Eles passavam o tempo no eito. De madrugada, saíam do barraco e só de manhã chegariam no lugar do trabalho.
Naquele dia, deixaram de molho umas espigas de milho para quando, no fim da tarde, voltassem. Durante a noite, na véspera, haviam cozinhado jabuti caçado no caminho. Ficara, pois, mais ou menos encaminhado o comer de quando regressassem.
À tardinha, isto aconteceu. Manu ralou o milho e pôs em fogo brando na cuscuzeira.

Lá pelas tantas da noite, Manu acordou ouvindo gemido forte e repetido. O colega emitia sons esquisitos dentro do mosquiteiro, na rede. Gemia de fazer dó.
Horas se passavam e nada de o homem respirar melhor, nem falava; mal gemer conseguia. Desaparecera o espaço de entrar ar nos pulmões. Empachado, se via, na luz escura do candeeiro, o bucho do homem que subia e descia, mais parecendo prestes a estourar.
Ele, naquela aflição enquanto Manu, que na época começara a fumar e carregava fumo brabo numa bolsa de seringa, o chame da moda, dispunha de pedaço enorme de fumo de rolo. Vendo a situação do parceiro, lembrou de certa história que seu pai lhe contara, e perguntou:
- Galvão, se eu fizer um remédio, tu bebe? – acrescentando: - Só vou fazer se você beber. Se não, eu também não faço, não.
- Faça – ouviu resposta sair das entranhas do homem quase moribundo, lá longe da civilização.
- Vou fazer chá de fumo – disse. Foi ao interior do barraco e reativou o fogo. Era algo em torno de uma hora da madrugada. Desfiou algumas peias de fumo e botou na chaleira em boa quantidade d’água. A beberagem log fervia. Ferveu bem. Pronta, com ela encheu até a risca um copo desses maiores e estendeu ao doente dizendo:
-
Agora beba sem tomar fôlego ou querer saber o gosto. Daqui a dez minutos vem o resultado – porém já sabia que demorava menos.
Era sua única chance de sobreviver. O mateiro se achava nas últimas e engoliu o cozimento do jeito que pode. Nem procurou tomar fôlego.
Ao bateu no estômago, a reação viria rápido, que embriagou na hora; demorou nada além de dois minutos. Não deu dele sair da rede. Bateu dentro e desonerou o estômago. Tanto vomitava, quanto defecava a um só tempo. Poucos instantes do movimento, a barriga murchou qual houvesse passado três dias sem comer nada.
Na manhã seguinte, Manu iria longe buscar alimento mais fino, manteiga, queijo, coisa assim, no trato do paciente. Eis o recurso da cura que, na noite longínqua, dispunha a gente heróica nos seringais da Amazônia.
(Episódio ouvido de Manoel Ferreira da Silva - Manu).
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