segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Instantâneos


De longe, lá de dentro das distâncias, regressam recordações trazidas dalgum modo através de músicas, pessoas, pensamentos. Chegam assim ao seu jeito, vezes, fortes; doutras, só vislumbres que se dispersam com facilidade. Dali, chegam os ídolos daqueles reinados que antes foram. Eles, que sumiram nas quebradas do Tempo e retornam meio desconfiados, já agora noutras fases, noutras aventuras, a saber viventes doutros planos. Mas invadem com força os largos dos sentimentos e mexem a valer naquelas ocasiões escondidas nalgum lugar das consciências.

São poetas, romancistas, cronistas, compositores, autores vários das recônditas lembranças ali entranhadas na memória, que sustentam vivamente as horas das tantas vezes antigas, das noitadas, das manhãs ensolaradas, afetos intensos, alegrias, esperanças, notícias, um enxame poderoso de verdades acumuladas nesse farnel de anonimato, postas ao claro nas suas revivências.

Nisto, as fases da infância, das recentes descobertas daqueles mínimos detalhes que persistiram nesse filão eterno de depois e depois. Objetos encantados, falas, narrativas, roupas, até os acidentes de percurso das situações adversas, desencontros, saudades, despedidas, algo que tanto fixou nas mesmas entranhas das almas a eternidade de um tudo. As primeiras fotografias, que chamavam de instantâneos perenizavam essas circunstâncias várias pelos álbuns guardados desde sempre. Viagens de si no âmbito dos acontecimentos fortuitos do passado. Imortalizar. Fixar nalgum monumento essas verdades que fizerem de nós estar aqui e deitaram alicerces do íntimo de agora.

Hoje vejo, sem previsão, sem medida, isso acontecer num roteiro imprevisto de filmes vários nascidos de conviver comigo na maior sem cerimônia, feitas criaturas, momentos, cores, cenas, sequências, películas sem par que acharam a oportunidade do transe inesperado nas telas da individualidade. Nisto, por mais desejos de reunir resquícios em coleções, já os somos todos, arquivos das humanas presenças jamais desaparecidas que nos sustentam a consistir de ser e permanecer durante o Infinito, pigmentos de imagens definitivas que constituem o que há e haverá no transcorrer das existências.

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