quinta-feira, 22 de junho de 2017

"A praça dos nossos sonhos"

Este o título de livro lançado no Instituto Cultural do Cariri, em Crato, no dia 19 de junho de 2017, da autoria de Carlos Eduardo Esmeraldo e Magali de Figueiredo Esmeraldo. São recordações preciosas e guardadas com carinho, a mitigar a sede dos muitos que lhes virão conhecer de perto.


Quanta saudade viva mora bem ali no passado, e que só a boa literatura disso fala de cátedra, enquanto mantém aceso o fulgor de felicidade que a tantos representam, iniguais momentos da real felicidade.  Qual bem disse Machado de Assis, em Dom Casmurro: Mas saudade é isso, o passar e repassar das memórias antigas.

Nas tardes frias das ausências destroçadas, nascem as palavras felizes de Carlos e Magali, a dizer intensamente da geração de que sobrevivem, sedentos da oportunidade oferecida pela literatura, arautos das variantes de si e dos povos, quais missionários de contar e soldados que amam o fazer com paixão seu ofício.

Espelhos abertos, pois, daquele passado que agora refazem no desejo valioso de preservar a qualidade dos instantes mágicos, guardam nos textos o sentimento que os produz, na arte do elaborar das letras. 

Viagens, perfis, episódios, apreensões, mundos distantes no tempo das origens, inesperados, anedotário, costumes, registros fundamentais do grupo social, tudo dentro de cuidado técnico de jamais perder aspectos que restariam largados às malhas do esquecimento. 

Páginas inteiras de revivescências vindas à tona sob o preceito de acreditar no sabor das lembranças mantidas no amor e no estilo. Os dois, marido e mulher, agora integram, por isso, esse bloco seleto dos memorialistas do Cariri da segunda metade do século XX. 

Nosso mundo disporá, também, da qualidade destes bons escribas a lhe reservar capítulo especial nas histórias pessoais com que leram seu mundo, de importância a toda prova.

Assim, diante desse livro de fragmentos pinçados de passados narrados com eficácia, rendemos reconhecimento ao enlevo dos tantos leitores privilegiados de receber A praça dos nossos sonhos, numa edição da Editora Mentor, de Crato, Ceará, palco dos seus acontecimentos. 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Homero Mesiara

Quantos caprichos guardam a memória, sabe Deus. Volta e meia, regressam à atualidade fragmentos do passado, querendo ganhar a pulso espaço nos dias atuais, espécie de cadeira cativa que, no sério, reclamam . E, o que é mais sério, conseguem se impor na maior desfaçatez.

Falar de Homero Mesiara exigiria, talvez, as páginas de um romance, qual dissera Carlos Ribeiro, dada a força de personagem que ele tão bem configurou, nos transatos baianos, sobretudo nos tempos soteropolitanos entre as décadas 60 e 70.

Nem sei dizer direito de que modo conheci Homero. Sei que morávamos na mesma rua Raul Drumond, no Loteamento Clemente Mariani, na Barra Avenida, próximo ao Cemitério dos Ingleses. A duas quadras um do outro, preenchíamos apartamentos. Eu e Márcia lhe visitamos nalgumas vezes. Ele ensinava Inglês, conversação. Lembro um poema de que gostava, de Pamela Moore, e declamava no sotaque britânico. Peguei algumas aulas dele. Conversamos de assuntos variados, alternativos. Também apreciava alimentação natural e literatura, qual a gente. 

Lá um dia, ao chegar no seu apartamento, avistei e matei uma barata, o suficiente a que merecesse reprimenda quase descompostura, pois, segundo alegava, tinha desrespeitado o recinto sagrado de seu lar. E que ali ninguém assassinava qualquer qualidade de inseto. Claro que aquilo mexeu comigo, visto lembrar até hoje, pois ainda insisto em eliminar esse bichos desnecessários, segundo acho.

Indicaria Homero Mesiara de professor a colega do Banco que estudava Inglês no sentido de prestar exame de curso na Universidade de Michigan, no Estados Unidos. Fez algumas aulas. Obteria sucesso no teste e passaria um ano fora do Brasil, aperfeiçoando conhecimentos para o trabalho. Mas antes de viajar eis que Homero seria detido numa batida policial no Alto das Pompas, no Rio Vermelho, manchete do dia seguinte nos jornais da Capital. 

