domingo, 30 de novembro de 2025

A casa das lembranças


Vivera com meus pais e meus irmãos, meses depois de nossa chegada em Crato, numa casa espaçosa, de dois pavimentos, feita de cimento armando, que creio, inclusive, ser bem dos inícios dessa técnica no interior. Era cheia de cômodos, tanto no térreo quanto no segundo andar, e neste eu dormia numa rede ali próximo de Lourdes, a pessoa que morou com meus pais durante três décadas e meia, que, desde cedo, cuidara de mim. Ela deixava uma quartinha com água de beber nas imediações, pois quase sempre eu acordava sedento no meio das noites e logo me escutava reclamado à espera de sua atenção.

Lembro que, por volta dos oito ou nove anos, lá uma noite despertei de um sonho assustador. Ficaram poucos detalhes do que presenciara, mas a mim significou haver visto cenas do fim dos tempos, ou do fim do mundo, qual diziam vir a ocorrer certa feita no futuro. Em pânico, aos prantos, tratei de pedir auxílio, ao que Lourdes, de imediato, ouviria, vindo em meu socorro querendo me acalmar.

Aquela construção fica situada num terreno amplo, que serviria mais adiante de sede de instituições públicas e hoje é onde funciona uma escola. Era cercada de muros já antigos que praticamente mostravam apenas restos nalguns trechos. Terreno amplo, nele havia nove mangueiras, a maior parte delas manga espada de agradável sabor. De terra descoberta nesse chão, era onde brincávamos, eu e os meninos das cercanias, de quem recordo as presenças e alguns os vejo hoje adultos a circular pela cidade. Mesmo que por vezes desagradasse a meus pais, com eles eu adotava a área para brincar de bola, triângulo, bang-bang, pega-pega, e, nas noites, nos reuníamos do outro lado da rua, a Padre Ibiapina, onde ficava o Abrigo dos Velhos, na calçada, a contar histórias e partilhar assuntos de filmes, futebol, notícias correntes, isto a uma luz precária que durava só até nove da noite, tochas acesas nos postes de madeira que só servia a indicar o percurso das calçadas.

Dali, resistem em minha memória os esses anos que passei de infância  ricas em amizades, comigo a testemunhar, inclusive, a formação, em época equivalente à minha, tais assim que hoje insistem permanecer gravadas dessas muitas ocasiões.

(Ilustração: Estação Ferroviária de Crato (foto antiga).

sábado, 29 de novembro de 2025

Seres magnéticos


Qual o que se transporta em fase de experimentação, talvez uma máquina sob teste, seres de que somos feitos, montagem própria de viver e ser criatura hora dessas. Conhecer, antes de tudo a si. Aprimorar. Aprimorar-se. Espécie de modelos às mãos desses que somos, vagar. Vivências. Ausências. Descobertas, a todo tempo. Nisto, as mil tudo, no entanto. Horas em movimento pelas quadras abertas do firmamento. Daí, o que passou permanece conosco tal listras gravadas no lombo da consciência, conquanto lembranças sejam a perder de vista. Longos trechos de obras raras, inacabadas. Saudades profundas até de saudades ainda mais que elas sejam. Aprendizados logo depois esquecidos, e lembrados de esquecidos que haviam sido antes. Pavios de chamas inapagáveis lá de dentro dos hemisférios, que reacendem noites a fio, na medida disso, a trazer emissários que falem, lembrem, reavivem. Rescaldos de transes vindos de fora, nas impressões que significaram outras histórias doutras pessoas. Conquanto solitários, seremos sempre muitos a vagar pelos dramas coletivos nas questões a resolver, pedidos aos deuses, vontade insistente de ver a perfeição de tudo quanto há nalgum momento dalgum romance, dalgum filme, dalguma canção inesquecível. Sombras que vêm e transcrevem o percurso das semelhanças em cada um, textos provisórios da imaginação a ferver nesses universos particulares em movimento na ânsia de narrar pedaços deixados pelos caminhos na forma de larga solidão. Todavia chegam as falas, o trilho dos relacionamentos, pórticos dos termos raros a fervilhar no coro dos contentes, enquanto durarem os esteios desses monumentos ali gravados em sonhos impossíveis. Disto, de seguidas estações, de luas e versos, a multidão arrasta seus desejos provisórios e sobrevive ao furor das vezes quando aqui já esteve. Prudentes senhores das tantas escrituras, alimentam a fome de continuar, ainda que na busca insana de revelar o lado aonde irá permanecer de vez nas abas do Infinito. Eles, frutos da imensidão, palmilham de vozes desconhecidas os caminhos dessa jornada, razão essencial do quanto existe e aos poucos distingue nos demais o senso da compreensão absoluta, a todo instante.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Mistérios da inexistência


Aos olhos dos outros em nós nada existe, a não ser o vazio do absoluto. Portões imensos das ausências, bem ali se acham, frente e verso de países até então desconhecidos, dali donde vêm as certezas doutros pareceres, doutras visões, novas estradas. Em si, isto de saber nas folhas do Tempo e nem de longe haver significado a quem quer que fosse, porém. Uns que transcrevem de próprio punho as certezas que os trazem no sentimento, porém envoltas nas luzes de firmamentos só imaginários. Essa distância do Infinito que circula as criaturas as transformando em meras incidências de contos desfeitos e surreais. Nessa significação, os dias passam e com eles as pessoas que aqui estiveram dotadas dos mesmos instrumentos limitados a si somente.

E qual monges nesses invólucros estáticos, postos ao léu das sortes, vezes sem conta nisto ocorrem, pondo-os ao largo da imensidão e das luzes da esperança.

Múltiplas legendas de condes e barões, soberanos e nobres, definição verdadeira daquilo antes posto nos planos definitivos do que ora existe ser-se-iam apenas tijolos dessas construções enigmáticas, deles as pessoas que dominam os instantes e depois sucumbem ao vento das manhãs. Figurantes dos séculos, deslizam pelos desejos em volta e amarguram os sórdidos empenhos de pronto abandonados. Tantos autores e nenhum personagem. Histórias destarte feitas de meras visões do impossível.

Descritas, portanto, as crostas dos sonhos, eles elaboram qualquer noite impávidos artefatos de transformação dos seres e das espécies. Circunstâncias repetitivas, esses antigos personagens superpõem suas ideias nalgumas situações dagora, feitas de valores lá antigos. Saber ser que isto, no entanto cercados de limites que os detém sob o manto da dominação de senhores mais além. Talvez destes motivos é que venham as novas possibilidades inscritas nos códigos do mistério.

Diante de tais contingências, o mundo persiste continuar nos seres siderais de hoje nos recantos ignotos, barcos exangues de histórias nascidas nas fronteiras de quais criaturas a enfrentar o imaginário, fazendo delas o princípio universal de tudo quanto haverá de ser tempo destes.

Almas penadas

 


Desde que me entendo de gente ouço contar dessas visagens que aparecem e somem mundo afora. Isso ainda lá no sítio donde venho, e de lá principalmente, pois ali guardavam as lembranças da bisavó de meu pai, Dona Fideralina, que morara na casa grande. Falavam de haver deixado um baú contendo quinquilharias, joias e moedas, ao que davam o nome de botija. E nisto, vez em quando narravam de suas aparições querendo entregar o tesouro encantado a quem aguentasse escutar os detalhes da sua localização. Era um Deus no acuda. Vinha gente de longe na busca do tal rescaldo, porém apertasse o cerco das visões e corriam de volta alucinados.

Outras histórias dessas viraram filmes de causar espanto, numa preferência quase generalizada de público. Isso a falar das tais aparições, de comum nos locais de ocorrências trágicas ou entre as covas dos que se foram. Estudos existem dessa realidade dos que regressam vez ou outra, sobremodo narrando existências comprometidas com injustiças praticadas, dívidas contraídas, equívocos e desgastes de quando aqui viveram. Nisso, de jeito nenhum proponho a considerar as ditas ocorrências apenas casos fortuitos da imaginação do vulgo. Pelo contrário, já distingo com relativa facilidade os princípios universais das leis a bem dizer definitivas das verdades perenes. De que se vive tão só uma fase precária neste chão; e daqui virá o que, decerto, equivale ao prisma da Eternidade no balanço dos dias.

