sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Rotas de fuga

Depois dos tempos atuais, na hora morta de depois, virão as feras que buscavam regressar às cavernas primitivas sob cujas paredes desenhavam as primeiras magias simpáticas antes de saírem à caçada dos bisões. Sim, são essas as rotas de fuga de nós mesmos diante do silêncio do futuro. Correr aonde o tempo perca seu império e dormir na cama que escolhessem, de Manuel Bandeira. Anoitecer e não amanhecer face ao movimento dos astros lá de longe nas marés dos oceanos. Olhar o verde das matas e sorrir aos sonhos da véspera, na firmeza de que a saudade acalmaria e os momentos deixariam de doer tanto. Apaziguar, pois, o mistério de existir e aceitar tão só o ser de que somos semente. 

Sumir no limbo da solidão e viver contente qual vocação das esferas de que compomos o quadro sideral. Amar, afinal, porquanto outro sentido não restará a todos os bichos e objetos. Adotar o impossível numa espécie de norma de sobrevivência, no entanto ciente de que os laços da matéria foram apenas laços da matéria, rompidos e úteis naquele período quando a humana consciência buscava a porta de sair rumo das estrelas. 

Chegar em casa, eis o objetivo das naus nos mares bravios da incoerência. Passo ante passos e a história que faz transcorrer as lutas insanas. E o porquê disso tudo ficará distante aos olhos de quem escolhe as alternativas de repetir os mesmos corredores da Antiguidade Clássica. Enquanto realizavam o roteiro da libertação, eles venderam a alma tantas vezes, a ponto de querer possuir a propriedade de si, sem contudo nem conhecer os meandros da natureza mãe.

Agora desejam a qualquer custo receber donativos da sorte e salvar do inevitável os frutos que hão de colher. Buscam as raízes do que não plantaram. Ou plantaram. Autores reais da criação e do futuro dormem de olhos fixos nos pratos que balança o Destino.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Sinais

O dia que haverá de chegar trazendo os sinais, de uma hora a outra, quando os pássaros silenciarem; cuidem, pois, de reunir o que resta e tocar adiante o barco dessas ilusões que gradualmente perdem força. Qualquer esquina servirá de ponto de encontro aos que terão de tocar adiante mundo de corações aflitos. Serão os líderes que restam do jeito deles que conduzirão os destinos da massa ignara, olhos postos no futuro ausente. Portas que abrem de par em par manifestarão do caminho à multidão enfurecida. Pais, filhos e netos, todos de mãos firmes no porta-estandarte da esperança, sobrevivem aos mistérios e vagam soltos entre os dentes dos arranha-céus abandonados; só filmes fantasmagóricos e solitários aonde antes foram veículos, festas e ruídos estonteantes dos trastes acesos na lama da carne.

Qual disseram, a que mundo fugiram os pássaros, eles que aqui deixaram tontos de melodias artificiais as bocas amargas da véspera. Espécie de angústia elaborada de tantos noticiários, a tradição desapareceu. Uma grande tribulação prepara a humanidade em forma de passageiros de tempos novos que nascem da brisa matinal. Ali todas as nações já ouviram o Evangelho. Haverá sacrilégio, morte e destruição; templos fechados e gente buscando as derradeiras notas do passado distante. 

As vozes gritam em movimento de acreditar nessas naves que virão colher os prometidos largados pelas calçadas do Universo. Tudo pedaços flutuantes de sonhos estranhos, juntos na hora do Arrebatamento. Por causa da maldade, o amor de muitos esfriará e pessoas ficarão perplexas com a agitação dos mares. Ocorrerão desavenças no seio das famílias e das nações. O Sol e a Lua deixarão de brilhar e as estrelas cairão do céu. Um tempo de sofrimento como nunca houve, mas que será abreviado em nome dos eleitos. Por isso, é importante estar preparado, vivendo de maneira que agrade a Deus (2 Pedro 3:14).

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O último dos mistérios

Oh! Mistério tenebroso, quando tudo que há haverá de sucumbir aos efeitos do Tempo e desaparecer na derradeira dobra além do quanto existirá... Donde seguir, fugir em que direção, se todas jamais estarão ali aonde dormitavam os mendigos da praça ontem de madrugada? Qual desses meios de evoluir registrarão os sinais dos tempos de quando houve o momento de tocar o chão da inexistência e prosseguir sem interrupções mundo afora?