E vejam só a boca quente em que me meti querendo auxiliar. Cedo logo, quando chego no trabalho, avistei uma roda de funcionários em volta da publicação, tendo Homero qual ator principal. Lógico que eu teria que explicar o caso do professor envolvido com dependentes de drogas que indicara ao colega, coisa e tal. Nunca passaria por inocente, ainda que justificasse que lá estava ele apenas no intuito de prestar serviço, a aplicar algumas injeções nos envolvidos, como quisera depois me convencer.

Em consulta recente ao Google, vim saber mais do paradeiro de Homero Mesiara através do site de Carlos Ribeiro, um jornalista baiano, que também o conhecera. Num texto do blog Apontamentos do Caleidoscópio (sob o título Uma pessoa tão normal), o mesmo Carlos Ribeiro assim escreveria: Lembrava-se de Homero Mesiara, uma figura insólita que conhecera em Itapuã, em meados dos anos 70, que, numa casa velha, na rua Guararapes, entre livros antigos, teias de aranha e chás macrobióticos, lhe dissera:

- Você também tem o Sinal de Caim. Daqueles que não poderão nunca viver com o rebanho. Daqueles que estão marcados para sempre pela solidão.

Dentre as buscas encontraria também: https://www.trt5.jus.br/.../28220_processos_para_eliminacao_2006_publicar_1_edital.p...Tambuc RDO: Homero Mesiara (Espólio De) //. 0032900-54.2006.5.05.0004 - N°Arq: 802681-A Vol.: 1 RTE: Rone Petison dos. Santos Lima RDO: Comercial ...

Antes de regressar ao Ceará, passados sete anos na Boa Terra, encontrei Homero junto de uma baiana do acarajé com quem fizera sociedade e transportava seus apetrechos no velho fusca que possuía. A sempre insólita figura; magro, alto, nariz grande adunco, de sorriso sarcástico plantado na boca e olhos grandes e gozadores. Era qual se a vida não lhe dissesse respeito, não fosse com ele; a vida e o mundo. Estava ali só de figurante, sem nenhuma responsabilidade diante de tudo o que viesse a acontecer em consequência dos desmandos e dos acontecimentos.

No passado mais remoto, possuíra uma escola revolucionária em Salvador, de que me falara algumas vezes, revivendo o pensamento de Anísio Teixeira, de quem se dizia seguidor com as ideias de transformação humana. 

Outro esparro que levaria dele foi quando presenciou rusgas entre eu e Márcia e me afirmou peremptoriamente não está a fim de acompanhar tais dramalhões de casal, muito menos tomar partido de quem quer que fosse. Era numa manhã de domingo, e ele viera pedir que fôssemos juntos, bem cedo, buscar seu carro, abandonando na noite em um trecho da Bahia – Feira de Santana, a dezenas de quilômetros de Salvador. Eram idos de 1975.

Vejam só, nesgas distantes ora chegam de longe na memória a contar de pessoa aparentemente secundária na trama oficial da história pessoal, no entanto figura emblemática de Salvador, naquele tempo. Tempos solitários, de aventureiros das estrelas jogados aos mangues da sobrevivência. 


segunda-feira, 19 de junho de 2017

Calmo, porém ligado

Nestes tempos de entregas e delações premiadas, quando baixou uma crise de consciência em meio a indefinições dos destinos políticos, tanto do País, quanto do resto do Planeta, o cidadão médio segue seu curso natural de trabalho e organização, conquanto tem contas a pagar e vidas a viver. As notícias, que parecem antigas, nem mais representam escândalos, de tão rotas e banais, por mais graves que sejam. Aquilo de quem conhecia previamente anda nas alturas dos donos do poder. Espécie de bufões contratados e bem pagos a fim de cumprir os papéis da cena, há que mostrar serviço e haver mudança de seleção por parte dos eleitores logo nas eleições próximas, sob pena de deixar o adversário gostar do jogo e o povo amargurar ainda mais as mesmas derrotas do passado.

Bom, mas o que nos significa responder aos tais enigmas e contradições dos que fazem uma nação aceitar de braços cruzados as oportunidades valiosas dos turnos eleitorais e oferecer cheques em branco aos velhos fregueses da coisa pública, num total desconhecimento do que seja democracia e o valor do voto? Isso que se repete desde que o Brasil é república. Esperar de quem, vez que o direito de escolha é conquista da grande população?

