sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Aceitar as contingências


Duro é para ti recalcitrar
 contra o aguilhão. - Jesus (Atos, 9:5)

Situações que se apresentem no decorrer dos dias exigem por demais atenção e paciência, trazendo à tona ensinos religiosos e filosóficos guardados atentamente nos livros. Quase sempre é preciso que adotemos medidas estratégicas de concentração mental e positividade, a fim de cruzar barreiras quase a dizer intransponíveis. Isso, aquilo, pede paz ao coração das pessoas, persistência e ânimo firme. Determina atitudes adequadas a viver, ainda que diante das adversidades. Bem porque carregamos no íntimo a força suficiente de vencer todos os desafios que por ventura assim tenhamos de encontrar.

São ensinos pertinentes, úteis e necessários, e que deles carecemos, invés de naufragar no mar das frustrações e deixar que o desespero atinja o direito sagrado de sobreviver a tudo, porquanto viemos no intuito de avistar a terra da promissão. Só em pensar nas quantas gerações de seres iguais a nós vieram e regressaram, todas a braços com os mesmos transes os quais batem às portas de muitos, isso determina que utilizemos de práticas de pensamento elevado, otimismo, paciência, e levemos em conta a oportunidade dos aprendizados e das determinações que compõem o quadro das ocasiões.

Tal dizem os pensadores existencialistas, somos nós e as nossas escolhas. Apenas confrontar, por isso, nada representa, visto serem os instrumentos de construções da vitória o que logo à frente sorrirá aos que desenvolvam habilidade em administrar situações, conquanto viver e lutar trazem o mesmo significado neste tabuleiro das existências.

Usar, deste modo, o condão das palavras a título de alimento sadio aos leitores, impõe a quem escreve o dever fundamental de oferecer meios práticos e elementos exatos de atravessar as tempestades deste mundo em mudança. Queiramos, pois, desvendar os mistérios das jornadas no sentido favorável à esperança, caminho da paz e da tão desejada felicidade.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Jamais se esqueça de si


De tudo quanto importa, na verdade, eis o que durante todo tempo ouviremos na voz da Consciência em nosso interior. Pouco importa fatores e circunstâncias, venceremos o espaço estreito aonde viemos, porquanto contamos com toda a força do Universo. Alimentemos a vontade de encontrar os lugares do Amor em nossos sentimentos. Busquemos, intensos, a libertação dos limites desse chão em movimento constante. 

O de que melhor já existe face aos mistérios vibra em nossas almas. Acreditar nisto vale por todas as riquezas deste mundo. A fonte da vida que nos permitirá abrir as portas do tesouro que já o somos e que mora dentro de cada ser, conquanto necessidade maior persiste nos instrumentos naturais a que pertencemos desde sempre. 

Nisso a vontade viva rumo da felicidade completa e inextinguível que cabe aos passos de cada um nas estradas pelas quais ora desenvolvemos os dias da nossa própria história, criaturas perfeitas que precisam apenas se reconhecer. Ao nível de nossas mãos, o tempo oferece o condão da esperança; daí querer significa a base das lições que aqui viemos buscar. Ainda que nalgumas vezes dificuldades ofereçam desafios imensos, nessas ocasiões resta sacudir os fardos desnecessários e vencer o território estreito da matéria, pois somos espíritos imortais, senhores de todos os tesouros que transportamos em nossas almas. 

Quantas oportunidades habitam em todo momento ao dispor das criaturas humanas. Recolhamos, assim, as raízes de nossa salvação da essência do que possuímos em nosso interior. Há uma fonte viva de luz, paz e transformação no íntimo dos nossos corações. O testemunho dessa conquista virá de nós, mensageiros da revelação superior. Acreditemos, sobremodo, na imensa possibilidade que permeia fulgurante os segredos da criação. Vivamos, por isso, a construção dos mundos infinitos de que também somos seus autores e viventes.

(Ilustração: Vladimir Kush).

Intercessão valiosa


Das inúmeras ocorrências verificadas no decurso da Confederação do Equador, no Ceará, idos de 1824, episódio impressionante narrou Esperidião de Queiroz Lima, no livro Tempos heroicos, o que transmitimos aos que ainda não leram a publicação.

