quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Valor incalculável das democracias

Na idade dos povos o que conta são as realizações da liberdade. O estabelecimento da paz entre os cidadãos. Paz obtida a largas penas. Maturidade adquirida na força das gerações. Quantas e tantas madrugadas insones. Horas aflitas de campos de batalha. Marcas profundas no tecido social. Mesas de negociações. Cicatrizes. Assim se medem as democracias no teatro deste mundo.

O trilho brilhante dos sonhos feito realidade, desse jeito são as democracias. Dores de partos extremos, milhares, milhões que sofreram a dor desses partos de realizações promissoras. A ninguém cabe, no entanto, o crédito dos nascimentos dessas conquistas dos humanos. A todos, isto sim. Quanto de renúncia dos que acreditaram nas transformações da sociedade, e fizeram sacrifícios, sofreram holocaustos, a fim de ver nascer plenitude. Bem sabe quem presenciou as epopeias em volta das fogueiras acesas do desejo das multidões. 

E jamais largar de lado a responsabilidade disso, comum a todos. Sustentar as verdades da Justiça e da Paz. Alimentar a vontade da autodeterminação qual fator essencial à vida. Preservar as conquistas da história dos que perderam a vida em nome do ideal dessas revoluções fundamentais. Nem de brincadeira nutrir ódios ou fome de vingança. Os países chegam a degraus mais elevados de institucionalização dos valores obtidos a ferro e fogo.

Agora vivemos novos dias, resultado das experiências, erros e acertos. O futuro reserva às famílias a sabedoria dos seus líderes que substituem os que fracassaram. É disso que ora falo, dos dias de prosperidade que construímos durante todo tempo, desde a colonização. Isto em mundo livre, nação continental, plena de oportunidades e orientação de verdadeiros governantes que aceitam cumprir a delegação da autoridade. Consciências que despertam nesta condição da vitória dos valores justos. Nem dizemos que demorou, pois tudo só vem na hora certa, sob o manto abençoado das luzes deste Milênio tão esperado com fervor. 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Tensões psicológicas

Eles falam disso quanto aos descompassos que o ambiente influencia, que o corpo influencia, mas o que conta, na verdade, são os jogos de dentro da inconsciência da gente. Esse que vai e vem dos dias, nas praias dos movimentos psicológicos mora dentro. Os impasses e as tensões psicológicas contam muito mais. Aliás, determinam quase tudo. Aspectos externos integram, porém o peso maior vem das tais formações individuais das criaturas, do que elas juntaram no depósito da existência tangendo os animais dos momentos e despedaçando o passado. E que o reequilíbrio dos setores internos dos nossos arquivos pessoais permite convoquemos os instrumentos da criatividade e produzamos o suficiente de viver em paz com a gente e com os demais seres humanos.

Normal mesmo de plenitude ninguém assim considere a si que seja, porquanto essa medida do perfeito normalizado ainda não consta das determinações da natureza humana. Umas pedras em profusão ladeira abaixo, nada que fuja aos propósitos dos sonhos, tais equivalemos. Buscar as vocações, os talentos, os dons, eis o que compõe o direito soberano de existir. Ser acima de tudo. Animar viver com sabedoria e habilidade. Nos altares das ocasiões, elevemos os desejos às emoções de ser melhor que antes fomos.

A interpretação do objeto vivo que fomos pede, portanto, autossuficiência no palpitar dos corações. Indica permanentes estradas novas. Nem de longe acusar outros, clima, lugar, indigestão face aos tumultos do estômago perante as angústias daqui do Chão. Reclamar só que seja do próprio freguês, e olhe lá se, de jeito alguém suporta a realidade.

Daí, perante o choque dos dois lutadores no ringue do Destino, adotemos o valor da liberdade. Consideremos a importância do fluir dos nascimentos. Guerreiros, pois, do numeroso exército da individualidade, procedamos quais águias que perderam a dimensão do voo e sumiram nas quebradas do Infinito. Nem adiantaria olhar lá antes, que aquilo desapareceu nos trilhos do depois. Permanecer no instinto de jamais voar de volta e nunca chegar ao amanhã. Aqui e agora. Um ser solitário liberto pelas asas silenciosa da mãe Eternidade.
  

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Histórias alheias II

Isso de gostar de contar histórias vem de longe, desde meu tempo de criança maior. Dentre os primeiros autores que li, incentivado pela minha mãe e por Tia Risalva, irmã do meu pai, aprecio as lendas orientais. Recentemente, em visita a Seu Chico, amigo livreiro que mora aqui próximo, em Juazeiro do Norte, eu adquiri Lendas do Povo de Deus, da autoria de Malba Tahan, daqueles autores lá dos inícios do meu gosto pela literatura. Uma surpresa de qualidade a cada página. São narrativas surpreendentes dos místicos judeus do hassidismo, vertente dos rabinos israelitas. Na obra, li a história Meia fatia de pão, que aqui quero partilhar. 

