segunda-feira, 24 de julho de 2017

Dentro das paredes deste lugar

Ainda que visse lá de fora pela janela, era tudo, no entanto, o mundo cinza permaneceria quando vieram os primeiros raios de sol rasgando nuvens que passeiam pelo céu. Fome de tudo. Um gesto interno de pura vontade no querer transformar emoções antigas em máquinas de superação da dor. Pois o impulso de continuar vivo investe contra a vidraça feito besouro teimoso de permanecer aqui mesmo que o fastio queira tomar conta do universo em volta. 

Ele sai batendo nos objetos espalhados pelo chão. Mochilas de antigas cavalgadas, rastros de campos de batalha e marcas de sangue espalhadas nas árvores secas da caatinga. Pedaços de saudades escorregando feitas formigas impacientes através das telas do horizonte. Fiapos de melodias. Nervos e engrenagens percorrendo o corpo inteiro, por se saber passageiro preso dentro da velha cápsula rumo do céu do infinito. Enquanto isso, as pessoas, que vêm e vão, acenam pela porta entreaberta nos cumprimentos agradáveis de parceiros da jornada em outros veículos iguais. Sabe que elas gostam dele. Respeitam sua história, sem com isso poderem sentir o tamanho da dor de existir que lhe fere o peito com a intensidade dos mil sóis.

Se as frestas todas se abrissem num único instante por certo dividiriam o passado interminável por milhões, daí querer responder a questão do porquê do que atravessa premido naquelas circunstâncias. Pisa quase automaticamente os passos que caminha. Solto pelo ar, voa integrado ao corpo do bólide que conduz, na missão da vida. Passageiro, comandante, deus. Olhos acesos, de algum ponto do espaço lhe contemplam o andamento da jornada. Deixaram de compor o quadro interior dos pensamentos, pois revelaram pouca razão de pensamento. Eles desaparecem do jeito que chegam, longe de mudar o nível de energia que alimenta os motores da nave.

Com isso, dias passam, os astros, os animais, as cores, as visões fantasmagóricas do destino, as amarguras, os sonhos. Passam, passam, passam pelas janelas, mexendo nos sentimentos. Pequenos filamentos de antigos módulos formam os restos das bodas que sumiram no escuro dos mares, fora, no céu imenso. Só permanece consigo os traços deste presente que unem com o presente seguinte, quais bolhas que nunca param de formar novos mistérios do foco de existir. Só isto. E sabe que há tantas conexões disponíveis todo tempo. Elas aparecem num dos lados da tela principal. 

sábado, 22 de julho de 2017

Uma esperança mais próxima

Diante do tanto que acontece neste velho mundo dagora, qual houvessem os seres humanos simplesmente esgotado as possibilidades coletivas e quisessem pensar em si para consigo, do ego mais adentro, quem for podre que se quebre, por que chorar ainda outro tanto, invés de erguer a cabeça e elevar as vistas no horizonte, e saber do Bem maior que a tudo rege? Significa, sim, vontade soberana, desejo de alternativas sábias. Rever os padrões da sorte cega e refazer a assinatura da esperança. Baixar a bola do desespero agressivo e cuidar de bom gosto das novas chances que sempre indicam a Natureza mãe?!

Que esgotar, esgotaram as chances, isso confessam há tempo os índices e as pitonisas. Porém perder por perder fica feio a quem desejou singrar os mares e viajar céus infinitos. Controlou os ares, acalmou os mares, desvendou as dúvidas matemáticas, sem, no entanto, conter o touro bravio da dor entre os tais seres vivos. Humildade, resta, pois, aceitar ser humildes. Olhar de lado e ver o quanto de semelhantes palmilham o mesmo chão. Abrir as portas do coração e partilhar tesouros, as notícias do mistério e o desejo maior de felicidade equitativa. Querer, enfim, pacificar a fera acuada, que vaga solta nos escuros glaciais, e aceitar de om grado uma paz duradoura. Nutrir bichos menos indomáveis e sonhar novidades que promovam os bens de salvação desse trem das amarguras em que tornaram a vida dos muitos trabalhadores. Justiça, solidariedade e confiança, formas ideais de convivência, revelações da política verdadeira de filósofos e profetas geniais.