Assim, tal qual a infinitudes que persistirá após a conclusão dos objetivos, o último dos mistérios será a vida que viva, a continuar para sempre, portas abertas a nenhum rompimento, e os pássaros da imortalidade baterão suas asas rumo ao Sol. Pequenos objetivos que voam. Rápidos traços diante da luminosidade absoluta. Dentro deles haverá gotas de lágrimas perdidas e alegria. Venceram o desaparecimento e sustentaram a lâmina de ouro do sonho enquanto olhavam apenas fieis a certeza da vitória.

Nisso eles, os dois pássaros voam soltos na eternidade informe, longe das saudades, amáveis seres em si, de corações em festa resolvem salvar a alma e viver o mistério da Salvação. Amar, que Deus ama e Jesus ensina. Abraçam, por isso, a luz da consciência e mergulham no horizonte das manhãs mais livres. Encontro de longos desejos da humana felicidade que ainda anda vagando solto perante as religiões do coração. Vamos, gente, vamos acordar que existe um tempo previsto de libertar os apegos e crescer rumo da possibilidade de que todos ora somos dotados, que a isso é que viemos até aqui neste chão de tantas contradições. Agir o quanto antes significa vencer a perdição que sujeita imperar de uma hora a outra e o barco sucumbir. Este o último dos mistérios guardados durante as guerras e que renascem depois de passar os dias de ira. 

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Os parceiros da Criação

Deus fez assim, nós próprios a participar intensamente da construção nas existências do Ser. Sim, pois em crescimento, carecemos crescer das raízes em que estamos plantados; participamos na edificação de tudo quanto há, e haverá, e trabalhamos dentro de nós a força viva das eternidades, sementes da felicidade que o somos, instrumentos da Salvação em andamento. A saber, disso o valor que todos temos no que hoje somos, que traz em nós as matrizes da solução de tudo, andamos através da maravilha dos corpos integrados ao sistema da suprema Natureza. 

Nisso, parceiros nada menos do que do Autor das Existências, cavaleiros andantes da esperança, tangemos esse poder da melhor forma que podemos, no entanto, dos tais modos inseridos na perene continuidade, face às civilizações em festa com que agora fertilizamos os solos da Criação. 

Quisemos, e dizemos, que somos partes necessárias ao desenvolvimento das espécies, mesmo que trabalhemos, por vezes, equivocados nas ações, entretanto aceitos na grandeza da bondade do Pai. Conquanto previstos que seja de tal maneira, seguimos os espasmos de só aparente imperfeição que leva a marca dos níveis da continuidade, e cá estamos de armas em punho a lutar na possibilidade das formas menores daquilo em que viremos chegar certo dia.

Tais raciocínios conduzem ao espaço da persistência, vontades em elaboração no concerto das espécies. Nas horas estão os meios de experiência que alimentam a fornalha dos destinos. Quantos pequenos senhores da paixão arrastam consigo esse valor infinito das largas realizações, eles, nós, mestres em formação, luzes em fermentação. Daí, julgar uns aos outros foge definitivamente de nossas crenças. Se iguais, quais aqui, razão nenhum se dispõe em querer dominar além das almas da gente mesma. 

Fermentos da massa dos espíritos, pesa em nossas mãos o condão dos gestos positivos, trabalhos de Deus nos minúsculos raios de plenitude espalhados nos céus desta condição humana. 

sábado, 20 de julho de 2019

Além da dualidade

Bem onde existiu o amor, única e exclusivamente, poder soberano que a tudo circunscreve na leveza das espécies, era ali o início do século absoluto, na dissolução das massas ao calor das circunstâncias. Das dores do parto sobre as rochas ígneas do furor, nascera um Eu diferente do quanto havia; fora a renovação de aves e sonhos, pura transformação em esperança do que existira perante o desespero final. Aqueles que assim nutriam de vontade o ânimo das feras adormecidas, eles, esses, verão a Deus.

Passadas que foram as primeiras caravanas, novas expedições desceram do céu e abriram caminhos de receber os eleitos na Terra da Promissão. Unidos em si, acalmaram os sentidos físicos no abraço fraterno, definitivo, longe das horas só das angústias, detidas que foram nas garras das esfinges e dos dias. Destarte, longos semblantes disso vieram às praias do coração e despertaram o senso do inigualável de dentro das existências.

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Pouco importa, pois, outros mares enquanto o dilúvio de fogo calcina as palhas atiradas aos bichos famintos de paixão; olhos fixos na paisagem lá distante, a inutilidade sumiu nos becos escuros. Isto, apenas isto, a união dos objetos no nada universal do que há vagando solto nessas histórias de destruição em andamento. Entretanto, a farsa do espelho embriaga de desejos os velhos Apolos nas noites de perdição e desamor.

