domingo, 24 de junho de 2018

O momento de viver

Que tenha um mínimo de sabedoria... Que seja bem mais de sentir do que de pensar essa prática de crescer de verdade, que seja do ser interior da gente. Invés de só repetir, que esse momento contenha o pudor da sinceridade. Amar de alma e tudo; envolver na consciência o desejo de cumprir os sentimentos na força que possuem e alimentam de vida a existência. Saber identificar o poder da verdade nos detalhes dos dias. Isto de usufruir da força de que dispõe o querer das gentes. São fluídos os instantes que transcorrem feito lufadas de vento, na beleza das luas, a sacudir de ciciar as árvores nas manhãs de sol intenso. Apreciar o sorriso das pessoas nas ruas. A tranquilidade santa do movimento dos corpos nas caminhadas do tempo. 

Viver o presente, pois seja ele o único que persiste no fluir das emoções. Escutar com o coração as canções da natureza nos pássaros, nas flores, nos dias. Horas a fio, a certeza das oportunidades sem conta. O calor das tardes, o frio das madrugadas, o alimento e a satisfação de conhecer o novo de todas as ocasiões. O prazer da saúde, dos amigos, da família. O respeito à seriedade; o valor da honestidade; o gosto das viagens, dos sonhos, livros, filmes, músicas; bons assuntos e extrema satisfação de conhecer as novidades e os mistérios.

Isto que bem cabe na nossa presença diante do Universo; desenvolver as possibilidades do infinito, no sentido de concretizar a transformação a que somos destinados. Amar de alma e tudo; envolver a consciência no dever de cumprir os sentimentos... Transcrever os sonhos nos passos que dermos no correr dos quadros que se superpõem aos nossos pés. Boas emoções, virtudes, plantios de sementes deliciosas no solo fértil da felicidade. Amar de alma e todo; construir o amor na luz da Eternidade em nós próprios, partículas de todos e cada um de que somos. Vou sair a ver a Lua, que hoje é Cheia.

sábado, 23 de junho de 2018

O templo do coração

Empenhe-se para adorar no templo do coração.
Oh! Mendicante, o paraíso é apenas uma tentação;
o objetivo real é a própria casa de Deus.

                                                                  Abdullah Ansari

Quando tudo terminar, restará apenas o ser íntimo face à dor das existências. Esse ser de que falam os místicos e que vive na essência mais interior de tudo, nas pessoas, no princípio e no fim das manifestações e função única a que Jesus denomina o Reino de Deus. Significa a liberdade para dentro de si, o pomo dos segredos universais. As vagas do tempo nem de longe obtêm chegar a isso, daí a existência da consciência nos humanos, os seres inteligentes da Criação. Vieram nessa determinação de encontrar o caminho da Salvação, a isto foram criados. Os esforços coletivos e individuais buscam, pois, o sentido de dominar o momento e transcorrer nas fibras da Eternidade a morada do definitivo. Uma mutação a que viemos todos. Permutar a perecividade da matéria pelos campos de luz da Perfeição. 


A intenção de revelar os sóis da Consciência cabe, portanto, aos senhores da razão, sujeitos das intempéries e das provas. Eles somente compete realizar a superação dos limites e vencer a perdição que os deteria tão apenas em fenômenos físicos, assim não fosse. 

Enquanto isto, no espaço das vidas, ocorre o embate dos dois aspectos da presença. Dois em conflito das gerações, dramas da fusão dos elementos de que somos senhores. Por vezes restritas à visão das ilusões nas aparências, sucumbem multidões aos fatores dessa experiência prática de estar aqui e transcender. O herói vencerá e chegará ao templo, invés dos aliados da banda adormecida na inconsciência.

Carecemos dos favores da renúncia, da concentração e do destemor. Cruzar as barreiras do impossível sem desistir da luta. Territórios da alma da gente, sobreviver a todo custo diante de restrições e vaidades, pressas e comodidades. O método, as existências nos ensinam.  

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Os jogadores

Examino há muito esse afã dos jogadores em transe. O apego deles aos tabuleiros, ao som dos dados, o sacolejar dos palitos, o estalar das cartas. Os olhos acesos nos lances dramáticos denotam a hipnose que os prende à inteira atenção nos naipes, nos momentos das partidas, no troar dos bozós; das mesas; no girar das roletas. Quais habitantes vindos de outras dimensões, aqui chegaram de malas prontas de ilusão no rumo do desconhecido, instantes fugazes do Infinito, espécies extras de sobreviventes de naufrágios impossíveis desconhecidos no comum das horas. 

Passo ali na Praça Siqueira Campos e vejo os tantos parceiros das mesas que viajam nas manhãs, perdidos nas horas que transcorrem e lhes abandonam, desfeitas na indiferença delas ao fluir daquelas condições absortas. 

Sempre lembro as noitadas de que se têm notícias da decadência de fortunas, em chácaras, terraços e quintais; pessoas que tudo lançaram num único lance de sorte e viram sumir das mãos o que juntavam décadas a fio em outras noites de sucesso. Embriaguez, febre, temeridade, tão bem contadas por Dostoiévski na sua obra O jogador.