Trata-se da execução de um dos sentenciados pelo tribunal militar conhecido por Comissão Matuta, no mês de outubro daquele ano, instalado para punir as hostes rebeldes. Julgados e condenados, cinco líderes republicanos seriam fuzilados no pátio da Cadeia Pública de Icó. Um desses, Antônio de Oliveira Pluma, autodenominado Pau Brasil, conforme sua assinatura no manifesto do movimento, insatisfeito com o resultado a que se via submetido, reagiu em altos brados, protestando misericórdia de quem ali se achava.

Recusara mesmo permanecer de pé, mas, sendo assim, forçaram-no em cordas a se sentar numa cadeira, onde, com olhos vendados, ainda pedia que o deixassem viver.

De nada lhe valeram as rogativas, pois logo em seguida o pelotão recebeu a ordem de preparação:

- Apontar!

E, ante os disparos iminentes, o pânico pareceu querer tomar a alma do condenado em face da morte inevitável, sob o monto de todo o idealismo que até ali dominara os atos de sua razão da existência. Outra vez, um gesto cresceu de sua voz, explodindo mais alto em reclamações de amparo, lançadas aos planos superiores:

- Valei-me, Senhor do Bonfim!

Nisto foi secundado pelo toque de comando: - Fogo!

Cessada a fumaceira, as balas achavam-se cravadas no muro onde o revolucionário permanecera incólume, sacudindo de espanto os presentes. Seguiu-se nova carga de munição. Restabeleceu-se a ordem preparatória, e se fez no ar outro grito de socorro:

- Valei-me, Senhor do Bonfim!

- Fogo! - comandou a ordem marcial.

Resultado: o alvo manteve-se intacto. Os tiros voltaram a ferir tão só e apenas o muro, para desânimo da escolta. Em meio do inesperado, tonto, pálido, o comandante reclamava prática melhor de tiro a seus homens, visando manter os praças no cumprimento do dever, tratando de retomar as determinações da próxima tentativa, que foi precedida pelo mesmo grito do condenado, tão pungente quando sincero:

- Valei-me, Senhor do Bonfim!

Os disparos se deram, de acordo com a obediência. Desta vez Pluma fora atingido por algumas balas, mas continuava vivo, segundo narra em seu livro Queiroz Lima.

Soldados de pronto se movimentavam para um quarto fogo. Nesse instante, a população presente, tocada de simpatia pelo confederado, se ergueu coesa e exigiu o direito do réu ser libertado, qual merecesse o valimento dos céus. Em seguida, essas pessoas levaram-no consigo, alheado e preso à cadeira do martírio, até à Igreja do Senhor do Bonfim, distante cerca de 200m do ponto onde a cena ocorrera, entre preces e benditos fervorosos.

Há registros do ano de 184l que dão conta de que o sobrevivente veio a ser titular da Promotoria Pública da comarca de Baturité, no Ceará, o que bem comprova sua resistência aos ferimentos naquele dia recebidos, na tentativa de execução de que fora objeto e sobrevivera, no município de Icó, dezessete anos depois.            

(Ilustração: Os fuzilamentos de 03 de maio, de Goya).

Padre Frederico


Quem viveu em Crato nos anos 50 e 60 com certeza conheceu o padre Frederico Nierhoff, sacerdote responsável durante décadas pela paróquia de São Vicente Ferrer, na zona central da cidade. Dotado de espírito empreendedor, fez a reforma da igreja e ampliou o salão paroquial, além de instalar projeto comunitário rural no distrito de Ponta da Serra, na localidade denominada Mata, iniciativa de larga envergadura, deixando marcas profundas de sua liderança religiosa em todo o município.

Pois bem, sobre a personalidade forte do Padre Frederico algumas vivências ficaram registradas na memória do povo cratense. A sinceridade e o senso de humor lhe caracterizavam as atitudes. Homenzarrão de quase dois metros de altura, vozeirão, sotaque a lhe denunciar a origem; natural da Alemanha, viera ao Brasil na época da Segunda Guerra para atuar junto de outros compatriotas que fundaram o Seminário Sagrada Família, situado no sítio Recreio, imediações da zona urbana, prédio depois destinado às instalações do Hospital Manoel de Abreu e agora adquirido pelo governo do Estado para instalar um Centro Cultural. 