Outro mundo, outros mundos, aonde seguir os parceiros da sorte, colhidos que foram nos botes das naves na festa sideral; portas delas se abrirão de par em par.

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Aceitar, porém, de bom grado, o rosto da razão na matriz do coração, eis a fusão inextinguível de mil sóis, síntese dos seres de humana inteligência; desvendarão o mistério dos dois eus, resposta dos enigmas de que fizemos parte durante todo tempo da existência, a pisar o chão das almas e resolver as ilusões na mais extrema felicidade.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Uma irreal transformação

Do meu quarto de um dos milhões do mundo, / Que ninguém sabe quem é /
(E se soubessem quem é, o que saberiam?). Fernando Pessoa

São desses que se arvoram senhores do Universo e nem de universo nada entendem, assim seriam seres habitantes das galáxias bem semelhantes aos que vivem aqui nesse torrão natal, centro dos mundos em profusão. Contudo há que haver transformação, porquanto somos apenas e apenas o somos o que nada mais seremos um dia, cedo ou tarde. E vêm as mudanças radicais, extremo das horas que foram sem pressa de voltar. De meros instrumentos de consciência em desenvolvimento, tornamo-nos atores das próprias contradições, jogados aos mares do desespero de buscar sem achar a porta de sair fora desse território neutro da ilusão. Nisso, os tempos vagueiam com água pelos pés em volta das criaturas, numa queda livre no sentido da renovação das células da matéria. Feitos máquinas de carne, penduramos na corda dos segundos velhos trajes dos dramas que vivemos e nem de longe às vezes os compreendemos. Admitimos ser fatores de renovação das estruturas arcaicas em que nos deram de viver, e padecemos presas das arapucas da sorte, espécies de autores inveterados nas mesmas histórias dos milênios que sumiram nas eras desaparecidas.

Bom, desse anonimato das criaturas que o seremos, enquanto não descobrir as razões principais do Ser e quais as reais intenções de Quem nos criou, alimentamos, anos a fio, as feras que carregamos por dentro das entranhas; e inventamos alternativas desonrosas e honrosas, diante do silêncio das infinitudes. Criamos mil maneiras de justificar a essência que ainda nem desvendamos; rimos; corremos; voamos, durante o trajeto de um leito a outro, nas estradas do Sol dias infindos. Melhor seria dizer que trocamos de roupa, nutrimos de filamentos os pensamento e justificativas bizarras que traçáramos de mão em mão, nos baralhos do escorregadio. Com isto, o excesso de personalismo deixa-nos imaginar as transformações sem vivê-las em plena realidade, fazendo disto só miragens apagadas em desertos iluminados.  

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Antes das palavras

Nalgumas horas, o instinto de sobreviver perpassa as falas deste Universo e produz esses pequenos formatos de som que chamamos palavras. Desejos, então, sem par, envolvem os sonhos e, num relâmpago, sentimentos compõem os pensamentos que a tudo reverte numa melodia dos significados. Fome incontida dos gestos de transformar domina o silêncio e a matéria prima das mil palavras enche de cor a paisagem deserta. Para mudar a paisagem, basta mudar o que sentes (Rumi).

Mas as palavras existem porque as pessoas existem. Elas vêm sós depois das pessoas existirem. Atravessam, pois, as pessoas e chegam ao coração, donde eles nascem e fazem o movimento dos barcos até as outras pessoas. Cruzam sete mares, descem cachoeiras, vagam no ar das montanhas, dos vales, e tocam de novo outros corações. Ah, palavras! A sede do encontro, a morada de tantas felicidades guardadas no íntimo das criaturas humanas... Pedaços de almas em movimento, de um tempo a outro, de uma cápsula de solidão a outra cápsula de solidão.

Fustigam o silêncio, quais querendo rasgar de esperança a agitação das consciências. Instigam o ritmo do tempo no seio das eras, descem pelos abismos à busca de outros amores, quando amores mais antigos desaparecem no mistério dos enigmas, enquanto a forja desses pequenos blocos de interrogações preenchem os vazios da imensidão nas pessoas inertes. Sacodem, reviram, criam, alimentam de inesperado o sacrário ainda escuro dos habitantes deste mundo. 

Tais ondas sucessivas, tocam o momento e sustentam de sonhos o ânimo de tantas palavras que nascem do silêncio e se transformam em instrumento de vida, fantasmas que percorrem nuvens ao passar no céu. Houvesse apenas luz no Infinito e as palavras viveriam para sempre na alvorada, a clarear as manhãs dos deuses, e casariam, afinal, com o silêncio, diante do Destino