Seriedades mil exigem a seleção das lideranças no transcorrer da história. Exemplos sobram de desmandos praticados e de quem responderá friamente nas barras dos tribunais. O que parecia tão simples, a escolha dos estadistas de valor e lançá-los ao comando das massas, depois de séculos acrescenta muito pouco em termos de aprimoramento das instituições democráticas.

No entanto, o tempo reclama atitudes mínimas de coerência do cidadão para consigo próprio. Buscar o exercício da responsabilidade no trato das seleções, que seja o princípio de grandes transformações com vistas ao futuro da cidadania, sobretudo nas mãos dos eleitores e partidos políticos.

domingo, 18 de junho de 2017

Lições de solidão

E perguntar a si, diante dos limites da dor, onde achar as respostas inevitáveis do resistir a qualquer custo. (Lembrar as angústias de Castro Alves em face dos sofrimentos da escravidão (Deus, ó Deus, onde estás que não respondes. Em que mundo, em que estrela Tu te escondes, embuçado nos Céus?) Dor em tudo; dói a vida, dói pensar, resistir, imaginar; até sorrir, que dói Só dói quando rio, qual diziam as charges de O Pasquim, na década de 60.

No entanto, que outro jeito senão viver, amar, e ser feliz, bem feliz diante da dor, por maior que seja ela. Solver intensamente o cálice da Salvação, tal fez Jesus no caminho do Calvário, perante a solidão cósmica no rumo do Pai Eterno, a lhe aguardar logo à frente, pelos braços abertos da cruz, e depois, no terceiro dia, na abertura dos Céus que o receberam. Guiado através das sendas da Luz, abraçou a paixão no martírio de demonstrar aos demais, que somos nós, como ultrapassar a barreira da transcendência e desvendar, sem temor, o mistério da Eternidade.

Enquanto aqui percorremos as veredas da angústia, do desgosto e da ilusão, por vezes, inebriados na própria ignorância e lançados às turbas da inutilidade, vemos esses dias tão parecidos a desfilar no limbo os trilhos da desigualdade humana; hienas a gargalhar no som dos mambos tecnológicos e séculos sucateados. Ninguém que veja ninguém, no passar desses quadros de fita dos filmes de antigamente.


Erguer aos Céus, pois, o petitório das seitas, gritos lancinantes frutos das agressões dos que ferem o silêncio e deixam um clamor de fera ferida vagando pelos ares. Todos bem desejam aplacar a fúria da solidão que invade a alma. Aços em brasa lhes rasgam as carnes. Quanta distância ainda resta ao Poder Magnânimo que haveremos de percorrer até a Paz chegar ao coração? Olhos fixos lá longe, nas barreiras do destino, apenas sonham ver, de uma vez e para sempre, o nascer infinito deste Sol.

sábado, 17 de junho de 2017

Marcas da felicidade

Ouvi, sim, no meio daquela noite, o tropel contundente de um carroção a percorrer o silêncio. Acordado de chofre, o som sacudiu meus ossos no estranho tocar de rodas do calçamento de pedra. Algo dizia que já ouvira antes o som do que passava. Tal fosse o emissário dos resultados destas vidas, tangido pelo homem idoso dos dias, conduziu consigo o animal de carga que arrastava o carro da justiça, na missão de recolher restos de infelicidade que ficaram no passado. Espécie de emissário do Eterno das gerações, responsável pelo que executava com determinação, levava no transporte escombros de tudo que restara, sonhos desfeitos e ilusões perdidas.


Dali adiante, saudades antigas não precisavam mais. Hora de mistérios vivos acendeu o céu do horizonte de lâminas intenso e puro brilho, claro forte da luz das estrelas na fria madrugada de junho. Adeus ao medo e à solidão. As incertezas doutras eras sumiram lá fora, na neblina que se desfez nos vastos limpos do dia. Foram secas as dores do parto da felicidade, disso testemunhavam. Depois de outro tempo, cicatrizes viraram só sinais de esperança e paz. Sabores de ausências desaparecem do íntimo, e a alma cresce pouco a pouco.

Aquele carroção das dores partidas percorria de volta o caminho do calvário e levava a bem longe tudo quanto o homem velho transformara nas idades de transformação e consciência.  Degrau por degrau, o antigo sofrimento palmilhara o curso de vencer a ignorância e aceitar ser feliz, dominar os instintos da matéria e revigorar as forças do coração reanimado.