Assim, novos padrões se nos apresentam à medida que esta matéria, desfeita no tempo, reencontra os frutos das suas ações quando da carne e defronta o senso da continuidade. Vêm daí os fenômenos ditos mediúnicos, transcendentais, fantásticos, a preencher o calendário das tradições e acrescentar tantas histórias de aparições inesperadas, sustos e medo, ao refrão das literaturas e películas. Isto uma pauta rica de lendas e contos largados pelas culturas adiante.


quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Visões do Infinito


Desde sempre aceitar os destinos. Viver qual seja mero instinto de sobreviver. Indagações hão de se acumular no horizonte. Nisto, a percepção do quanto existe no auge das dúvidas. Quantas afirmações sucedem diante das portas do Paraíso. Às vezes sonhos; doutras pura imaginação. Porém força descomunal que arrasta os momentos pelos corredores do Tempo. Sem outra alternativa, se não ouvir o silêncio e sustentar o barco do mistério às próprias mãos. Olhar dentro de si e conhecer paredes incontáveis do labirinto da presença. Histórias de tantos filmes, enredo de quantos romances, trilho suave dos acontecimentos à cata do real motivo da compreensão. Crer puro e simples das religiões. Os códigos secretos das guerras. Lendas indomáveis das tribos. Blocos inatingíveis de longas noites ao furor dessas hipóteses que andam soltas no ar. Mínimos conceitos de toda filosofia, enquanto perpassam dimensões imaginárias. Lustres de cômodos antigos nas residências mal-assombradas. Ruas, becos, pousos fictícios de seres apáticos. Luas. Céus abertos. Cores doutros espaços perdidos nas horas. Daí, as lembranças insistentes dos dramas de consciência a invadir o prisma das razões. Esse universo de dentro das criaturas na forma de hipóteses apenas descritas, depois desfeitas. O desejo insano de compreender, pois, as lições incompreensíveis. Vastidão arrevesada no teor das existências. As músicas, falas de tenores invisíveis pela crosta dos acontecimentos. Páginas escondidas no âmbito dessas suposições, no entanto cercadas tão só de véus e nuvens. Talvez cheguem até as distâncias impossíveis, mesmo assim construídas entre as ruínas dos séculos vindouros. Normas, criaturas e definições face a face com o inevitável. Artefatos doutros materiais que não humanos. Marcas deixados nos leitos abandonados, quiçá feitos de sobras largadas ao vento. Nisso, este sacrossanto fervor das derradeiras lembranças trazidas lá do Paraíso. Ser a considerar protagonista de mitos desfeitos em monumentos, destarte encontra na essência o fruto das sementes que lhes trouxeram neste lugar.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

O senso da procura


Vê-se nos olhos e no desenho das estruturas o mesmo instinto de preservação na espécie desde os primeiros tempos. Nisto, na vontade sempre válida de achar o coração sob as tantas capas do mistério, revoluteam outras possibilidades até o princípio definito do quanto nos trouxe aqui. Esses são os mesmos postulantes das versões anteriores, nesta hora definitiva.

Nem que distantes, haver-se-á de reconhecer, nas encostas do destino, as primeiras vezes de quando quiseram usufruir de lembranças boas e transformar tudo isto nas notícias de salvação que preencham noites e clareiam dias. Sobreviver a si diante da Eternidade; viver tal e qual nas primeiras consciências do princípio, ao fervor de nada e dos sonhos. Sustentar séculos sem fim nas abas dos determinismos. Isso de ofertar, nos altares de sacrifício, a chama de uma nova emoção nascida para sempre, qual seja, desde então fruto de uma só ansiedade, ser feliz.

Perpassam tais alumbramentos conceitos vários, presentes na história dos avatares, das doutrinas e visões de nova humanidade em formação no âmbito das virtudes e ciências, profecias, e transformação do que se seja agora em novos seres afeitos aos páramos do Infinito. Essa busca por demais que invade literaturas, escrituras e papiros, que signifiquem transição a nível de valores quiçá ora esquecidos, largados que foram ao limbo das indefinições de quantos séculos.

Aspectos outros, contudo, pairam no sobrevoo das epopeias espirituais, nos credos, nas litanias, escolhendo horas várias de transitar pelas presenças e mantê-las atuais nos significados e nas dores de hoje.

Mas que sejam, no entanto, herança da própria existência, dada a perfeição do que lhes domina e segue de vez as consequências, razão inevitável dos momentos que inscreveram nas vidas e permanece durante milhões de instituições que agora somem nas entranhas e nos diários.

Numa visão mais abrangente


Há jeitos os mais diversos em abordar quanto seja o quanto existiu durante todo tempo, desde viagens interiores a mergulhos na profundidade dos momentos a compor o Infinito. Pensamentos assim permitem. Circular os instantes e decodificar nas palavras, o passado e o que imaginar-se-á que vem depois, na sequência dos acontecimentos. Painel perpendicular de pessoas e objetos numa agitação inigualável de um a outro dos viventes nos trâmites da Natureza.

Isso posto, daí o quadro multiforme dos tempos e das ideias em movimento no crivo das histórias em voga. Além de tudo, as avaliações pessoais dos meandros, das cores e formas. Estampas voluteiam pelas consciências, fazendo-as fios abstratos daquilo que deixam circular nas recordações, horas a fio, das lendas pessoais, dos espaços preenchidos de tantas vezes dos que aqui viveram e refazem a repetir de si para consigo sequências inteiras do que resta e lembram.

Vastidão colossal desses tais segredos individuais compõe o teto das procuras dos humanos na dita Civilização, seus mitos, suas lendas, acumulados no âmbito da procura ferrenha. Daí, nascem as falas, depois os códigos escritos, as visões interiores, métodos, fugas, percalços, ciências, aventuras, instintos de dominação, fome de tocar adiante, quais sejam as peças insistentes das condições de mundos tantos largados no Universo.

À frente, o lago imenso da dúvida, das ficções, artes que preconizam esse contato dos componentes de presenças sem igual, a denominaram de realidade. Face a face no tempo que lhes percorre, autores de si, testemunhas da liberdade relativa que os alimenta, circulam pelas frestas e ocasiões feitos seres até então só à busca de certezas plenas, porém herdeiros de vontades e lampejos, olhos fitos nalguma possibilidade e outras dimensões.

Dali chegaram nos milênios, ainda a saber de onde vinham, as presenças que agora resultam nisto que estabelecem de conceitos, e criam resultados ao sabor da própria sorte lá de dentro, contudo meras tentativas de perfeição que lhes impulsionam a chegar tal tempo ao desconhecido aonde já ali estejam.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Nas miragens do silêncio


As cenas sucessivas nisso envolvem de sons e letras, a todo momento, o território do anonimato. Dalgum extremo vem tal desejo insistente de pensar, reunir estilhaços de pensamentos e fazer deles pequenos laços de fugir da si mesmo a todo tempo. Esse alvoroço significa o movimento dos astros através das criaturas. A custo, jamais silenciam, e se deixam arrastar no caudal das horas feitos explicação dalgo, dalgum motivo de estar aqui e observar os outros. Rumores de existências, quiçá possa dizer que sejam, pois, entes sucumbem ao mar das incertezas em forma de luzes que logo apagam no íntimo e reacendem às primeiras oportunidades.

Querem ser isto a qualquer ocasião, desde que o vácuo não lhes devore e tenham de interromper os pretextos de andar no limbo de suas histórias e deixar rastros pelo solo pegajoso das visões. Transitar desertos, solidão, lugares, gente, lembranças, fome exacerbada de compreender causas e consequências de haver chegado e nalguma vez sumir até onde ninguém afirma com absoluta segurança quando será. Mas que ora existam disso alimentam certeza por demais e dividem no âmbito das virtudes alguns novos sinais de seja assim, de continuar a outros universos até se saber quando e onde, decerto.

