sexta-feira, 24 de março de 2017

A luz dos fins de tarde

Quanta beleza! E a força da natureza a tocar de vontade viva o coração da gente. Horas de poesia e sonho, novidades boas de dominar o século, desejos de paz e esperança neste mundo afora. Sentimentos em forma de calma, quando os animais retornam aos apriscos, pássaros aos ninhos e há pura calma no horizonte interminável. Tantos momentos de orientação de revelar o caminho a que raros resolvem seguir. Firmamento em festa acende a luz de fogo nas cores amarelo queimado, melhores quadros das mãos do artista universal. São músicas de amor que invadem lentamente os cristais dos ouvidos, acordes semelhantes ao perfume das flores do poente e das matas.


Instante mais que perfeito de refletir a possibilidade infinita de transformar o roteiro das humanidades depois de quantos equívocos, espécie de descrença filosófica das gerações, no entanto a deixar de fora o poder renovador do instinto de conservação por meio das ações equivocadas. Houvesse agora plena consciência do potencial próprio de todos, e a verdade dominaria o panorama do Planeta tão maltratado. Existisse o mínimo que fosse de sinceridade, os habitantes daqui seriam irmãos e viveriam de jeito igual ao sabor das potencialidades humanas. 

Prova provada do valor da claridade desta ocasião, as pessoas haveriam de imaginar sementes boas neste solo fértil de infinitas oportunidades. Quantos, contudo, olham a si e esquecem os demais, quais inimigos na mesma família, a fugir do dever da solidariedade inevitável.

Nisso ninguém pisaria ninguém. O abraço desta formosura dos nascentes e poentes envolveria de alegria imensa a alma das criaturas e o amor dominaria tudo em volta, abraço de esperança e felicidade. Busca, pois, o diamante da ternura dos derradeiros raios de Sol que aquecem a festa no primor do Bem. Saber ser livre das sombras e manter aceso o clarão dos olhos de Deus que nunca esquecem a perfeição dos dias, pai amigo que assiste silencioso ao espetáculo do mistério. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

O pintor grego Apeles

Noite dessas e fomos, Lydia, Sônia e eu, visitar Dulcilene e Landim, na sua residência da Praça da Sé, em Crato. Conversa vai, conversa vem, e ouvi de Landim episódio grego que reflete o quanto é importante o respeito àquilo que diga respeito ao tamanho das capacidades individuais. Cada macaco no seu galho, no dizer do povo.

Em certa ocasião, o pintor grego Apeles expunha suas pinturas, quando delas se aproximou um sapateiro, a observar detalhes mínimos de cada tela. Numa dessas, viu defeitos ligados ao que conhecia através da profissão de sapateiro. Notou que as sandálias de um dos modelos retratados apresentavam deficiências só percebidas por quem conhecesse de perto a arte de confeccioná-las. 

Havia defeitos quanto às proporções de tiras e fivelas, fácil de reconhecer por quem, qual aquele sapateiro, dominasse o ofício do couro. E comentou, mostrando diante dos presentes aspectos deficientes, o que também escutara o autor da obra. Colocava assim uma série de impropriedades nas sandálias pintadas num dos quadros.

Reconhecendo o acerto das críticas, à noite mesmo Apeles voltou ao local dos quadros e tratou de corrigir as falhas consideradas pelo homem. Com zelo, retocou as pinturas, expostas também no dia seguinte.

Ao observar agora que o artista refizera a obra por conta do que dissera, o sapateiro restou eufórico, satisfeito de haver acrescentado sua opinião aos trabalhos. Nisso, de bola cheia, prosseguiu analisando os quadros e foi achando outros detalhes que, na sua visão, poderiam ser modificados, pois lhe desagradavam. Fisionomias, proporções, cores, etc.

Resultado: Apeles cresceu nos cascos e desconsiderou as outras manifestações do sapateiro, vindo daí um brocardo ainda hoje citado nas situações semelhantes, e foi taxativo: 

- Não suba o sapateiro além das suas sandálias. (Que ninguém queira dar palpite naquilo de que não conhece...).

segunda-feira, 20 de março de 2017

Essas crianças

Vontade pura de criar um mundo certo, vagam pelos dias na busca de afirmar a que vieram as crianças. Achar isso tudo fora do lugar já contava na programação dos experimentos da evolução. Rever os quadros e afastar as mazelas se torna dever de quem quer algo novo, novos tempos. Iluminam os lares, ruas e mares. Filmes de super-heróis também somam o direito de transformar. Elas transportam dentro de si o fator determinante do futuro em festa que despontam nos lábios do horizonte. Marcas outras, o que há de mostrar a fisionomia desta Terra da amizade e dos sonhos dos séculos.

No que pesem olhos preocupados dos que deixaram de cumprir a obrigação de oferecer espaço sadio aos jovens de hoje, podem deixar no vão das estradas perdidas ilusões e criar atos que vençam o mal estar da civilização esdrúxula desses malfadados senhores de negócio que só pensaram em si. Agora cabem métodos eficazes de realizar o projeto da história em termos de perfeição. Esquecer o desânimo daqueles outros se torna dever de obrigação. A essas crianças o destino reserva o compromisso de refazer os edifícios da real felicidade.