Enquanto isto, vem o sol das almas com seu brilho de coração em festa. Inova o prisma de cores incontáveis, nos fenômenos inclusive de dentro do próprio corpo que nos conduz, máquina livre e perfeição absoluta. Admitir a esperança qual gênero de primeira necessidade. E permitir sinceridade em todo sorriso que preencha de luz os dias da eterna Humanidade. 

(Ilustração: Cristo na tempestade no Mar da Galileia, de Rembrandt).

quarta-feira, 19 de julho de 2017

No dia em que me reconciliei com Deus

Quando perguntaram a um sábio qual o sentido da vida, ele, de pronto, respondeu: - É a vida.

Às vezes, a gente se torna exigente demais com a gente mesma, e esquece viver. É bem isto. Aceitar sem teimar as condições que estão aqui e agora.

Viver é diferente de perguntar, de falar, de querer, de insistir. É viver, pois. É isto que está aqui. Parar e olhar em volta o quanto a vida é bela, e completa. Quando perguntam a um sábio qual o sentido da vida, ele, de pronto, responde: - É a vida - de comum, a gente é quem inventa o que seja descompasso.

Ser feliz é ser. Ser pra merecer. O mais vem por acréscimo, qual música boa.

E lá um dia, ao morder num chocolate meio amargo, olhos fixos ao sabor inevitável de querer viver com arte, a arte dos chocolates meio amargos, nascerá de dentro a boa disposição de aceitar as condições de ser livre e dominar os conceitos que ensinaram em forma de sacrifício religioso, e vê que o Paraíso é vizinho da casa em que habitávamos há milênios. É só estirar a mão e comer maças, sapotis, ameixas; aspirar e sentir o perfume de todas as flores cheirosas; olhar o firmamento e pular de contente ao som das melhores músicas, festa no terreiro das folias. Olhar nos olhos das pessoas e saber dos que nos veem com carinho, gostam da gente com a mesma felicidade com que a elas nós olhamos. Pulamos de louvor e cantamos as canções que tocam o coração. Dias de plenitude luminosa. 

Por isso o amor vive solto no tempo e também nos segredos da alma, por vezes escondido, tímido, calmo, esperançoso. O maestro desta vida somos cada um, força do poder da soberania de um Pai grandioso que escolheu que sejamos assim felizes de ser seus filhos. Nisso, meio desconfiado, meio satisfeito, abrimos os braços e abraçamos emocionados o pai, que de há muito esperava nosso abraço mais saboroso.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Heróis da honestidade

Diz o sábio chinês Lao-tsé, em O livro do caminho perfeito, que quando o reino está em harmonia, com os súditos vivendo na ordem, zelando pelos seus afazeres, ninguém nem sabe quem é o Príncipe. Porquanto são outras as ocupações diárias, outros os compromissos de trabalho, de família, de folguedos. No entanto haja descompasso, e tudo indicará destino ao trono e suas artimanhas internas.


Muitas horas, as intrigas palacianas surgem das ânsias do poder, da desorganização social e da ambição de aventureiros inescrupulosos. Fazem da política razão de investimentos financeiros, degraus de dominação das massas e ostentação das vaidades humanas. Há estruturas montadas em cima de leis seculares, determinações de contribuição ao enriquecimento, formas rígidas de controle das populações, que enfraquecem nas bases comunitárias e distanciam mais e mais governantes de governados. 

Disso as graves indagações dos tempos de como preservar a ordem pública e satisfazer as carências dos países sem ferir a Ética. Novas castas invadiram as instâncias de poder através das instituições, e jamais imaginam, nem de longe, largar o osso das benesses, vindas desde longe, das outras gerações. Nalguns casos, a partir do período colonial. E com isso a força do povo perde em capacidade e determinação de preservar seus reais valores. O reino submete os súditos a caprichos e fúrias, contido esse através da elite privilegiada nas camarinhas das administrações.

Eis o diagnóstico tão velho quanto os piores resumos de períodos históricos idênticos. Falcatruas. Desmandos. Demagogia. Extravagâncias. Injustiças. Clamor maior também nas famílias, que penam sob o peso da responsabilidade que lhes é repassada na Lei soberana, em farsa aparentemente democrática, contudo descomunal. 