Seguem que tanto, na tela imensa dos próprios acontecimentos nascidos lá de dentro desses aspectos que representam, submissos, entretanto, aos ditames dessas figurações na forma de palavras e gestos que enchem o mundo em volta. Imagens altivas de narrar os panoramas que contemplam, preenchem os semelhantes de iguais interrogações. Nisto, mesmo sob o crivo das imaginações férteis, relutam contestar ao que executam, senhores absolutos de uma razão em queda livre face dos abismos inesgotáveis da ausência que os aguarda.  

Bem significativas as presenças dos tais viventes nos infinitos espaços de horas a fio. Marcas profundas do mistério sem conta, arquitetam os dias vindouros, enchendo-os de novas histórias a que se propõem narrar e produzir com firmeza sob a mesma relatividade de tudo, afinal. Películas inesgotáveis de paisagens, quais nuvens que aparecem e somem, ilustram as páginas dos céus de sonhos infinitos enquanto adormecem no afã de continuar dias e dias adiante.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

O espelho circular


Qual quem deixa de lado seu ser e aceita de bom grado admitir outros sentidos ao que agora esteja vivendo, assim são os aborígenes desses tempos desde então. Vislumbram de tudo, sobrevivem aos dias apressados e, tais habitantes de vales enigmáticos de tantos equipamentos, visores e pedais, continuam nesse mar sem conta que espalham noutros firmamentos imaginários adrede criados deles próprios. Ter de usufruir até o que pouco significa, porém por demais necessário às linguagens em feiras espalhadas no horizonte e nos objetos em volta, eles ali exercitam-se nas peças automáticas de visões entontecidas, sujeitos de sortes pré-fabricadas nas oficinas dos porões da consciência que transportam impérios sem limite.

Antes criaram o senso da procura dos talvez e dos pressentimentos, normas que foram ocultas nas películas e nos livros conservados a esse dito panorama. Depois, quiseram insistir nas longas noites de um passado remoto, lá de quando vestiam túnicas esquisitas e viajavam pelas estrelas, habitando universos paralelos a qualquer custo. Dormiam assim feitos figurantes de si mesmos, sós, assustados, discretos protagonistas de histórias nunca escutadas ou vistas. Com isto, resolveram agora desfilar, em praças e ruas, os feitos de todos segmentos, meros joguetes das sombras deles criadas nas lembranças mais antigas. Daí, multiplicaram monumentos, sepulturas, ruínas, e transitam feitos visagens pelas telas dos velhos equipamentos fabricados do que restou daquele período insano. Ausentes, pois, de alguns séculos, regressam nas memórias dos outros, enfurecidos e austeros. Sabem quase nada, todavia, daquilo que foram nos inícios, e padecem com isso angústias e desatinos, argumentos das suas aventuras constantes jamais deixadas de lado.

Questões exacerbadas dos desejos que os mantêm, saboreiam dos minutos a velocidade crepuscular nos nítidos sinais doutros temas largados nas calçadas enquanto aqui continham a fúria de viver, transformados em novos heróis, à cata de novas conquistas siderais. Esses aparentes intérpretes daqueles argumentos ora trazidos à baila querem, grosso modo, respirar novos augúrios, e aceitam de bom grado observar a pauta dos destinos ao penhor de existir com esta finalidade.

(Ilustração: Alfons Mucha).

domingo, 23 de novembro de 2025

Razão e sensibilidade


Nalguns momentos, vêm e somem logo em seguida este senso do invisível nas culturas e sociedades. Enchem mil comportas de pensamentos bem elaborados, no entanto soltos quais folhas que voam ao vento das ausências, restos e repastos do que antes fora, contudo. Esforço das tantas funções, são, a bem dizer, máquinas perfeitas de pensar, imaginar, dizer, porém, nas justas jornadas, trazidas em sonhos de volta às fogueiras findas no correr das horas.

Daí as quantas meras aventuras de compreender espalhadas no firmamento das gerações, revistas e guardadas pelos que vieram depois, até então no tempo das eras, compêndios acumulados em bibliotecas imensas. Com isto, há limites inevitáveis de querer contar e aprender das histórias momentâneas trazidas pelos séculos. Face a tanto, nasceram as ideias, os monumentos, as máquinas, cidades, construções geniais de um chão quase perpétuo. No entanto, aonde irão exercer os papéis da perfeição a não ser através das mesmas criaturas que hoje sabem de tudo, talvez?!...

Viver o que pensam, imaginam, requer, por isso, esforço soberano de subjetividade, o que os textos carecem de poder dominar. Existem, nisto, as individualidades, único lugar disso acontecer. Vez em quando um desgarra das tais teses e exercitam os roteiros ali previstos em tão inspirada exatidão. Haver-se-ia de ser desse modo, conquanto as técnicas e os calendários carecem de demonstrar na realidade o senso de conhecer que eles acumulam. No Amor, portanto, na consciência de si, de lá que advêm os sentidos desde há tanto aguardado nas esquinas deste mundo.

Viver, vivenciar, o que resta de acontecer às criaturas pensantes, agora sensíveis ao poder de contar e transmitir exaustivamente. Algo de razão maior do que a simples razão de fazer disso os pensamentos que ora circulam nesse universo dos seres inteligentes da Criação que vemos a valer. Além das considerações eventuais, importa agora interiorizar e usufruir de perto aquilo de tanto tempo que sobrevoa os destinos e as mentalidades. Conhecer no íntimo os princípios e as oportunidades vindas ali no coração, e assim saborear o quanto, desde tanto, se soube apanágio de longos passados, afinal a hora existe na essência de cada Ser a que isto aconteça.

sábado, 22 de novembro de 2025

As certezas da sorte


Qual quem faz jogos de uma grande loteria a céu aberto, assim vagam soltos nos ares os humanos. Supõem e jogam ao sabor dos ventos, ao afã de continuar vivos no decorrer das existências, quem sabe? Viajam, pois, entre si, instrumentos de uma imensa festa, a sós, submissos aos desvãos dessas paredes que têm os labirintos abandonados. Afeitos diante dos julgamentos sucessivos dos outros, padecem do senso crítico a que são passíveis, vilões a meio dos santos libertos. Desfazem planos, reconquistam empreendimentos e suportam sobreviver nas fases constantes de seriados intermináveis.

Tais heróis de si próprio, vadeiam impávidos pelos corredores acesos dos transes à toa dessa gente. Usufruem, vezes sem conta, das consequências e das horas, intrépidos, galantes, sórdidos, mordazes, mesmo assim peças inevitáveis de um quebra-cabeças monumental das circunstâncias. Disso, trazem no íntimo da pureza os heróis e o vigor das aventuras errantes. Com isto, sustentam a memória de todos acontecimentos da raça inteira e aceitam o crivo dos destinos, espécie de seres que moram nas profundezas de tudo quanto houve desde sempre.

Naus sem rumo, mantêm na boca o gosto amargo das verdades eternas, e nisto preenchem os horizontes com as raízes de tantas luzes e roteiro dos gestos a que ora se veem submetidos. Intérpretes de quantos romances, rumores de todo diálogo, ainda entoam cânticos das cavernas às escuras dos firmamentos. Sonham além do que houvesse, e desfazem no amor suas maiores contradições trazidas no bojo dessas naves que os conduzem até hoje, vindos de lugares então desconhecidos deles e dos demais.