Chegou o momento de transmitir o cetro de concretizar a bondade neste chão de tantas oportunidades até agora levadas na conversa. Em tese é isto. Os coroas e os mais atuais que preenchem as lideranças quase nada têm o que oferecer em resultados práticos. Dada esta razão, e na firme disposição de não dar por perdida toda a experiência humana, seja no Brasil ou no exterior, eis o motivo de a gente acreditar nas novas gerações. A maré não está pra peixe, é notório. Aonde se virar, existe uma bronca a resolver, com a maioria só pensando ocupar o lugar de mando e querer dominar o pedaço. Então resta crer nas crianças, na intenção de redesenhar o rosto do Planeta e revelar meios de reverter o quadro que as gerações anteriores deixaram, sob pena de mais nada acontecer. E isto ficaria fora de quaisquer cogitações dos que admitem os fins úteis da Criação divina.

As idades

De acordo com Soren Kierkegaard, filósofo dinamarquês, a existência se resume a três fases distintas, sendo estas o itinerário da libertação da pessoa face ao desespero humano. Primeira destas, a fase estética, período em que depara com a beleza e a força da natureza. Época da energia viva dos instintos, usufrui de tudo com o ânimo de aproveitar ao máximo o ímpeto da juventude. Barcos a todo mastro, as ações correspondem desfrutar das oportunidades apresentadas quais senhores absolutos da situação.

Segundo momento, e surge a primeira maturidade, a fase ética, de quando principia compreender a importância dos valores que balizem movimentos pessoais diante do todo social. Estabelece metas de realização profissional, cuidados de sobrevivência e o mínimo de providências no formato das instituições que estabelece: família, grupos, atividades. Já nem tudo poderá ser visto quais meras simples da experiência de viver por viver. Há de firmar postulados que atendam aos desejos, porém sob normas rígidas que lhe garantam a preservação das conquistas obtidas.

E terceiro nível de adequação perante o tempo das gerações, que daí revela a fase mística, consequência dos limites às respostas anteriores. Nem liberdade total do pássaro solto nos ares, nem domínio dos acontecimentos, tais ordenadores dos padrões, na segunda fase. Agora depara incerto o destino que lhe aguarda na próxima volta do parafuso. Nisto, face a face com o desconhecido das horas, apela aos sentimentos de fé e esperança, sentido natural do quanto lhe reservaram as fases anteriores. Eram tão só indicativas do que o impossível mostraria adiante, olhos postos às conseqüências de existir.

Portanto, fases estas fazem referência nítida ao enigma da Esfinge, do decifra-me ou te devoro: Que animal, nos inícios da existência anda de quatro patas, em seguida, em duas, e por fim em três patas? Ele, o ser humano, que engatinhava na primeira infância; pisava nos dois pés num segundo instante; e utilizará de uma bengala a fim de equilibrar o corpo, na fase mística, ou terceira idade.

sexta-feira, 17 de março de 2017

O último reduto da vaidade humana

Pouso de todas as eventualidades, bem ali quando os viajantes extenuados põem piquais abaixo e olham em volta na busca de algum refrigério mais. Enxugam a testa, passam a língua nos lábios ressequidos e estendem vistas ao horizonte que desaparece pouco a pouco nos derradeiros clarões do dia. Chegara sim à estação final do processo vida... Numa total ausência de possibilidades futuras, enfim o repouso em paz, isto é, a vinda de quem viria na certeza de buscar o passageiro do Desconhecido. Ela, a indesejada abra os braços de par em par.


Naquele instante, grau absoluto das relatividades do Chão, aonde foram os dilemas da espécie dos homens mornos? Tanta correria e pouca essência, tanto adiamento e vastas ilusões. Bom, mexe, nalguns juízos ela mexe, pois esqueciam de alimentar a certeza do desaparecimento lá adiante. Gostavam das falcatruas, das enganações de si e dos outros, quais vitoriosos, perfeitos, intocáveis, quando viam passar os despojos dos inimigos e riam felizes, só que vítimas da inevitabilidade. Quais vacinados da eterna dama, no entanto, pareciam imunes a todos os abusos deles praticados. Deixavam de lado o senso da realidade e amarravam a si coleções, apegos de carne, e deitavam e rolavam na cama da ingratidão. 

Claro que, nisto, fustigam a comodidade dos anos de se imaginar sem fim, amém. Contudo o tempo mantém viva a verdade ao pano solto no mastro principal das existências e se engana quem quer, ou pensa que quer esconder-se de quem a que final? Assunto meio de adulto, todavia inevitável. Olhe de frente, meu amigo, minha amiga, que haverá momento de chamar o garçom e pedir a conta. Bebeu, comeu, então aceite o preço do único cardápio.

