantes de si mesmo. Películas e películas sem nexo. Sabores inúteis de frutos proibidos. Olhos dos animais selvagens iluminando as sombras. 

Quisessem reunir assim num só e único bloco de significados tudo quanto existe, o Eu sobraria livre de solucionar os objetivos de estarmos aqui e pouco saber do final desse drama humano. Doses de indiferença das criaturas em relação a elas e às outras bem revelam quanto viver reclama de que há de se pensar muito e por demais.

(Ilustração: Salvador Dali).

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Compaixão

Diante de circunstâncias por vezes adversas temos de pensar além de nós. São dores atrozes que raiam todos os limites da capacidade humana de resistir. Quais seres pequeninos que já somos, exigem respostas de continuar a peleja desta vida. Sobreviver face tudo, inclusive aos extremos de suportar a vulnerabilidade. A quem elevar os olhos da alma? Depositar o tempo e viver em paz? Nisto é a hora de erguer a fome de amar, razão principal do percurso das vidas. Salientar dentro do Ser de que somos parte o direito da conformação. Pouco importa nomes, endereços, tempestades, há de haver conformação. 

Nesse duelo entre a dor e o amor existe vida. Nós existimos bem ali. Testemunhas dos dramas universais da consciência em desenvolvimento, nessa hora descobrimos o quanto valem bons sentimentos, a força da compaixão, da aceitação da dor qual instrumento de revelação da Eternidade em nós. Vêm daí as buscas, os segredos sussurrados nas religiões, os pousos das escolas que ensinam trabalhar a si mesmo por meio do autoconhecimento. 

Aceitemos que existem mistérios a serem descobertos. Isto significa humildade. Admitamos o quanto ainda temos a aprender no espaço que resta até chegar à Perfeição, à realização pessoal, e aos poucos alguma claridade nos envolverá. Obedecer com esforço o peso da cruz em nossos ombros representa, pois, o dever que nos cabe nessas horas.

Porém jamais desistir de aceitar a bondade qual motivo de viver tudo e todos os momentos. Nem de longe contar a fuga dentre os elementos à disposição. Só amar, e amar muito, de olhos abertos ao poder monumental da Natureza de que nós somos e conduzimo-nos aos Céus.

Uma entrega absoluta, sem precedentes, sem condicionamentos. Eis o que compete aos deuses em elaboração que despertam a todo momento.

terça-feira, 18 de abril de 2017

O sonho do impossível

Impossível no aqui do rés do chão, onde habita a desilusão da carne de endereço já conhecido. Aqui, pátria em que o limite do perecível se desmancha no ar feito matéria dos sonhos gastos. A gente alimenta a perenidade do prazer, e prazer nega fogo, quase inexistência, não virasse assunto só de memória, leito frio do passado. Nisso, correr para onde? Passado, inexistência acumulada. Futuro, expectativa. Só o presente, silêncio, teimoso, a contorcer as entranhas do desejo e alimentar os becos da solidão.

Vêm os mestres e noticiam a esperança. Nutrem a vontade e a fé, sussurram do inexistente as notícias, mesmo que diante das maquinações da sorte que insiste deslizar das nossas mãos. 

No entanto heróis sobrevivem na história, sustentam ideais ainda que impossíveis. Resistem naquilo que defendem face ao desconhecido. Avistam o que outros não vêem. Indicam alternativas nos reinos de outros mundos. Revelam municípios estranhos à ordem daqui debaixo. Dão mesmo a própria vida em favor dos segredos que contaram aos homens adormecidos. Falam de mares profundos na alma do Inconsciente. Demonstram a ciência da certeza de persistir depois que passam, portais da imortalidade plena.

Falam do que ninguém pode falar sob o peso da matéria densa do corpo só físico. Noticiam de universos imaginários inimagináveis. Dão, por isso, a vida nesta dimensão de impossibilidades, aonde chegam e voltam todos os dias os milhões de corpos físicos. De coragem admirável, eles mergulham no mistério e regressam contando de sonhos reais lá de onde não existe a morte. Além disto, equilibram o vazio na força do caráter, da seriedade, dignidade. Os místicos, salvadores e únicas alternativas perante a inexistência. 