Dentre as suas histórias mais pitorescas se pode anotar o caso de um matrimônio da gente dos matos que veio de celebrar. No instante das partes aceitarem o definitivo do compromisso conjugal, a noiva saiu-se com inesperada recusa. Desfizeram com isso o cerimonial que só voltaria a acontecer passado algum tempo.

Da segunda vez, as peças se inverteram. Nessa ocasião quem negou a dizer sim foi o noivo, motivando outro constrangimento às famílias, aos convidados e celebrante. 

Até a terceira data, as coisas demoraram um tanto mais de tempo, porém mesmo assim verificando-se dentro da menos provável expectativa.

Todos a postos, silêncio apreensivo no ápice do ritual. Feitas as clássicas perguntas, suspiro de alívio percorreu o ambiente quando os dois responderem favoravelmente à pergunta do sacerdote. No entanto algo ainda faltava de suceder.

- Pois hoje quem não aceita sou eu - contra-atacou o vigário. - Vão embora que eu não celebro mais esse casamento encruado.   


quarta-feira, 25 de novembro de 2020

O ferreiro de Barcelona


As trevas da Inquisição cobriam a Europa de mártires e de terror. A Idade Média anulava os anseios religiosos da grande população, através de cruel intolerância solapando liberdades civis qual fosse uma peste sulfurosa. Durante o século XIII, cometeram-se ignomínias e atrocidades, aplicando penas que iam do confisco dos bens a execuções sumárias, torturas e outros castigos inimagináveis.

No auge de tudo isso, existia na cidade espanhola de Barcelona um ferreiro afamado que ganhara a preferência dos executores das penas no mister de confeccionar requintados instrumentos adotados pela repressão impiedosa. Suas algemas mereciam respeito face ao primoroso zelo com que as manufaturava, sem existir quem lhe pudesse superar na qualidade. Cumpria de sobra com as encomendas apresentadas. De suas produções jamais alguém conseguia escapar. Um profissional e tanto o ferreiro daquelas peças de trancar perseguidos da oligarquia que avassalava as consciências desse período trágico, no combate das idéias renovadoras e escarmento de tantas vítimas.

Pois bem, esse homem se orgulhava de que ninguém era capaz de se livrar das suas tenazes; ninguém, que fosse, chegava a fugir quando preso com os ferozes mecanismos.

O tempo, justo e sobranceiro, porém, guarda surpresas na aparente monotonia dos gestos humanos. 

Dias e noites passavam céleres, até que durante uma festa de insistentes brindes, perante vasta multidão, o ferreiro, animado além do tanto nos assuntos do vinho, excedeu-se nas palavras, deixando transpirar segredos inconfessáveis, aos quais chegara por via do prestígio adquirido junto às cúpulas do Santo Ofício. Na carraspana, inconfidenciara notícias que determinariam o seu próximo destino.

Coisa pior não lhe poderia acontecer. Caía desse jeito nas garras do mesmo tribunal a quem servira. A equipe dos doentes espirituais, por meio de julgamento improvisado, cuidou da sua condenação, ficando desfeita a velha aliança.

Após o pesadelo das primeiras horas, ele despertava desnudo em solo úmido de masmorra infecta. Colado a pedras ásperas, sentiu nos pulsos crivos frios de metais enegrecidos. Entre dormido e acordado, buscou esperanças no manuseio do mecanismo que o retinha de encontro à tosca parede da prisão.  

Recobrara os sentidos para perceber, qual não foi a surpresa, que se via atravancado nos pulsos e tornozelos por dois pares de grilhões que produzira na véspera da comemoração onde fora se meter, perdendo o domínio e sentenciando o merecimento da justiça torpe dos que antes auxiliara. 


segunda-feira, 23 de novembro de 2020

A balança do Tempo


É infinita a distância entre a liberdade e o agir. Itinerário por demais admitido, no entanto o querer determina os passos a serem dados. Uns aceitam duvidar; olham, mas veem só a direção contrária dos místicos. Acham sempre um motivo de pender ao lado contrário na balança da sorte. Só querem o imediato, invés de aceitar o preço do trabalho, da dedicação, da renúncia, por vezes até do sacrifício. Nada que supere o peso do prazer, das iscas que avistam no vento. Existem, pois, as duas teses bem estudadas, o Estoicismo e o Hedonismo.