Itinerário da beleza, reviveu o pleno direito de sonhar novas possibilidades, espécie de dever da natureza em amar quem sofreu, sinais de desmonte da espécie no lenitivo bom de tantos e em todo lugar. O tropel das incertas multidões agora simplesmente trescala festa e alegria, no sorriso doce dos que nascem de dentro da noite na graça da  viva Salvação. 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

A escuridão e a luz

Questão por demais, neste chão, saber por que não se nasce logo limpo, inteiro, bom, quando o Criador bem poderia haver feito todos a nível. Neste momento, cabe um estudo gramatical dos dois por quês (porquês). 

No segundo caso, do porquê junto, seria pedir a resposta-explicação disso, de ter vindo assim ainda enxovalhado, precisando de reparo nos aspectos morais de criatura, em busca da perfeição de onde um dia proviemos. Se criados de quem o somos, Senhor da perfeição absoluta, por qual motivo também não já viéssemos perfeitos. Nascidos das mãos do Autor da perfeição, seria pedir muito que isto houvesse acontecido? Por que razão?


A razão desse motivo vem na resposta seguinte, ao primeiro por quê, a que finalidade não viemos já perfeitos de tudo e em tudo. 

A consideração dos tais argumentos de quais razões nos trouxeram aqui em estado bruto e não de santos, puros, perfeitos, significa exatamente isso, de a gente também participa da obra da Criação. No objetivo de contribuir com o todo universal e gravar em nós esse itinerário da nossa realização pessoal. Noutras palavras, somar à luz mais luz, a que ora poderemos acender em nossos corações. - Brilhe vossa luz - , afirma o Divino Mestre. 

O porquê junto é a explicação do por quê afastado a fim de unirmos os dois eus que carregamos estrada afora no prumo da Salvação. E os místicos vêm isto ensinar, essa atitude necessária da conciliação da sombra e da luz em nós. Eis a participação infinita das individualidades no seguimento de construção da Natureza. Ego e eu, portanto, são o mesmo ente. As divisões, conflitos pessoais, coletivos, as guerras, nada mais representam que os cascalhos da ignorância e clamor de transformação. 

Quando falam as religiões cristãs que Jesus vem nos salvar, ao perecer na cruz do Calvário, Ele demonstra na própria vida que haveremos de vencer as fraquezas da matéria e galgar a glorificação do mundo dentro de cada pessoa.  

terça-feira, 13 de junho de 2017

Um primeiro comício

Eram as eleições municipais de 1988 em Crato. Eu integrava a chapa de candidatos a Vereador da coligação PDT\PTB, sendo um dos nomes do PDT.  O candidato a Prefeito, Humberto Mendonça; ao seu lado, Rubens Almino, o candidato a Vice-Prefeito.

Aquela seria minha primeira manifestação em comício, no Alto da Penha. Palco armado, bandeirolas tremulando ao vento do início de noite, os manifestantes contratados agitando faixas e bandeiras, o Trio Nortista esquentando o público na animação do forró autêntico, fogos disparando, o povo aos poucos se aproximando, luzes intensas, o que me lembrava dos primeiros comícios que presenciara no tempo de menino, em campanhas políticas memoráveis. O clima tinha tudo que acendesse meus sonhos de democracia, vividos na militância de esquerda desde a adolescência. 

Sentia emoções suficientes a oferecer o melhor naquela oportunidade. E trazia comigo até as palavras com que abriria minha fala de cinco minutos bem contados. Nisso, me chamam ao microfone, e revivi no juízo a expressão que aprendera de uma música de Sérgio Ricardo, mote do que preparara do discurso, daí soltando o verbo no auge dos sentimentos:

- A praça é do povo como o céu é do condor, já dizia o Poeta dos Escravos lutador – respirei fundo e continuei cheio de vontade: - Outro poeta dizia que até o mar se levanta, que até o mar se levanta, quando na praça em festa é o povo quem canta!

Naquela hora, achando mesmo que iria abafar, emocionado até dizer chega, notei logo embaixo, vindo de dentro da multidão, um homem assim meio puxando fogo, sacudindo as mãos, a gritar com força:

- Doutor, fale mais baixo, que ninguém tá entendendo é nada que o senhor tá querendo dizendo.

Mais que um bande de água fria, ali apagou o sonho de eloquência, me trazendo de volta à realidade, o que só deu tempo de fechar o discurso pedindo que, se não quisessem votar em mim, que escolhessem qualquer dos outros da legenda, e fui saindo antes até de gastar o tempo que me fora previsto do discurso.  

(Ilustração: Sérgio Ricardo - Festival da Record, década de 1960).