Novidades eternas só vindas de fora, doutros ares que não desses, lá de onde o impossível inexiste, e o sonho prevalece. Reinos felizes, mundos divinos para sempre.     

(Ilustração: Wassily Kandinsky).

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Afinação

Crato dos anos 70, período em que vivi ausente do Cariri boa parte do tempo, morando em Salvador. Essa história, no entanto, chegou a mim por meio de Wellington (Etin) Bringel e Paulo Luiz (Lupeu), em uma conversa recente.

Recordaram eles de Temóteo, evidente personagem da época, músico saxofonista dos Ases do Ritmo, grupo que dividiu as honras festivas das matinais e tertúlias da cidade naquela fase gloriosa. Bom instrumentista, ele também detinha fama de ser excêntrico, dado a comportamentos inusitados, dentro outros de reunir animais, principalmente, galináceas para, em clima de lhe acompanharem os ensaios, ficar horas e horas na escuta obediente do seu desempenho ao sax enquanto realizava os ensaios. 

Figura das mais folclóricas, andava pelas ruas a transportar essas penosas pendentes dos ombros, quase a fazer parte da sua indumentária típica, causando espécie aos circunstantes, que ainda revivem as peripécias do artista e seu jeito engraçado.

Num desses acontecidos mais curiosos, lá pras bandas de Fortaleza, ao se descolocar a pé numa das avenidas centrais da Capital, após insistentes buzinadas, automóvel em flagrante velocidade terminou colhendo Temóteo, que caiu desacordado. O motorista se evadiu sem prestar socorro ao artista, deixado-o estirado ao solo. Diante da ocorrência, rápido populares cuidaram de chamar uma ambulância que transportaria a vítima à assistência municipal.

E ao ser atendido na emergência hospitalar, querendo detalhes do acidente, o funcionário quis saber maiores informações, indagando de Temóteo se observara a placa policial do carro que o atingira. Então, depois de fazer visível esforço de lembrar algo do que perguntavam, tudo que o músico conseguiu, com absoluta convicção, foi dizer:

- A placa... a placa, deu tempo não; gravei não. O que guardei na memória foi o só o tom da buzina, que ‘tava afinada em si bemol. 

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Tudo é de Deus


Esta noite, sem maiores justificativas, dormira mais cedo. E ainda mais cedo acordei. Quando acordava, senti profunda solidão e chorei. Copiosamente chorei. Nem sabia a razão, mas chorei copiosamente. De alegria, de solidão, de ausências, chorei. Algo que remexia nas entranhas me deixou escorrer pela face chuva de lágrimas que fez mais escuro o teto da noite no quarto e o panorama de tudo quanto há. Semelhante um milagre de extensões gigantescas, infinitas, senti jorrar de dentro de mim a força desta solidão do que fui, do que sou e do que serei, na sequência longitudinal de toda a Eternidade sem fim, sem limites. Espécie de grandeza absoluta, vi passar a minha existência na existência de todas as existências. Caudal de muitos rios cheios, lágrimas rolaram quais vivências do existir de objetos e pessoas. Há nisso espécie guardada do poder inigualável do amor, milagre de vidas sucessivas e presentes no Universo do inexplicável das palavras. Ser maior das existências, percorrei veias e lavei todas as faces de tantos com água e a emoção do instante que passa. 

Nisso, parei a anotar no silêncio as moléculas do movimento. Causa primeira do quanto há, vozes gritaram em mim o som das esferas. Perfumes doces, olhos acesos na escuridão dos dias, andei pelas estradas de florestas suaves, misteriosas, a falar gritos de paz nos segredos da alma. Quase inútil diante das inutilidades úteis de caminhar nos caminhos das existências, acalmei o instinto de viver e fiquei bem longe de pensamentos ou memórias. Louvor de proporções indescritíveis, entoava acordes da imensidão e tranquilizava o desejo de saber além das vidas. Só escutava os acordes da imensidão, a nutrir de bênçãos o mistério de um Eu que aceita no Infinito as dores do mundo, que regressa ao sono de que jamais acordara diante da noite dos elementos em festa iluminada.