Porém, a que o barco siga seu curso, persiste a disposição constante daqueles heróis da sobrevivência que, a ferro e fogo, resistem às normas das épocas, na troca de sonhar com os dias melhores que haverão de vir. Que depois das tempestades vêm as brisas suaves que ensinam as lições. São justos, honestos, trabalhadores, movidos pela coragem que alimentam no amor da Verdade original. 

(Ilustração de Pieter Bruegel, o Velho, A dança dos camponeses).

sábado, 15 de julho de 2017

Regina

Fui vê-la duas vezes, na casa de uma prima onde residia em Crato, à Rua Getúlio Vargas. Da primeira vez, levava comigo encomenda do padre Vieira, uma carta. Ele dissera no telefone que eu deveria conhecer Regina, e que mandava essa carta aos meus cuidados para que fosse procurá-la. 

Recolhida a cadeira tipo preguiçosa, estatura mirrada, retorcida no próprio espinhaço, de cabeça pendente, sem o domínio das pernas, quase nula dos braços, resistia viva há mais de quarenta anos, sob o auxílio de parentes. Filha de mãe pobre habitante das margens do Rio Grangeiro, perto da cidade, imediações da atual Ponte das Piabas. Sua mãe namorara incerto homem casado, chegando a engravidar, motivo da vergonha dos pais, que só aceitaram a criança pela rara beleza de que fora dotada, trazendo alegria aos quantos desfrutavam do seu convívio. Próximo dali morava uma vizinha que possuía uma neta não tão esperta e cativante, o que lhe deixava triste. 

Certa tarde, enquanto a mãe de Regina fora à bênção na Sé Catedral, a avó, levando consigo Regina ainda de berço, desceu ao rio para buscar umas roupas estendidas. Durante alguns momentos, a menina ficara apenas sob os cuidados da vizinha que lá também se achava na ocasião, porém esse tempo foi o suficiente para ela aplicar, com um porrete de madeira que usado para bater a roupa, golpes vigorosos dirigidos nas costas do bebê, à altura da espinha dorsal.

Ouvidos os gritos, apressada, a avó retornou sem nada considerar de anormal. A mulher disfarçara o crime. Nos dias posteriores, arrumou seus pertences e logo mudou de endereço. Quando os familiares de Regina perceberam o que acontecera, seria tarde demais; na ação perversa, a vizinha inutilizara quase por completo aquela criança.

Alguns anos transcorridos, num dia de feira, as duas avós ainda trocaram opiniões sobre o ocorrido daquela tarde. Os argumentos da vizinha invejosa demonstraram completa inocência, pois ignorava tudo sobre a perversidade. 

Daí, Regina cresceu doente, prostrara-se como a conheci. Segundo ela, tempos depois, já na idade adulta, uma madrugada, sem saber da morte daquela senhora, acordou vendo intensa luz dentro do quarto em que dormia. No clarão, acompanhado de forte ventania, divisou nítida a figura de uma freira, de rosto ameno, sorriso nos lábios. Ela, então, perguntou a Regina se poderia perdoar a quem tão cedo lhe prejudicar, roubando-lhe a saúde e os seus movimentos. Pensou um pouco, avaliou tudo, o passado difícil, sua história, lembrou-se de sua mãe, dos avós desaparecidos, e de Deus. Não viu por que guardar mágoa, rancor, nem sede de vingança.

- Perdôo, sim – foi o que respondeu.

Daí, num crescendo intenso, principiou a ouvir longe uma voz sofrida que pedia: - Regina, me perdoa? E a voz veio se aproximando a repetir o pedido: - Me perdoa? A cada repetição, ela ia respondendo: - Perdôo... Perdôo... Perdôo...

A voz aproximou-se mais e ouviu alguém abrir o portão de ferro do jardim, chegando junto da porta da frente, refazendo o peditório, silenciando no instante em que caiu em prantos. De novo tudo voltou a ficar calmo e o silêncio reinou pela madrugada. 

Eu, atencioso, só escutava a narrativa. O tempo passara e me despedi emocionado. Fiquei de voltar outra vez, houvesse oportunidade.

