Vivera com meus pais e meus irmãos, meses depois de nossa chegada em Crato, numa casa espaçosa, de dois pavimentos, feita de cimento armando, que creio, inclusive, ser bem dos inícios dessa técnica no interior. Era cheia de cômodos, tanto no térreo quanto no segundo andar, e neste eu dormia numa rede ali próximo de Lourdes, a pessoa que morou com meus pais durante três décadas e meia, que, desde cedo, cuidara de mim. Ela deixava uma quartinha com água de beber nas imediações, pois quase sempre eu acordava sedento no meio das noites e logo me escutava reclamado à espera de sua atenção.
Lembro que, por volta dos oito ou nove anos, lá uma noite
despertei de um sonho assustador. Ficaram poucos detalhes do que presenciara,
mas a mim significou haver visto cenas do fim dos tempos, ou do fim do mundo,
qual diziam vir a ocorrer certa feita no futuro. Em pânico, aos prantos, tratei
de pedir auxílio, ao que Lourdes, de imediato, ouviria, vindo em meu socorro
querendo me acalmar.
Aquela construção fica situada num terreno amplo, que serviria
mais adiante de sede de instituições públicas e hoje é onde funciona uma
escola. Era cercada de muros já antigos que praticamente mostravam apenas
restos nalguns trechos. Terreno amplo, nele havia nove mangueiras, a maior
parte delas manga espada de agradável sabor. De terra descoberta nesse chão,
era onde brincávamos, eu e os meninos das cercanias, de quem recordo as
presenças e alguns os vejo hoje adultos a circular pela cidade. Mesmo que por
vezes desagradasse a meus pais, com eles eu adotava a área para brincar de
bola, triângulo, bang-bang, pega-pega, e, nas noites, nos
reuníamos do outro lado da rua, a Padre Ibiapina, onde ficava o Abrigo dos Velhos,
na calçada, a contar histórias e partilhar assuntos de filmes, futebol, notícias
correntes, isto a uma luz precária que durava só até nove da noite, tochas acesas
nos postes de madeira que só servia a indicar o percurso das calçadas.
Dali, resistem em minha memória os esses anos que passei de
infância ricas em amizades, comigo a testemunhar,
inclusive, a formação, em época equivalente à minha, tais assim que hoje
insistem permanecer gravadas dessas muitas ocasiões.
(Ilustração: Estação Ferroviária de Crato (foto antiga).
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