Desde que me entendo de gente, nas terras do Cariri, sei de nomes que perderam as posses nas mesas de jogos, além dos que as obtiveram em sucessos, e estabeleceram patrimônios. As cidades possuem suas bancas de jogo, tradicionais lugares que consolidam a herança das décadas passadas. Eles, os jogadores aficionados, alimentam o costume e, em torno de si, chegam os tracionais perus, torcedores silenciosos e clássicos. Vivem as intensas emoções desse furor que os domina, espécie de vício misterioso, dotado de contrições e desesperos, dependência e charme, quedas e ascensões. 

O hábito do jogo por vezes ganha âmbitos coletivos, nos estádios, nas quadras, nas pistas, invadindo raias de normalidade e nutrindo de circos na função de acalmar a fúria das multidões. Estudiosos estimam serem catarses coletivas, aonde populações desaguam frustação, carências e impossibilidades, transformadas em competição pública, expressão das limitações e motivo de paixões e júbilos dos grupos sociais. 

Na sua pequenez, os humanos descaem à busca de respostas junto aos oráculos das sinas, os jogos e as guerras. Acesos ao fervor dessas aventuras do invisível, apostam com o Tempo o direito de ser feliz, ainda que seja só durante poucos quadrantes dessas migalhas e a mais transitória das felicidades.

(Ilustração: Thedor Rombouts, em Os jogadores de carta).

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Algumas palavras III

Este horizonte de nós mesmos vem a pedir que cheguem as cores da Felicidade. Força descomunal arrasta os acontecimentos aos lugares santos. Ninguém que fuja do determinismo das leis eternas. Ordens e equilíbrio, tudo enquanto, a fixar normas de ação nem sempre reconhecidas de todos, e aceitam pela maioria. Daí a angústia, desesperos e ansiedade que machucam de gestos impensados o gesto e fazem de sofrimento a estrada dos incautos. 

Olhares vagos, pois, no caminho da Eternidade deixam livres sentimentos de leveza que, decerto, lá um dia mostrarão o quanto restava a percorrer. Esquecer a própria existência e sair solto entre os astros do Universo, a braços com a sequência natural de tudo. Largar as amarras que prendiam aos derradeiros meteoritos vagando na gravidade do vento, olhos fixos no término daquilo que jamais terá fim, a ordem dos céus. Ouvidos na música das estrelas, a meio das inspirações que voam absortas no firmamento infinito, e permitir sonhar sonhos de esperança e paz. Luz no coração. Ciência na alma. 

Quantas vezes tantas o desejo intenso de largar os rochedos e abandonar às ondas o furor da liberdade, guardadas saudades, esquecidas as histórias de quando o Sol ainda jazia escuro nas trevas e os barcos a sós deixavam rastros nas notas das canções. Flores. Distantes laços deixados abandonados. Sombras. Luzes.

Nisso, o pórtico aberto dos destinos que aguarda a vontade dos que permitem descobrir a si na forma da obediência. Livres dos caprichos individuais e das atitudes abomináveis, reconhecem nas horas a força que tudo determina. Quedam, assim, nas folhas secas das experiências o fascínio dos acontecimentos e aceitam tudo de bom que lhes espera, à medida do conhecimento adquirido e praticado. Acalmam os penhores da força bruta e aceitam de bom grado desvendar o íntimo perfeito da orientação. Isto sem aflição, fiel e contrito, sono dos justos.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Sucatas humanas

E seres tão parecidos... Tão iguais... Iguais? No entanto nunca foram de distância tamanha, porquanto nos livros antigos eram bem menos os habitantes da Terra. Uns, cheios de ladrilhos e flores; outros, bactérias de beira de esgoto, debaixo das pontes largados fora, quais inúteis, enferrujados, extremas de uso, desiguais. Os velhos humanos, os homens-objeto desta era de tecnologia inigualável, exatidão matemática da produção meticulosa e farta, porém fouxa na fé, insegura na sinceridade; monturos de lama na moral e nos costumes; de ética impossível, improvável na correlação de forças da imperfeição desvairada. Eles, nós, mais uma vez, ais dos apocalipses em elaboração, apenas baixamos a cabeça e seguimos os apetites da sorte.

Indignação de quando vemos o abismo que circula as histórias narradas com indiferença. Vemos as pobres alimárias voltadas adentro e esquecidas do final que lhes aguarda; do jeito que aguarda os que são atirados nos campos abandonados lá longe. As limitações dos tais valores morais que praticamente sumiram nas curvas das doutrinas. Fusão de necessidades com o egoísmo, os homens deste momento, salvas raras exceções, trabalham no sentido das vaidades e dos apegos. Desejo pelo desejo. Prazer pelo prazer. Ilusão pela ilusão. Máquinas de angariar sobrevivência a todo custo, vestem zumbis de quatro patas que vagam nas noites, soltos nas nos institutos e sensações. Reis dos planos funerários, adoçam de fel os pastos no suor do rosto alheio. 