Porquanto pudessem narrar quantas histórias dos passados mais distantes, e seguir-se-iam afeitos tão unicamente ao claro dos sóis e esconder-se-iam em tradições deixadas ao relento nas fagulhas da outras lendas. Este o perfil dos antigos moradores de um território imaginário inscrito nas paredes desse chão de consciências, valores sacrossantos dos séculos esquecidos.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Cantar é com os pássaros


Bom, diante de tudo que esteja escrito nalgum lugar, ser-se-á, sem sombras e dúvidas, as mesmas artimanhas do Destino em movimento. Face a face consigo só, eis a trama inigualável diante do que haver-se-á de responder aos berros da imensidão que carregam no peito aonde quiser ir. Contrastes de si aos olhos dos sentidos e do mundo em volta, usufruem da grandeza quais pergaminhos lá de outras histórias, talvez, e seguem aqui grudados na crosta do mistério feitos sargaços e trâmites que deslizam nas praias da Eternidade e somem aos hálitos do mundo em submissão.

Vistos assim, de tão simples que sejam tais protagonistas, eles vertem seus fervores das tantas luas que, de longe, as contemplam interrogativos e dormem logo depois firmes, impávidos, nas versões correntes dos credos. Uns aos outros, pelas longas estradas disso tudo ao único movimento das estrelas. Fôssemos compreender a quantos segredos e esqueceríamos de vez a que viemos nesse palco vasto do definito, numa outra e única direção...

Daí, os roteiros iguais a continuar, passos sem fim, no que distantes aconteciam e hoje prosseguem montanhas a fim, paisagens inesquecíveis de muitos céus, vales inteiros de lucidez, langor, felicidade, logo ali desfeitos nos fiapos dos seres escondidos nas capas do Infinito. Há de escutar benditos, litanias, teses, em seguida sufrágios dos antigos habitantes desse meio enigmático. Períodos e frases transcritos na pele de madrugadas imensas, contidos na consciência de todos, significam isto o desenho das gerações e dos milênios.

Conquanto sejam autores das próprias percepções, no entorno do rio profundo das almas daí nascerá o sentido, livre e soberano, daquilo que desde antes haveria de ter sido. Repastos de missões a bem dizer impossíveis de cumprir, no entanto vêm testemunhas das vidas que os transportam a paragens quão reais lhes impulsionam, pois.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Marcas do Infinito


Existir, houvesse onde e quando. Bem aqui, à borda do abismo. Nisto, nas ondas inegáveis da existência. No íntimo do que se seja, criaturas e o senso da procura. Quadros por demais de tudo quanto há, enfim. Mecanismos incontidos, seguem os turnos, as vidas, movimento constante das histórias e dos dias. Nesse afã, o trazer das interrogações. Quanta vastidão e os números, as individualidades a percorrer casas impossíveis então de uma compreensão absoluta. Ser-se-ia, nisso, testemunhas da imensidão aos próprios pés e visões.

Enquanto isto, aqui narrar dos eclipses e das flores, espalhados pelo espaço imperscrutável dos acontecimentos em tudo. Luzes, escuridão e cicatrizes do inesperado a envolver o quanto há desde sempre, nem se sabe quando. Esse vazio a ser preenchido lá certa feita, ao sabor dos segredos multicoloridos das eras e das artes, em um firmamento enigmático. Neste afã de interpretar os destinos seguem comboios de gerações inteiras, tangidas pelo Tempo.

São fases quais sejam de avaliar a que vieram, silenciosos, solenes, cheio do vigor original, à busca do itinerário a viver sob o manto das determinações que os animam, no penhor das circunstâncias várias. E na ânsia de continuar, acalma em si o crivo das determinações, horas a fio, navegantes audazes do mistério silencioso. Daí, conquanto as palavras insistam dizer, resta tão só o aspecto definito de tudo, enquanto. Sustentam a faina de alimentar as aventuras e dormem consigo próprios no limbo deste universo ilimitado.

Bom, os raciocínios sobrevivem disso, à força propulsora da dúvida e de respostas raras, sempre no íntimo das criaturas, solitárias viajantes das estrelas, na fleuma de tocar adiante, custe os turnos e as distâncias, vidas soltas ao fervor das existências. Olhos absortos na presença dos infinitos em volta, pequeninos seres apenas sonham lá um momento de ver abertas as portas definitivas do coração e conhecer a essência que os traz consigo até este Chão.

Agostinho Balmes Odício

Ele nasceu em 01 de maio de 1882, em Turim, na Itália, à Via Carena n°. 8, filho de Pedro Odísio e Maria Balmes Odísio. Desde cedo demonstrou tendências artísticas, tendo participado de uma banda de música aos 17 anos, e escreveu peças de ópera, apresentando-as em sua terra natal. Dedicou-se à escultura através de arte sacra em igrejas, praças, cemitérios, e fazendo estátuas, medalhões, bustos e esculturas de personalidades ilustres, inclusive um busto de Vitorio Emanuelle II, no Palazzio Venezia, em Roma. Com isto, conquistou uma bolsa de estudos na França, na Escola de Belas Artes e Arquitetura de Paria, sendo então discípulo de Augusto Rodin, dos nomes mais destacados na história da Arte.

Chegou ao Brasil em 1913, aos 32 anos, tendo trabalhado em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraíba antes de vir ao Ceará. Foram várias as cidades cearenses onde desenvolveu suas atividades, dentre elas Aurora, Baturité, Cedro, Caucaia, Guaramiranga, Fortaleza, Crato, Juazeiro do Norte, Jardim e Sobral. Em Fortaleza, publicou o artigo A fisionomia da pedra, motivo, inclusive, de ganhar prêmio com dita publicação. Em Crato, foi o autor da Coluna da Hora situada na Praça Francisco Sá, que tem a destacá-la o monumento do Cristo Redentor, em proporcionais ao do Cristo Redentor do Corcovado, no Rio de Janeiro. A edificação coube ao Mestre Vicente Marques, nos idos de 1926, inaugurada com a chegada do trem à cidade.

Agostinho Balmes Odísio merece destaque em face das atividades a que se dedicou nas áreas da literatura, escultura, arquitetura e música. Veio a falecer em 29 de agosto de 1948.

 

Dados em referência obtidos através de texto da autoria de uma neta do escultor, Vera Odísio Siqueira, publicado no livro Memórias sobre Juazeiro do Padre Cícero, de Agostinho Balmes Odísio, edição do Museu do Ceará, de 2006.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Diagnóstico dos tempos


Fala-se isso ou aquilo do que antes aconteceu neste chão dos reinos e reinos e doutras aventuras errantes a bordo de histórias esquecidas ou ainda lembradas dalgum jeito. Quais fragmentos, pois, de miragens e delírios, existem oásis de memórias alimentados no instinto de quem sobreviver a qualquer custo. Mesmo destituídos das certezas que ora carregam no bojo da alma, as espécies insistem continuar vidas a fio sob o signo dessas estações. Tais nuvens esparsas em longos trajetos no azul do céu, os minúsculos seres prevalecem ao fervor de antigas distâncias, de olhos fixos no quanto persistir, e recontam suas velhas atitudes dos a bem dizer iguais, no entanto meros segmentos de lendas deixadas pelos caminhos em forma de consequências.

Houvesse princípios inevitáveis e deixar-se-ia de querer tantas viagens pelos desertos da solidão individual e, de novo, permaneceriam extáticos, inertes, ao sol do meio-dia dessa epopeia de papeis e folhas atirados ao vento da sorte. Conquanto desejos alvoroçados de realizar sonhos, insistem viver ficções inimagináveis de ilusões e desencantos. Perguntam a si dos transes e das quantas possibilidades a sustentar barreiras imensas de guerras e vaidades, vilões de versões e vítimas dos próprios augúrios.

Nisto, é-se de quase tudo nessa luta de redistribuir riqueza e trabalho ao sabor dos instintos e das cores. Ao passo de escritas largadas fora, restam paragens harmoniosas ali abandonadas de filmes e livros, canções e louvores, numa marcha sem fim rumo à busca de valores ao crivo das eras que foram embora. Daí, desses entes que nascem dos dias fruto de palavras e objetos encravados pelos abismos só agora reunidos ao furor da necessidade, urge existir dalgum modo nalgum instante e no que quer que seja.