Rabi Haniná educava seus discípulos ensinando a descrença nos feiticeiros e adivinhos. Lá certo dia, dois desses discípulos precisaram adentrar a floresta na busca de lenha. Antes, porém, depararam com astrólogo que os solicitou a ouvir previsões lidas nos seus estudos. Foi, então, avisando que desistissem do intento a que se propunham, pois não iriam sair vivos da tarefa. Os discípulos, ouvindo aquilo, preparados pelo mestre, desconsideraram a instrução do vidente e sumiram mata adentro. 

Lá frente, deram de cara com pobre ancião faminto, que lhes pediu uma esmola. 

Os discípulos levavam tão só o suficiente ao passar do dia. Inda assim, partiram ao meio o pão do mantimento, e prosseguiram na missão. 

Mais tarde, feixe de lenha às costas, ao sair da floresta avistaram o astrólogo, que se abismou ao reconhecê-los vivos. Pessoas que observaram as previsões, contudo, questionaram a seriedade do homem no que ele antes dissera.

Naquele instante, o astrólogo pediu aos discípulos que desfizesse o feixe de lenha que traziam. No meio das madeiras ali achou restos de serpente perigosa, morta, partida ao meio. Nessa hora, quis saber o aconteceu no decorrer da viagem. 

E eles contaram do velho e o que deram a fim de que saciasse a fome.

O astrólogo, contrafeito, reclamou: - O que posso fazer, se o Deus de vocês deixa se influenciar apenas por meia fatia de pão?!...

Paisagens escondidas na alma

Nalgumas horas, ao ver, na distância, o desenho das nuvens, árvores e cores espalhadas no firmamento, chegam de novo saudades tão antigas das quais nem lembrava que soubesse. Elas nascem outra vez, lá de dentro das fibras da gente. Falam daqueles sonhos de inocência dos instantes antigos, camadas adormecidas que revelam o sabor da felicidade de quando imaginávamos ser ali perto o pouso da esperança e que a leveza entre os seres pudesse tocar. Mostram quanto mudou o panorama dos dias, nos passos dos caminhos. A família, antes porto seguro, os pais, os irmãos, todos dispersos nas soleiras deste chão do Infinito. Marcas, no entanto, ficaram grudadas nas grutas das lembranças, que regressam pelas impressões das tardes silenciosas, vistas de olhos macerados nas tantas visões do inesquecido.


Isso dos seres que nós somos, a deslizar nas pautas das cantigas, melodias do tempo, em forma de gente, quadros incontáveis de verdades eternas ainda por concluir. Junto delas, essas impressões que desvelam da visão comum seus personagens, as falas, os lugares. Cantos de pássaros, expectativas e sonhos. Brinquedos da criança traquina, filha dos deuses, que somos, peças e joguetes de ondas e ventos, parceiros do destino intrépido de naus e estrelas do horizonte longínquo. 

Na fresta dessas ocasiões tão inevitáveis, ressurgem olhares das certezas do quanto é bom viver, construir e reconstituir os filmes da consciência através de formas e luzes, atores audazes do desconhecido. Às vezes que nos vêm à ponta dos dedos, destarte, inúmeras oportunidades se nos oferece o barro da existência e resta construir dessas horas os elementos de cura. Somos, por isso, os artífices das estações seguintes, sinfonia de possibilidades, nos planos do para sempre. Acalmo, pois, as moléculas do sentimento e busco aqueles amores jogados fora; faço do clima as horas em novas circunstâncias bem mais visíveis, conscientes e libertárias.  

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Instituições do Eterno

Há construções que demoram a acontecer, mas quando o tempo oferece meios suficientes, elas perenizam e determinam os demais acontecimentos. São as instituições sagradas dos grupos sociais. Nasceram diante da fria necessidade dos tempos e ganham raízes na força que possuem, a demonstrar que têm outra razão de ser além do puro desejo dos humanos. Tais edifícios recebem o nome de instituições e oferecem estrutura ao enraizamento da evolução nas civilizações. Resolvem as ansiedades parciais por conta do potencial que possuem, dos frutos que oferecem de verdadeiro e que geram a paz das nações.

Dentre tais instituições eternas vale considerar, dentre outras, a saúde, a família, o sexo, o silêncio, a própria paz social, o respeito e o entendimento dos grupamentos e das pessoas, a justiça, as religiões, o sagrado de todos nós, a liberdade, a ciência.

Quais balizadoras do progresso dos seres no decorrer história, as instituições ganham consagração face ao poder que demonstram no correr das eras. A escrita, a arte, a beleza, as matemáticas, a natureza, valores de poder no plano da evolução. Significam sobremodo a decodificação dos sistemas e da harmonia de tudo quanto há. E denotam o que existe de consistência e seriedade no respeito a essas determinações originais que vieram a fim de fornecer elementos de tecnologia prática aos povos, na faina de sobreviver aos ditames das penúrias originais. 