Naquela que seria a minha terceira visita, me vi surpreendido com a notícia de que fazia um mês que Regina deixara este mundo. Deste modo, além das lembranças do seu aspecto de pessoa sofrida e conformada, dela tudo o que guardei deixo aqui contado nestas palavras escritas.    

sexta-feira, 14 de julho de 2017

A leveza dos pássaros

Agora recente, ouvi de Weber Girão, o biólogo responsável pelo projeto do Soldadinho do Araripe, em Crato, que há claro risco do desaparecimento da espécie. Isto dentro de poucos anos, dada a velocidade com que são desmatadas as encostas da Serra. E que a solução será o pronto reflorestamento das matas ciliares, sobretudo em relação ao entorno das fontes.

Poucos dias atrás, passava pelo meu juízo o quanto a fragilidade caracteriza os frutos do Tempo em que vivemos quais peças de cenário maravilhoso; tudo é lindo, tudo é frágil, quais sorrisos doces de uma criança. Suave. Simples. E nós, bichos agressivos, interesseiros, no meio disso, do sagrado da Natureza, guerreiros estapafúrdios da vaidade humana. 

Peixes tubarões competitivos, ilusórios, desfilamos apressados nos bólides metálicos pelas avenidas, ganhadores das taças da ingenuidade e da pobreza moral. Meros fazedores de ruínas, tangemos o bonde da história, ainda famintos das necessidades mínimas de ética e bons costumes. Estupradores, traficantes, viciados, políticos infiéis, arrombadores, gananciosos, eles também contam, na média aritmética dessa fome dos predadores inveterados. 

Assim, tudo tão leve, tão frágil, e o velho barco segue mar adentro, nau dos insensatos e casa comum das comédias e falcatruas. Ninguém queira pular fora, que não existe lá fora. Único, perene mar das alegorias humanas... Vender almas em troca de dor, enquanto bem poderá ser no sentido inverso: aceitar a dor e salvar a alma. Que o vento das horas desliza faceiro sobre a pele dos ímpios para sempre. Não há fuga possível, nem imaginável.

Bem, que desejemos reunir forças e salvar os soldadinhos do Planeta, quando mais e mais pede a ser salvo, no coração da gente. Aprender a amar incondicionalmente o respeito das existências, inclusive dos outros seres humanos. Viver a intenção de dominar a si mesmo, na guerra das divergências que poluem este mundo raro, fabuloso e habitat das belezas raras. Ser feliz, afinal, permitindo que os demais também sejam.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

O barroco da Iluminação

Inícios de tarde deste julho frio que atravessamos no Cariri e visitei a exposição O onírico não estabelece fronteiras, do artista caririense Lupeu Lacerda, em andamento na galeria do quarto andar do Centro Cultural Banco do Nordeste, em Juazeiro do Norte. Uma viagem através de mundos siderados, esdrúxulos e espasmódicos. Misto de artesania com delírios, são quadros inomináveis, circunspectos, de outros universos que não este do mistério daqui que vivemos sob o tédio das repetições.

Lupeu, sim, desmergulhou com força do âmago de sua própria história dos inúmeros passados e trouxe ao panorama da visão crítica o que conseguiu apurar, o que podemos classificar de, no mínimo, instigante naquilo que achou por bem transmitir aos outros mortais. Buscou nos minérios internos da alma o que houvesse de mais desafiador do tanto quanto conheceu em aventuras errantes, e lapidou, construiu, na soma de duas técnicas, o biscuit e o óleo, às vezes sobre tela, doutras em madeira; ora em círculos, ora em quadros ou retângulos. Causou algo de insólito e rumoroso em painéis de cobre acetinado, o que significam suas obras.

Na visão do pintor-artesão a jornada prossegue nas denominações das peças: O velho príncipe volta para casa. Tábua de Esmeraldas. Chuva de dados. Kariri. Nossa Senhora das Armas. Aqualung. Sétimo selo. Pacha Mama. Nos corredores sombrios do seu Inconsciente e dos tempos recentes da arte, transforma pedaços de si nos apelos visuais quase que agressivos e zombeteiros que traz a lume, ação de revelar o que lhe veio aos sonhos.

Ele, que também produz versos e contos, entremeia sagrados e psicodélicos, também neste seu momento dagora, porquanto lá antes, em Petrolina PE, já promovera, juntamente com Guto Bitu, a exposição Sacrodélico

Indicado a quem deseja renovar o guarda-roupa da imaginação, a mostra permanecerá em cartaz no BNB Cultural de Juazeiro do Norte CE até 09 de agosto do corrente.