Assim, riscam o horizonte as primeiras luzes doutras transformações desde há milênios sustentadas pela continuidade, o que deveras satisfará, desde sempre, o poder avassalador doutras alturas lá de dentro dos mistérios, a corrigir de vez o trilho do Infinito às mãos de rotinas e formas jamais de longe imaginadas. 

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Sons da noite


Lá de longe, enquanto parecem dormir, os mundos insistem dizer das lembranças guardadas numa persistência de causar espanto. O silêncio veste seu traje de aparente cumplicidade, pois deixa que lhe invada o eito, trazendo de volta tudo aquilo largado pelas calçadas do Universo, isto numa só consciência, acordada bem nesta hora. Misto de emoção como vidas que circulam nesse pequeno espaço das gentes, algo impõe existir dalgum modo a concretude nos quadrantes do Tempo. Assim sorrateiro, segue o ser. Transcende os instantes ao custo de escutar entre as sombras o crivo de presenças vindas nem sabe de onde, que preenche a noite e desfaz das ausências detalhes esquecidos a meio de tantos escombros e visões.

Tropel de quantos seres, sabe-se, na distância, o fervilhar dos habitantes desses reinos infinitos das atitudes, e percorrem largos roteiros; são as histórias aqui contadas aos céus pelos entes encapuzados, vultos vadios, trazidos pelos riscos da solidão sem par. Desconhecidos de tudo, porém afeitos aos mesmos sóis de antigamente, vagueiam nos dias quais senhores de si, sem, no entanto, reconhecer a que vieram.

Visagens do inexistente, pisam o solo da imaginação feitos almas penadas das próprias ansiedades, todavia. Peças de engrenagens até então indefinidas, transitam as paisagens abissais no auge do desejo perene das buscas inevitáveis do que ainda ignoram, e alimentam de sonhos as dúvidas inscritas no coração. Alimárias de rebanhos deixados ao relento, aceitam, entretanto, conduzir discernimentos de procuras no aberto dos destinos da imensidão.

Ao que, outrossim, lhes restam os pensamentos e as palavras, animais selvagens dessa floresta sagrada aonde, certa feita, houve de recontar todos seus haveres e desfazer no mistério donde vêm as dores d outras amarguras, pedaços dos arvores preservados a ferro e fogo no altar de plenitudes tão só sustentadas no fervor das lendas que guardam. Seres e sons, viventes das horas perdidas e dos gestos da procura; percorrem o transe da humana indagação, e aceitam, destarte, tocar adiante o longo intervalo desta era que lhes coube assistir.  

domingo, 16 de novembro de 2025

Os tais seres abstratos


Quando descobriram que poderiam pensar, formar interpretações do que viam fora de si; ficaram assustados, talvez. Mas, nisso, continuaram a seguir. Tocavam as pedras, árvores; caçavam outros animais; olhavam os astros; sentiam o cheiro e escolhiam o que comer; juntaram as primeiras peças; formaram o vestuário; usaram o fogo, as panelas, os temperos; depois, foram crescendo nessa velocidade insistente de recriar o cenário aonde pudessem plantar suas primeiras sementes, tanger suas reses, armar seus artefatos. Desvendavam, daquele jeito, um eu que bem poderia dominar os outros, decerto pensaram certa vez.

E insistiram prosseguir na sanha de fervilhar o Chão e trabalhar os pensamentos, fazer planos, prever acontecimentos, desmatar, construir as primeiras cabanas, formar tribos iniciais, as famílias, os reinos. Lá mais adiante, estabelecer princípios, descobrir fórmulas, fabricar instrumentos. Nisto, viram nos demais seus objetos de domínio. Daí, vieram as armas de combate, as batalhas, os pelotões de ataque e defesa, e as fortunas individuais do poder político.

Nesse território farto de superações, chegaram, certa feita, a experimentar o princípio da precisão e estabeleceram as máquinas originais feitas de materiais achados no solo. Acendia, qualquer vez, a expectativa de acelerar o processo e dormirem à sombra das posses adquiridas.

Naquela fase além do ferro, vieram os conceitos mecânicos, a eletricidade, o motor a explosão, os meios de comunicação; isto numa velocidade, a bem dizer, compatível à capacidade do que lhes acontecia no juízo. Até quando, recente, os meios avançados da ciência do invisível a olhos nus, fizeram os voos siderais, e, da matemática refeita nas palavras e na inteligência, que denominaram o artificial, criando outro cérebro no vácuo das compreensões ordinárias.

Então, dessa imaginação fértil e do desejo insistente de acertar, vive-se, agora, tempo surreal, passadas que foram as previsões imediatas daquele passado romântico. Aqui se estabelecem, pois, fases inesperadas, porém vistas antes nos filmes de ficção científica, de entes amorfos, criados pelos humanos e tão poderosos quanto, ou, quem sabe?, dotados de capacidade autônoma de querer independente, eles, os tais seres abstratos, nascidos da mesma força inicial do próprio pensamento dos indivíduos, porém, no instante, ao penhor de grupos donatários da realidade, esquivos e fortes, a planos de controlar e gerir a grande multidão.

(Ilustração: Metrópolis, de Fritz Lang).

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Delírios e devaneios


Meros traços de um corpo sem lembranças, resquícios de impressões lá de longe vindas no eito do passado, são vagos acenos de certezas que antes de firmarem os pés na lama do Paraíso foram diluídas pelos moinhos de antigamente. Com isto, a fome de existência permanece afeita, aos gritos de continuar além das barreiras e dos momentos desfeitos no Tempo. Mundos outros esses hoje abertos ao sol dos pressentimentos, quais seres inexistentes a escorrer nas encostas dos destinos, enquanto que despertam e somem na mesma velocidade com que chegaram, esses minúsculos protagonistas já agora feitos de mil imagens só de imaginações, astutos, pois, a imprimir velocidade incontrolável a naves até então desconhecidas no sonho de sobreviver e estabelecer-se nos universos lá distantes, noutras paisagens quiçá feitas dos pedaços desta em decomposição.

Ir a todo custo no instinto de reviver quantos desejos insatisfeitos, no ardor das ilusões aqui largadas a ferro e fogo, somadas ao monturo da inexistência. Nisto, facetas outras de liberdade batem-lhes às portas e pedem compreensão desses tantos face ao espaço e ao nada, no esforço supremo de responder aos próprios anseios feitos de fragmentos e dores. Contudo, persistem no afã de revelar a si e aos demais o desígnio insistente dos transes desde sempre na forma de ausências, a voz de quem nem imagina a que esteja, nem a que irá.

Em consequência, blocos inteiros de ferro e cimento invadem as cidades, locais absolutos das contrições elaboradas a duras penas. Percalços dessas aventuras errantes, eis que prosseguem na longa jornada rumo ao mistério que significam em meio a isto, bem nítida a presença das quantas interrogações que arrastam a passar nos dias, nas canções, nos mercados e nas feiras imaginárias.

Conquanto as palavras falem disso, desses enigmas que deslizam soltos aos olhos do Infinito, cá estarão todos eles a contar velhas histórias de séculos sem fim, numa atitude por certo coerente face aos esteios de monumentos que ilustram de certezas o horizonte da Consciência.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

As versões individuais


Esse viver de faz de conta... Somatório imenso às vésperas de ser exato, agora, no entanto, meros simulacros de si mesmos. Num esforço imaginário, contorcem nos ares a ânsia do encontro definitivo nalgum instante, nalgum lugar. Nisso, expendam a necessidade vazia pelos meios ao dispor, artesões da procura em gestos de pura solidão, experimentos, pois.

Bem ao modo romântico das tantas luas a percorrer os céus, aventuram a sorte nos cassinos adrede criados nas próprias aventuras, e seguem o previsto no desafio da exatidão, partes e um todo só ao âmbito da improvisação.