Autores desta série, carnívoros obesos da fama e dos penhores, a si pouco importa o preço do que venham obter nos mercados em brasa. Querem chamas, querem fervor, sem saber do mar e da temperatura. Bom, parar, ficar quieto e esperar. Existe, contudo, o setor interno, lugar próprio dos indivíduos; a liberdade, no seio de quem fermenta a salvação. Na Natureza, desde sempre, o procedimento do Poder sobre poderes menores, isto também em nós qualquer um. Há nova história, a contar as folhas desta floresta, o infinito das existências.  

(Ilustração: Pieter Bueguel o Velho, em A dança dos camponeses).

domingo, 17 de junho de 2018

Ilusão e realidade

Não viemos aqui para aprisionar, / Mas sim para nos entregarmos cada vez mais profundamente à liberdade e alegria./ Não viemos a este mundo extraordinário / Para nos mantermos reféns apartados do Amor.   Hafez

Maya, assim os hindus denominam a ilusão. 

Certa feita presenciei uma palestra do filósofo Huberto Rodhen, nos idos de 1978, em Salvador. Abertas as perguntas, da plateia alguém perguntou: - Se a ilusão não existe, por que nos preocuparmos com ela? De logo veio a resposta do palestrante, de que a ilusão existe, sim. Que se manifesta no mundo físico e causa suas marcas no processo das existências. Se não, o que nos permitiria conhecer a sua presença junto das cogitações humanas? No entanto, ela não tem perenidade, esvai no tempo donde viera, deixando tão só consequência e rastros pelos caminhos dos que lhe sejam vítimas.

Tal qual fogo fátuo, rebrilha nas noites da ignorância dos que carecem da Luz, a fascinar incautos, fantasiar atitudes, demonstrar possibilidades inconsistentes, arrastando consigo almas mil aos laços das fragilidades, do fastio. Nada parece tanto com a verdade quanto a mentira, dizem os sábios. Iscas de perdições, alimentam efeitos e sensações e consome incautos naquilo de mais precioso, em que aqui permanece na intenção de evoluir.

Enquanto a Realidade significa o caminho das transformações, sentido único do aprimoramento dos espíritos mediante empenho e dedicação, fruto da busca incessante da Eternidade. Deus não castiga ninguém. As pessoas saem do caminho e encontram o castigo, este sendo o instrumento de desencanto e de regresso ao sentido da realização do Ser. 

Nisso eis as leis essências da Natureza a que tudo e todos obedecem. Perante a sujeição da ilusão, há limitações temporais, ensejando meios de revelar em si a Consciência. Formas perfeitas desta evolução, nesse claro/escuro das percepções lá um dia descobrimos que o mal é a ausência do Bem. Da desilusão nascerá o vazio a preencher com a libertação das paixões ilusórias. Da escuridão virá a Luz na consciência.


sexta-feira, 15 de junho de 2018

Contingências

Só dizer que está tudo escuro, caótico, é pouco, inútil. Nada, ou beirando a quase nada; pouco. Protestar, mandar mensagens derrotistas, revoltadas, de descrença, o escambau, é pouco, ou quase nada. Perder noites de sono, derramar lágrimas saudosas, deprimir, reclamar do vizinho ao vento é irrisório. Pura perda de tempo, talvez. Que chegamos perto da tal desesperança, disso ninguém tem dúvidas, sobretudo em países antes ditos emergentes; hoje, atrasados mesmo. Crise de valores éticos de sérias proporções, eis o diagnóstico deste momento. 

Acontece que ninguém chegou a passeio. Sorte significa oportunidade e jamais entrega aos mares bravios da descrença. Tem que lutar, persistir, acreditar; fazer com que acontecem os sonhos do certo, desde o berço. Refazer a paisagem que encontrar. Trabalhar os instrumentos; aprimorar as agruras e utilizar a matéria prima dos milagres e produzir milagres. 

Se difícil, nunca impossível. Resta a todos mostrar a cara, ou escondê-la em definitivo na areia da perdição. Usufruir o direito de existir, produzir o futuro desde o que sobrar dos escombros. A liberdade é isto, o que temos a exercer depois das limitações impostas pelos outros e pelo mundo.

Se de todo o corredor ficar estreito, as luzes apagarem, os meios rarearem, tudo fechar a balanço, e nós, os que moram dentro dos personagens que isso testemunham, o que faremos? Uma vez ser ingrato, nem de longe este motivo representa o caos na própria pessoa. Há o agir internamente. Fazer nossa parte no jogo. Ninguém possui nossa capacidade, nossa iniciativa. Se o mundo não mudar, mudemos nós, seus habitantes. Se outros querem assim, que eles o façam. A nós cabe ser diferentes, no mar de lama que restar disso lá fora. 

Erguer olhos e ganhar fôlego; a Natureza não tem pressa e oferece todo dia poder infinito aos que pretendem usá-lo com garra, disposição e coragem. Os tecidos necrosados serão extirpados e a vida vem na intensidade que sustenta o Universo. As sementes nascerão cheias de vida. Que sejamos herdeiros da fiel realização do Ser diante desta Realidade em movimento.