quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Esses mundos mecânicos

E no entanto é preciso cantar / Mais que nunca é preciso cantar / É preciso cantar e alegrar a cidade.
                                                                           Vinicius de Moraes

Os livros de ficção, ah, os livros de ficção, livros dos destinos, que tanto falaram nisso, naquele mundo de hoje, quase ninguém admitia que nele fôssemos viver, integrados à máquina do jeito das máquinas, e não do jeito dos homens. E as profecias só agora resolveram acontecer de verdade. No embate da criatura versus o criador, e venceu a criatura. Bom, mas temos de adotar o comportamento das máquinas, a título de sobrevivência. Quer algo melhor? Vamos e venhamos, não existe o acaso, tão só a necessidade. E quando fundamos isto, esse reinado de absurdos, as máquinas, decerto já imperava este princípio no âmago do aço e das correntes contínuas e alternadas. Conhecia antecipadamente os significados secretos daqueles códigos siderais.

O que fazer, então, senão incorporar os princípios da termodinâmica e viver intensamente a ausência de jeito dos habitantes do planeta de subúrbio em que transformamos o Planeta? Aceitar os métodos e manuscritos do Senhor dos Engenhos dos tempos bíblicos logo agora? Afinal as cidades cresceram na proporção geométrica e nós atrofiamos na proporção aritmética. Fabricamos guetos de morar a fim de ganhar o pão sobre rodas. Gastamos a vida e a saúde presos às bólides envidraçadas, dentro do emaranhado das cidades grandes.  Nada de ruim, conquanto ganhemos altura de voar e nos elevar aos sonhos. Consumir combustíveis fósseis, vez nada ser objeto do acaso. Havia de contar, desde os inícios, com o instinto dos elementos de que seríamos escravos sobre rodas e máquinas de propulsão, no sentido de andar mais rápido e chegar à perfeição dos lugares mais distantes. Tudo estava escrito, guardado nas gavetas do Cosmos.


Enquanto isto, um deus vive cativo nos nossos corações. Nas gretas dessas cavernas escuras, onde mora o rei clandestino de Si mesmo. Ouve sozinho, saudoso do futuro, as cascatas da circulação do sangue das ruas e avenidas, e aguarda, lendo nos velhos livros de ficção, o dia de ser libertado afinal. Sabe que não existe a injustiça na Lei. Que uma nação feliz acordará em Paz bem no instante das consciências em festa. 

Um comentário:

  1. Cantar, cantar, cantar... paulinho pedra azul, já dizia...a vida já é tão séria, já temos tantas cobranças, vivemos engessados em uma sociedade de falsa moralidade que nos leva a pegar carona nessa carruagem de fogo, que só nos deixa mais e mais presos a regras que não criamos, mas precisamos cumprir como se fôssemos nós responsáveis por um resultado pífio.

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