Enquanto isso, no caldeirão aceso da humanidade, desvendam os segredos e os digerem na velocidade monótona dos dias que vão. Protagonistas dos mesmos dramas da multidão inteira, um e todos embaralham cartas e sobrevivem no gosto único de estar aqui, sem, contudo, estabelecer padrões inevitáveis, eternos improvisadores de sonhos que o são. Do jeito das palavras donde nascem os desejos, assim inteiram o percurso das histórias incertas aos seus olhos indagativos. Padecem os traços da existência no rascunho de quem jamais sustentara credos e dogmas, apenas migalhas dessa exatidão que lhes aguarda lá depois do trilho, nas ficções do que foram criados certa feita nos inícios.

Pessoa a pessoa, formam esse contraste das espécies e insistem saber aquilo de que ainda não têm, de verdade, a certeza plena. Mitigam noites e dias as aventuras de que sejam seus autores e heróis, isto sob o crivo da improvisação dos papeis estabelecidos. Explicam a todos o que nem de longe pudessem compreender. Daí vêm os nomes escritos no teto das alturas, do quanto devem encenar, porém desfeitos em pedaços, atirados ao sol do Infinito, cientes dessa incerteza tanta e senhores do anonimato.

Esse contingente parcial, entretanto, perdura no diálogo consigo até lá em um tempo relativo, sumindo nas dobras dos caminhos e impondo as antigas condições dos primeiros quando chegaram aqui, na sequência inevitável do que virá na consciência em aberto.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

No empenho de continuar


Ainda mais estranho do que possa significar, no entanto seguem-se vidas e vidas, seres em si na busca da sofreguidão. Entes amorfos, dotados de razões inesgotáveis, suspensos à beira dos abismos da mais profunda imensidão. Interrogações abertas aos sóis, viajam no Tempo cercados de todo segredo, esses daqui, dali, de tantos mundos, afeitos que foram por demais a ser assim e nem de longe querer diminuir o crivo de procurar pelos oceanos das tantas horas. Isso de existir pede, pois, respostas adormecidas no seio da ansiedade, por vezes angústia, longos itinerários de infinitas exaustões e laços sem conta.

Ver-se, contudo, marcas deixadas pela vastidão dos delírios, a mostrar o quanto houve de aventurar na realidade e nos sonhos. Entretanto persistem as dúvidas lá dos inícios, das vezes demonstradas em prosa e verso nos campos de batalha e nas catacumbas do abandono de uma raça esquisita. Bem que se devesse encontrar essa exatidão matemática dos hemisférios, e até então nada de concreto antepuseram à mesa dos contentes.

Depois, a agitação do desejo em forma de luzes e metais circula desarvorada pelas estradas e ruas, a multiplicar as dúvidas originais, agora noutro afã, numa exaustão de largos precipícios pelo decote das serras em madrugadas imensas, desse o enigma que percorre os mesmos heróis de antigamente, desta feita munidos de instrumentos atuais, outrossim tão poderosos e de igual intensidade. Superpõem fervores sobre as criaturas e destroem monumentos a perder de vista o ímpeto doce de crer nos melhores dias de há séculos, vistas as cabeças enfurecidas pela sanha da perdição deles, os tais donatários da fama e do poder.

Nas almas, entretanto, fervilham os amores de maiores festas, do tempo em que ver-se-á de vez a concretude aqui herdada dos místicos verdadeiros e suas histórias de sabor inigualável.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Nisso, as palavras


Tal qual um enxame de abelhas enfurecidas, vêm aceleradamente a cercar em volta tudo quanto seja de pensamento. São elas, nas tramas tardias das lembranças que regressam, isto numa velocidade sem tamanho, imprevisíveis. Encobrem o presente da espécie de cobertor escuro nas noites insones. Revivem cenas quantas, as estendendo no tabuleiro das horas e fazem de nós meros atributos de forças até então desconhecidas.

Mas chegam através delas, em ondas sucessivas, de soslaio, a revirar os ganhos mais antigos ali de quando imaginávamos ser meros joguetes de forças abstratas, no entanto insuficientes. Quer-se reviver os transes de outrora, contudo redes parecem dominar o firmamento da imaginação e sacodem a todo instante os mesmos verbos, mesmos adjetivos, numa sanha inestimável de amores esquecidos. Aos trancos e barrancos, outrossim, reiteram facetas envelhecidas de currais, matas, caminhos solitários, vazantes, brejos, córregos, açudes...

Trâmites de poder inimaginável, auscultam nossos laços dagora e os tornam a bem dizer inexistentes, na disposição pura e simples de querer determinar proprietários exclusivos no território das existências. Animais a se dizer vivos por demais. Têm, sim, vida própria, porquanto gritam de dentro das criaturas e fazem delas instrumentos de sortes imprevistas, desconhecidas. Pequenos troncos de imaginação assim circulam em todo o correr lá das entranhas, a sustentar novas histórias daquilo que antes foi. Viram, de palavras, pensamentos soltos, juízos de valor, teorias da fama, do poder, sustentação de imagens deixadas pelas civilizações antigas no transcurso das histórias individuais. Nascem dos livros, revistas; de cartazes, filmes, visões, programas de televisão, discos, canções, jornais envelhecidos, trastes abandonados pelas gretas exóticas do inexistente.

Fossem, nisto, esquadrinhar a que vieram, fugiriam sorrateiras quais minúsculos seres, talvez agentes de reinos apagados na História. Entretanto permanecem resistentes, heróis de sonhos, a descrever universos inteiros de verdades em movimento pela alma das criaturas humanas.

domingo, 9 de novembro de 2025

O que se passa no juízo deles


De comum, aparecem do inesperado pela caligrafia das ruas e ilustram as páginas do tempo na maior desfaçatez. Mesmo porque de nada valeria explicar a razão de estarem nesse mundo das quantas perguntas que, sem resposta, prevalecem consigo e deixam largadas nos mistérios do que se passa no juízo deles. De que jeito responder, nem eles, os tais doidos de rua, sabem fazer; só exercitam os cumprir vidas afora, tais protagonistas inevitáveis do cotidiano deste universo.

Desde menino os observo lá donde vim, no sítio. Preenchem o estio das horas e andam mundos afoitos de longe do que dizem ser normal, distantes daqui a perder de vista. São bem comportados ao seu modo. Aceitam de bom grado as contingências, ao sol de impaciências irreverentes, e cumprem papeis inigualáveis no seio das comunidades. Nisso, trazem nomes típicos, fruto das tradições, semelhantes aos heróis e suas façanhas esquecidas. Capela. Soldado. Ligeirinho. Príncipe Ribamar. Sorriso. Garapa. Moipen. Quando passam, cumprem hábitos, às vezes falam, encenam atitudes. Respeitam relativamente as normas sociais. Sabem-se inúteis (talvez) mas componentes do modo semelhante ao que cabe aos outros ali em volta ditos padronizados. Comem. Dormem. Sobrevivem.

Houvesse necessidade, ninguém justificaria essas existências que surgem espontaneamente, e assim desaparecem no correr das cenas, deixando vagas imensas nas recordações de toda época. Tipos populares de seus tempos, amargam de verdade a lembrança das fases em que aqui passaram.

Deles nascem as histórias dos humanos que confundem liberdade com indiferença e executam seus scripts na maior sem cerimônia, ao sabor das circunstâncias, traçando pelas praças o chão onde vivem, e ter felicidade à sua maneira. Superpõem o modo de ser ao que nunca souberam exercitar doutro jeito no transcorrer das jornadas. Em meio aos ruídos diários de máquinas e falas, escolhem as estampas do que lhes coube notar. Vilões da própria lida, criam seus argumentos e os desenvolvem nos eitos mais extremos, a céu aberto, longe das opiniões, dos desassossegos, reservados em si. Nisto, vez em quando também nos avistam pelas calçadas a contar dos mesmos enigmas que também lhes tocam o sentimento.

sábado, 8 de novembro de 2025

Sons da imensidão



E se saber do mistério quase nada, ou mesmo nada, isto por si só demostrar o instinto do Tempo a lhe preencher tudo a sua volta. São gritos, a bem dizer, daquilo donde provêm os desejos, na força de continuar a todo custo. Nem isso de aquinhoar o destino produziria os sinais que ora chegam a todo momento. Falas. Ritmos. Marcações insistentes vindas de alguém dizer, de algum lugar próximo da consciência, as razões do quanto existe.

