sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Almas penadas

 


Desde que me entendo de gente ouço contar dessas visagens que aparecem e somem mundo afora. Isso ainda lá no sítio donde venho, e de lá principalmente, pois ali guardavam as lembranças da bisavó de meu pai, Dona Fideralina, que morara na casa grande. Falavam de haver deixado um baú contendo quinquilharias, joias e moedas, ao que davam o nome de botija. E nisto, vez em quando narravam de suas aparições querendo entregar o tesouro encantado a quem aguentasse escutar os detalhes da sua localização. Era um Deus no acuda. Vinha gente de longe na busca do tal rescaldo, porém apertasse o cerco das visões e corriam de volta alucinados.

Outras histórias dessas viraram filmes de causar espanto, numa preferência quase generalizada de público. Isso a falar das tais aparições, de comum nos locais de ocorrências trágicas ou entre as covas dos que se foram. Estudos existem dessa realidade dos que regressam vez ou outra, sobremodo narrando existências comprometidas com injustiças praticadas, dívidas contraídas, equívocos e desgastes de quando aqui viveram. Nisso, de jeito nenhum proponho a considerar as ditas ocorrências apenas casos fortuitos da imaginação do vulgo. Pelo contrário, já distingo com relativa facilidade os princípios universais das leis a bem dizer definitivas das verdades perenes. De que se vive tão só uma fase precária neste chão; e daqui virá o que, decerto, equivale ao prisma da Eternidade no balanço dos dias.

Assim, novos padrões se nos apresentam à medida que esta matéria, desfeita no tempo, reencontra os frutos das suas ações quando da carne e defronta o senso da continuidade. Vêm daí os fenômenos ditos mediúnicos, transcendentais, fantásticos, a preencher o calendário das tradições e acrescentar tantas histórias de aparições inesperadas, sustos e medo, ao refrão das literaturas e películas. Isto uma pauta rica de lendas e contos largados pelas culturas adiante.


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