Estoicismo: doutrina fundada por Zenão de Cício (335-264 a.C.), e desenvolvida por várias gerações de filósofos, que se caracteriza por uma ética em que a imperturbabilidade, a extirpação das paixões e a aceitação resignada do destino são as marcas fundamentais do homem sábio, o único apto a experimentar a verdadeira felicidade. (Oxford Languages and Google)

Hedonismo: cada uma das doutrinas que concordam na determinação do prazer como o bem supremo, finalidade e fundamento da vida moral, embora se afastem no momento de explicitar o conteúdo e as características da plena fruição, assim como os meios para obtê-la. (Ibdem)

Nesse universo ético, portanto, acontecem as providências humanas. Uns apostam a existência na casa da resignação. Outros na pura fruição dos bens materiais. Enquanto isso, escolas espiritualistas voltam suas baterias pela aceitação de meios extrafísicos, aonde semeiam esperança nos dias porvindouros. O que faz diferença no sentido dessas atitudes são os sistemas de crenças individuais. 

As escolas religiosas, sobretudo, exercitam a norma da definição dos planos além das percepções apenas do corpo e avançam nos valores ditos eternos.

Desde os primeiros registros da humanidade persiste essa busca pelo que virá após a perda do corpo, conquanto a exatidão da Natureza indica essa compreensão dos níveis maiores da consciência, expectativa da ciência oficial e dos habitantes deste chão de provar em laboratório a continuação da vida depois da morte.

Destarte, caminhamos no caminho que melhor atende às possibilidades de nossos valores e tratamos de escolher o que irá determinar nossos dias no futuro nem tão distante. 


quarta-feira, 18 de novembro de 2020

A solidão dos corações enamorados


Nos imensos desertos da alma que abrem de par em par suas portas ao eterno, encobertos pela poeira de sonhos vagos em noites estreladas, litanias desesperadas rompem os céus das histórias de princesas presas ao leito do desespero ao furor de lhes rasgar o peito apegos a um amor imortal; só então vêm à tona os tetos em brasa dos desejos ardentes de paz que revolvem por dentro o turbilhão de paixões desenfreadas, desfeitas em mil pedaços ao frio calor das madrugadas, e bem ali a se instalar no fervor dos vendavais do Infinito quando o coração em guarda trabalha a voragem de todos os sentimentos à cata de referências e salvação.

Bem assim somos nós, testemunhas e autores das angústias que nascem da beleza e dos amores incontidos a fervilhar o abismo da alma. Senhores de tantas tradições, porém presos às maravilhas em volta, circulamos tontos nas fibras intocadas do coração. Quantos sonhos guardados nas cavernas do sentimento, onde vive perene o Amor. Ânsias das mais perfeitas melodias, inspiração do Universo em forma de luz, súditas da força mais poderosa, multidões avançam pelas colunas do Tempo e aceitam essa presença do Autor Desconhecido que as domina, feitos meros instrumentos que o somos da afetividade. Nisso construiremos mundos e oferecemos os meios às novas existências, que nascerão de nós mesmos. 

Na certeza, pois, de sentir a magnitude do mistério, no entanto apenas aguardamos a verdade que sustenta os astros lá nas alturas e mantém o instinto da sobrevivência, oxigênio e motivo dos acontecimentos. Encapuçados na própria solidão, deixamos que brilhem formas que presenciam os refolhos íntimos, fantasmas na escuridão que prepara a imortalidade, indivíduos silenciosos; alimentamos a possibilidade de algum dia despertar nos braços de quem se ama e jamais sumir pelas esquinas sórdidas da ausência. Aceitar a alegria qual fator de essência e certeza absoluta da Consciência de tudo quanto há.

Ilustração: Moça na janela, de Salvador Dali.