Nesse intervalo, os derradeiros resquícios das vaidades imperam frente à luz necessária de indicar os meios dessa história por demais inevitável, no entanto. A quem queira ouvir, cantam os pássaros, sopra o vento, caem as folhas, descem os rios, vêm as canções, as lembranças, os credos, o estalar do sol nas bordas do firmamento. Isso de estar aqui, nalgum lugar inextinguível, parceiros de jornadas definitivas, rumo ao Ser. Na vibração dos pensamentos pululam as palavras, os gestos, as cores, formas, vontades, espetáculo mil da própria certeza dessa perpetuação nas existências.

Buscar o quê, quando aqui esteja nas malhas das horas constantes?! Todos, luzes acesas de poder até então desconhecido de quem seja. Nisso, a contenção dos acontecimentos numa voragem sem conta. Viver. Permanecer. Narrar. Estabelecer. Conter. Resistir. Sustentar as dores dos abismos. Ter saudades. Fluir.

Esse outro eu assim contém o senso do Infinito, porém à cata de significados, e exercita, persistente, valores, penhores, atitudes, indagações. Nascentes da alma, reúnem seus pedaços em cordões de sacrifícios e revelam, passo a passo, a que vieram, pois. Retratos das histórias intérminas, segredam códigos aos céus e adormecem aos olhos da necessidade. Eles, os seres translúcidos ainda cobertos da lama do parto, conquanto multidão de anônimos, ilustram as paisagens de liberdade fortuita e desfazem na sombra módicos sabores. Avistam, afinal, lá distante, o pouso da Verdade e sorriem impávidos.

(Ilustração: Microsoft Copilot).





quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Papoulas ao vento


Nem que antes fossem, porém apenas agora se formam no silêncio as primeiras histórias. Descem quais seres à busca de interpretar o destino, tais senhores do próprio sentimento, no entanto cercados de tantos dilemas e escolhas que a evolução revela só minúsculos avanços.

Destarte, espalhados que foram aos sons dos fins de tarde, desfrutam dos mesmos sabores dos quantos ali observam as sombras da noite que logo se avizinha. Eles, os instrumentos de transformar a consciência em naves de evolução, por isso tão inesperadas quanto chegar aos mistérios tangidos pelas profecias acesas do chão das horas...

Pensamentos assim sobrevoam a imensidão do horizonte e carregam consigo as folhas dos instantes, apressados, deixados em si lá desde antigas mitos dos impérios desaparecidos. Em caravanas imortais, seguem essa trilha do Infinito e esquecem sobremodo o invisível de muitas alegrias que ficaram perdidas. Vadeiam, pois, a bordo de naves siderais, imaginam sonhos preenchidos de tantos amores que os olhos assustados insistem chegar ao tempo de conhecer toda a verdade.

Fôssemos, em consequência, sustentar certezas várias e deixaríamos de interpretar as normas da Natureza a segredar no coração dos indivíduos suas belezas sem conta, mais que necessárias ao cumprimento da promessa que sempre nos envolve a perder de vista. Um a um, persistem na caminhada pelos palcos iluminados em volta dos atuais acontecimentos. Pouco ou nada, significa, todavia, querer dominar as forças em movimento e reverter quadros anteriores de inúteis apreensões e que de nada servirão ali adiante.

Uma humanidade em crescimento no seio de todos construirá o novo espectro das possibilidades até então inalcançáveis, contudo. Perlustrar a crosta dos momentos e sobreviver à custa das esperanças em forma de transformação das inúmeras criaturas deste mundo que aqui permanecerem. Com isto, passo a passo, marcam o solo da imensidão e permitem trazer outras lendas ao vazio do firmamento dos dias e trazer de volta as folhas em branco das realizações definitivas.

(Ilustração: ChatGPT).

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Realidade mecânica


Os seres do espelho insistem viver a todo custo sua liberdade. Correm soltos, a torto e a direito, nas faixas escuras do imaginário e descem fortes ao mundo subterrâneo dos momentos que voam, a fazer do fantasmagórico a existência. Nisso e disso, nestante, vivem os habitantes dagora a fervilhar as mídias que inventaram na forma de migalhas deixadas ao vento. A tal dispersão digital implica, pois, nessas reentrâncias doutras perspectivas da própria humanidade.

Ao descer às profundezas do caos, dali, desse abismo, outras espécies vêm à tona, no formato exótico dos filmes mais absortos largados perlas calçadas deste mundo, onde antes só havia ficções. Passa-se de leitor a protagonista, numa maior sem cerimônia. Levas sucessivas de vultos desfilam pelas dobras dessas cápsulas em movimento, uns a transmitir a outros seus surtos e transes.

Então, aquilo até há pouco previsto qual contos e lendas, importam do mesmo tanto das inscrições fixadas na crosta desses dias assim abandonados. Lá de longe, apenas surtos do que houvera, visagens e surtos. Habitantes de época prescrita nas imagens transmitidas bem que significam figurantes a jogar seus dramas de horas incertas, conquanto o que virá depende tão só das versões adquiridas nas bancas hipnóticas dos códigos. As melhoras ficções de antanho falavam disso, dessa macroestrutura que se formava no horizonte.

1984, Laranja mecânica, Blow Up, Depois daquele beijo, Admirável mundo novo, Utopia 14, Crônicas marcianas, Matrix, Blade Runner, O caçador de androides, e tantos mais, a enxergar os próximos quadros do espetáculo em forma de previsão daquilo em formação no estômago dos séculos. Conquanto só impressão matemática, esteiam largos haustos ao que possa daqui vir a ocorrer nessa estrada sinuosa das civilizações rumo ao Infinito.

O senso indica, no entanto, a capacidade prevista das criaturas e suas funções nunca estimadas no modelo ideal. Ver-se-ão, decerto, raízes do inesperado a percorrer os mesmos córregos de antigamente, a fornecer matéria prima inigualável à surpresa dos tempos vindouros.

(Ilustração: Hieronymus Bosch).

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

A que é que se destina II


Por demais, isso tudo pressupõe painel imenso de mil sequências, e longa história invadem o teto do horizonte das existências. Enquanto isto, ardem as chamas das desigualdades, porém sob explicações e retóricas do quanto houvesse de haver agora e sempre. Dúvidas imperam nas imaginações, entretanto. Portas incontáveis a serem abertas nesse mesmo Infinito, e cá se arrastam os tempos na face das tantas pessoas vez qualquer detidas nas histórias que deixam nas farpas de uma estrada a bem dizer impossível de acontecer.

Diante, pois, do quanto existe, eis-nos a contar as estacas intermináveis desse universo pessoal que transporta à real sabedoria, contudo ainda quais enigmáticos seres perante as horas. Ainda assim, consciências em movimento numa superfície de sonhos imprevisíveis.

As próprias palavras vivem disso, da necessidade perene de continuar, dispersas nas almas feitas meros fragmentos de telas sucessivas tangidas pelo Tempo, atitude misteriosa dos entes intangíveis em mundos distantes e próximos, talvez. Daí chegam as quantas lendas, os enredos fortuitos de jornadas imagináveis, alimento dos deuses a circular no firmamento. Fora isso, a que estar aqui, de olhos intensos, a percorrer as eras, dentro e fora de si?!

Insistentes indagações, todavia, desfazem tais dramas e nutrem as companhias, nas praias e flores, no campo e nas cidades, aos milhões de personagens criados na intuição, algo qual destinado a definir, belo dia, métodos e princípios, no seio das sociedades em voga. Lá nas escarpas dos destinos, desfilam esses autores de contrições, astros ligados ao pináculo dos templos e aos sons estridentes das máquinas que criam a todo momento novas aventuras errantes.