Daí, contextualizar o senso de aceitar isso, integrar na vida a instituição sagrada do direito de viver e permitir um tanto de modificações no comportamento das criaturas a partir de si. Perceber que ninguém é só mero joguete das circunstâncias, peças de reposição dos que se foram. Receber de bom grado o plano do crescimento dentro do contexto do universo bem mais amplo e justo, harmônico e sábio.

Assim, virá o dever das criaturas conscientes às instituições da prudência, da fé, da esperança, das virtudes, instrumentos de plantação do sonho maior da Felicidade no solo fértil de tudo em todos.

(Ilustração: Museu de Paleontologia de Santana do Cariri CE).

domingo, 10 de setembro de 2017

A grandeza de Deus

Pelos caminhos da existência, seres inteligentes buscam compreender o mistério da divindade. Tão antigo quanto o primeiro dos humanos, de uma certeza sabem, sem dúvida, Ele é maior do que tudo quanto há, isso em termos de percepção através dos sentidos físicos. Dizem ser Deus a simplicidade das coisas mais simples. De tamanha simplicidade que a razão jamais, por si só, daria de conta da compreensão do Absoluto. Qual saber de existir um ente que esteja perene desde sempre, incriado e Criador, onisciente, onipresente, poder superior que sustém todos os fenômenos e presenças em quaisquer universos possíveis e imagináveis. A luz e a beleza; o Bem e a pureza do amor maior; a certeza e o objetivo do quanto existir e existirá eternamente.

Face ao princípio e o fim, sustentação dos postulados a que persiste viver, a maravilha dos valores das crenças e das pesquisas dos mestres e profetas, Ele predomina e domina, sustém e encaminha os objetivos do quanto cabe no espaço infinito da Ciência, e aqui nos vemos a meios com descobertas de Deus, esta supraconsciência orientadora dos destinos. O conceito do equilíbrio fala nEle, porquanto está acima do bem e do mal das decisões dos homens. No centro da Natureza, ali habita o senso de Deus. Houvesse um código que resumisse todos os demais códigos, e ainda assim restaria longo caminho a percorrer até obtenção plena do conceito desse Pai supremo e criador eterno.

No entanto perpassa tudo, que crianças conhecem na inocência e a inteligência material sofisticada ignora por soberba. Um valor acima de tudo e de todos. Um instrumento que vive no íntimo das criaturas e os humanos podem conhecer na leveza da Fé e na Humildade, únicos motivos de existir e crescer em verdade e justiça. As religiões sinceras, pois, são setas que bem indicam os sentidos que mostram a presença de Deus. 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Episódio espírita

Nos primórdios do espiritismo kardecista na região do Cariri, os simpatizantes da doutrina realizavam suas reuniões nas próprias casas, onde se encontravam  ocasionalmente, isto em Crato e Juazeiro do Norte, segundo soubemos. Eram as décadas de 40, 50 e 60. Inexistiam centros que promovessem com assiduidade as reuniões. 

Na década de 60, em Juazeiro do Norte, nas proximidades do Rio Salgadinho, funcionaria o primeiro dos centros espíritas caririenses pela iniciativa de Seu Luiz de França, de tradicional família da cidade. Organizaria as atividades evangélicas, doutrinárias, de desenvolvimento mediúnico e de desobsessão, a oferecer meios da divulgação da novel crença, somando forças ao movimento que hoje dispõem de cifra considerável de casas espíritas nas várias comunas regionais.

Naquela fase, Seu Luiz trabalhava com vários médiuns, aos quais desenvolvia e dava chance de servir à causa redentora através dos trabalhos que promovia naquele que fora o primeiro dos centros espíritas do Cariri. Dentre esses médiuns alguém que depois tornar-se-ia trabalhadora da Associação Espírita Allan Kardec, em Crato, na qual exercemos a Presidência por sete anos, Laís Cardoso, filha de Seu Roldino, comerciante cratense, e estimada amiga minha. 

Nalgum momento, Laís contou esse episódio, que ouvira de Seu Luiz. Ele, que era médium vidente, lá um dia, ao regressar às reuniões da casa espírita, cujo prédio permanecia fechado durante o dia, pela vidência depara entidade espiritual ainda dentro do recinto, inclusive a demonstrar sinais de aborrecimento, e que foi dizendo ao vê-lo:

- Sim, senhor. O senhor além de me trazer aqui contra a minha vontade, - pois os espíritos necessitados vêm involuntariamente para o tratamento da desobsessão, – ainda vai embora e me deixa trancado todo esse tempo.

O religioso da Terceira Revelação, ao ouvir aquilo, indignado reagiu, querendo logo esclarecer o espírito carente: 

- Ora, só. Deixe de ser ignorante, pois espírito não precisa de portas, janelas ou paredes para sair, que eles, sem esforço algum, vivem libertos da matéria, e podem circular facilmente por entre coisas e objetos, já fora do mundo físico.