domingo, 30 de novembro de 2025

A casa das lembranças


Vivera com meus pais e meus irmãos, meses depois de nossa chegada em Crato, numa casa espaçosa, de dois pavimentos, feita de cimento armando, que creio, inclusive, ser bem dos inícios dessa técnica no interior. Era cheia de cômodos, tanto no térreo quanto no segundo andar, e neste eu dormia numa rede ali próximo de Lourdes, a pessoa que morou com meus pais durante três décadas e meia, que, desde cedo, cuidara de mim. Ela deixava uma quartinha com água de beber nas imediações, pois quase sempre eu acordava sedento no meio das noites e logo me escutava reclamado à espera de sua atenção.

Lembro que, por volta dos oito ou nove anos, lá uma noite despertei de um sonho assustador. Ficaram poucos detalhes do que presenciara, mas a mim significou haver visto cenas do fim dos tempos, ou do fim do mundo, qual diziam vir a ocorrer certa feita no futuro. Em pânico, aos prantos, tratei de pedir auxílio, ao que Lourdes, de imediato, ouviria, vindo em meu socorro querendo me acalmar.

Aquela construção fica situada num terreno amplo, que serviria mais adiante de sede de instituições públicas e hoje é onde funciona uma escola. Era cercada de muros já antigos que praticamente mostravam apenas restos nalguns trechos. Terreno amplo, nele havia nove mangueiras, a maior parte delas manga espada de agradável sabor. De terra descoberta nesse chão, era onde brincávamos, eu e os meninos das cercanias, de quem recordo as presenças e alguns os vejo hoje adultos a circular pela cidade. Mesmo que por vezes desagradasse a meus pais, com eles eu adotava a área para brincar de bola, triângulo, bang-bang, pega-pega, e, nas noites, nos reuníamos do outro lado da rua, a Padre Ibiapina, onde ficava o Abrigo dos Velhos, na calçada, a contar histórias e partilhar assuntos de filmes, futebol, notícias correntes, isto a uma luz precária que durava só até nove da noite, tochas acesas nos postes de madeira que só servia a indicar o percurso das calçadas.

Dali, resistem em minha memória os esses anos que passei de infância  ricas em amizades, comigo a testemunhar, inclusive, a formação, em época equivalente à minha, tais assim que hoje insistem permanecer gravadas dessas muitas ocasiões.

(Ilustração: Estação Ferroviária de Crato (foto antiga).

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