Escolherá talvez os trajes, ternos, camisolas, ou fitas, da viagem de regresso, e erguerá nos ombros o peso da cruz que carrega, ou joga nos ombros alheios, e subirá a ladeira do Calvário no transporte da imortalidade, talvez ainda preocupado com os frutos e os negócios que armou, ou super alegre diante daquilo que semeou aos atores da mesma comédia. Abraços de paz naquela hora, que ninguém aqui ficará de semente. Examine com carinho e veja o seu merecimento já hoje.

(Ilustração: Angelus, de Jean-François Millet).

quinta-feira, 16 de março de 2017

Notícias daqui de dentro

Reencontrar pessoas oferece meios de reunir os pedaços da gente que ficaram largados pela estrada do tempo. O passado já existira no presente, e hoje virou matéria de memória. Há quem diga que domar o pensamento é controlar o passado. Só que tarefa por demais difícil, mas não impossível. Dominar o desejo significa dominar o pensamento, se não ele nos domina. Então, qual dizíamos, reencontrar pessoas representa isto de escavar a lama do que ficou atrás e trazer às malhas do presente e, quem sabe?, limpar, reaproveitar, organizar, compreender. Por vezes esquecemos as peças deixadas no espaço sem a devida compreensão. Errar vem a ser isso, interpretar de jeito equivocado os méritos, ou enlamear as virtudes. Houvesse o mínimo de bom senso, seríamos autores de outras histórias produtivas, felizes.

Nesse passo, visto corresponder a única existência que somos, e desejar usufruir daquilo que não nos cabe, perdemos direito a concentrar individualidade no sentido da harmonia. Pisamos as costas dos parceiros e viramos o barco da paz. A inveja, o ciúme, os recalques, o medo, sujeitam tomar o comando e jogar a carga da energia de uma vida inteira no abismo da perdição. Precisa de pulso forte, firmeza, a fim de frear os desejos equivocados e nunca romper a ordem de onde estamos situados.

Sofrimento, pois, na visão budista, equivale à irrealização do desejo. O pensamento cria necessidades abstratas e pretende, a todo custo, que estas venham à realidade. O ser pensante, contudo, existe abaixo da ordem universal. Seu desejo conta pouco, ou nem conta. Assim, invés de ver a concretização daquilo que deseja, deve obedecer e aceitar o que lhe aconteça. O que deseja, por isso, equivale à matriz da irrealização. E sofre a consequência dos caprichos irrealizados.Aceitar e amar, eis os instrumentos através de que descobre a realização de Si, portal das melhores alegrias.

Um amigo meu bem que me disse: - Encontrar um amigo nosso do passado e dar-lhe um abraço abre essas perspectivas a novas possibilidades.  

(Ilustração: Paul Klee).

quarta-feira, 15 de março de 2017

Presos numa cápsula

Durante bom tempo privávamos de autores de ficção científica em alerta ao que viria adiante. Era mais uma fase literária. O mundo começava a cores de impossibilidades galopantes. Ainda que houvesse boa vontade naquela geração bronzeada, pesavam-nos as decisões de guerras e desmandos desses líderes à toa que preenchem o lugar de chefes de países sem a menor competência. Sustentam apenas o desastre constante das máquinas e ainda pousam de poderosos, a destruir esperanças através do mercado financeiro. Bom, a gente buscava um jeito qualquer de não perder o sono. Eram músicas, livros, praias, amores, bebidas, drogas, vontade de sonhar intensamente.


A televisão e os celulares jamais anunciavam que eles dominariam o pedaço. Mas queimavam por baixo. A cibernética chegava às cavernas e academias, e invadia os chãos das fábricas. Lojas eram menos do que pontos turísticos dos hoje shoppings alienados. No entanto passávamos pelo tempo quais esses filmes de fotografia que transformam idade em velocidade. A aceleração nem de longe imaginávamos fosse tão veloz. 20 séculos em um minuto.

E hoje cá estamos amarrados por cabos metálicos nesta nave esquisita; de capacetes, máscaras de gás, roupas brilhantes de chumbo derretido, sons reluzentes e profecias indiferentes à sobrevivência da Humanidade.

Já festejamos a prisão da velha cápsula que alguns ainda chamam vida humana, olhos acesos em coisa alguma, porém dotados das mesmas artimanhas que montaram o passado das conquistas, dando continuidade à aventura perante o Cosmos. Os incensos continuam sendo acesos nos pés das imagens necessárias e o coração segue batendo na constante dos inícios. Alguns sinais riscam os céus, entretanto poucos e nenhuns sabem de que se tratam os horizontes. Às vezes contam histórias mirabolantes de seres que passaram aqui e deixaram marcados seus rastros nas pedras.

Lado a lado conosco, outros também atravessam o mar de areia das horas em caravanas dolentes. São nuvens e os únicos indícios de que corre o vento e nada parou. De certeza surgirão dias novos e luzes nas trevas que brilharão para sempre.