Pudessem refazer o percurso largado lá antes nas jornadas, decerto ao nada acenderiam suas velas e clamariam seus cânticos exóticos, trajetos da humana criatura, de aceitar baixar a cabeça e viver de perto o sentido disto, motivo e razão de tudo, enfim.

domingo, 2 de novembro de 2025

Tempos outros


Um quanto de tempo revira tudo em volta e permite examinar a validade na continuação dos acontecimentos e das tantas histórias que se sucedem na consciência de todos. Numa viagem infinita pelo chão das existências, nisso as pessoas expõem seu valor de criatura. Vastidões a falar dos limites, enquanto essa máquina constante acrescenta pouco a pouco outras experiências no solo do que aperfeiçoa. Vontade, pois, nunca falta ao que tem de acontecer.

A imaginação, qual fator de aperfeiçoamento das espécies, transita pelas memórias na intensidade sem conta, dentre os pensamentos ali presentes. Reúne, solda as tantas imagens e, nisto, formula novos momentos. Lembranças passeiam na visão interior das pessoas e conduz os espaços internos na tal colagens de películas nunca terminadas. Vemo-nos dentro dessa máquina, a criar conceitos, estabelecer metas, refazer imagens, destruir sentimentos, perdoar, se perdoar, com ou sem companhia, nessa longa empresa até onde irá o poder inesgotável de forjar a própria imagem que ficará para sempre no poder das ideias, sob a direção dos alvedrios do drama das horas.

Aonde ir, ali seguirá essa direção, autoria das individualidades, em ação pelos quadrantes da sorte. Instrumentos de encontros e buscas, eis quais sejam estes aventureiros ambulantes de si mesmos pelas travessias dos destinos. Vivem-se, destarte, os moinhos de vento de todas as chances de sobreviver. Daí esse desfile inarredável de contos, mitos, lendas, canções, espalhados aonde chegar nalgum dia, formando o teto das compreensões. De aparentes visagens do imaginário viram realidades e contorcem os punhos do mistério, a ponto das muitas visões dos céus, luas e sóis serem consideradas insanas.

Além de que, essa gama a bem dizer incontável de chamamentos, logo vêm os mínimos fenômenos provocados pela Natureza, tangidos pelas vilas, cidades e campos, a tocar de frente a alma dos mesmos personagens anteriores. Filmes, livros, gravações intermináveis de efeitos sonoras, máquinas, acrescentam sobremaneira novas oportunidades a quem antes só procurava motivos de estar aqui. Nesse pandemônio inextrincável viajam vidas e vidas, festa sem final dos delírios e sonhos. Com isto, se sustenta aquilo denominado circo de possibilidades das dimensões inexplicáveis.

(Ilustração: O pagamento, de Brueghel o Jovem).

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Paisagens do Inconsciente


Lá de quando a gente se pega a lembrar do que nunca viu e jamais conheceu. Dos lugares aonde em tempo algum pisou certa feita. Dos céus estrelados de quantas luzes de onde chegam tantos e poucos sabem deles. Dessas músicas a vibrar no coração, que vivem soltas nos quadrões desse Universo intempestivo. Campos abertos da alma. Surpresas em movimento que falam de tantas línguas e as quais raros compreendem o significado. Dos momentos que, de tão inebriantes, somem sem deixar vestígios pelas sombras e lembranças. Isto das horas em superposição a conviver nas dobras dos infinitos, distantes e absortas na própria ausência do que hoje sejam.

Deste sempre disforme a que buscar consiste em sobreviver na lama dos destinos. Lastros enormes de verdades acesas dentro da presença que dela ainda impossível seja ter conhecido de tudo. Luares inesquecíveis, todavia apenas rastros de duendes e fadas grudados nas velhas dores de antigamente. Algo tal qual a surrealidade em gestos imperceptíveis de quem adormeceu e foge da presença, espécie de aventureiro ingrato da sorte. Conquanto desvendar a que vieram já esteja escrito nas alturas, tais humanos seres sustentam o barco do instante nas fibras do coração. Há florestas inatingíveis, porém. Ser-se às margens dessas estradas onde ali convivem todos, pacientes de jornadas profanas à procura da luz no íntimo do Ser. Querem, sim, avistar mais adiante, mas afeitos aos gestos limitados de paixões antigas, laços de desejos apressados. E vivem, sobrevivem ao custo de memórias desfeitas.

Portanto, de palavras e gestos, nessa busca incessante, disto resulta rever histórias inolvidáveis que foram a razão de habitar nas existências dagora. Transitam nas frases e nos parágrafos, em cenas infindáveis dos passados agregados ao firmamento azul. Ficaram insistentes aqueles cinzéis das doces certezas que ora alimentam o trâmite do desconhecido e transportam na pele o poder de aqui permanecer.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

As máquinas humanas


Lembro o filme 2001, Uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick, quando os astronautas, em viagem interplanetária, utilizavam essencialmente os equipamentos eletrônicos naquela viagem a bem dizer impossível em tempos dagora. Cumpriam à risca as funções de navegar no espaço lá distante, porém dependiam sobremodo do uso ideal daquelas engrenagens sofisticadas, nível profundo de conhecimento, no entanto a exigir rigor no manuseio dos tais instrumentos. Quando, determinado instante da película, se observa espécie de conspiração cibernética a pôr em risco o seguimento da missão.

Isto quando, visão pessimista daquilo tudo, põe às claras o avanço tecnológico e suas imaginárias consequências. No entanto, há de viver-se outros conceitos, outros resultados. Bem ao modo das aparências do que possa vir a ser, os humanos de hoje já utilizam meios técnicos de inimagináveis resultantes. Qual o quê, traz à baila severa dependência a fatores ora vários da Ciência, do existe no desenho que significa extensa margem de implicações relativas ao momento civilizatório.

Espécie de reconfiguração da própria identidade da raça, vistos conhecimentos formados sob princípios que envolvem técnicas, mecanismos, fórmulas, aprimoradas em âmbitos reservados, secretos, disso vem à tona existir mundo à parte. Linguagens cifradas através de avigoramentos exclusivos, meios outros que não a pauta comum, exercitam, destarte, poderes inaccessíveis aos olhos medianos da massa, deixando-a submetida ao inesperado da cena.

Isso que foge ao lenitivo da espécie e já transita noutras dimensões. Superpõe, talvez, determinações acima da cidadania meridiana. De certeza que existe e permite, inclusive, a sobrevivência de tantos e do sistema em si. Domínio soberano de raros, oferece os saberes necessário, contudo, ao seguimento da Civilização. Ao crivo de tais significações, mesmo assim persistirá sequência inimaginável de acontecimentos. Ao que antes se consideravam inteligência, ora supõem até artificial, numa hipótese de ser algo além da origem pura e simples da memória e do raciocínio de criaturas aqui viventes. Todavia, a grosso modo, o inesperado cria suas asas e novas vertentes, e compreensões bem que devem vir a exercitar o senso da perene realidade.

domingo, 26 de outubro de 2025

Além da sobrevivência


Enquanto imagens se sucedem nos rochedos da memória, longe vivem os extremos desejos de continuar, até depois do próprio tempo. Nisto, são noites e dias que encobrem a claridade e marcam o senso dos que insistem conhecer outros estados da matéria, ou da energia, tais fossem. E, face a tanto, padecem estados de consciência por vezes dolorosos, enigmáticos, razão de muitas apreensões. Farejam, quais entes apreensivos, as folhas secas largadas ao furor da velha História. Mergulham nas superfícies até então conhecidas, mas duvidam sobremodo de si, feitos seres doutras dimensões, por certo.

Daí as filosofias dos destinos. Uns admitem existir, num desafio dos dramas que têm de defrontar. Já outros usufruem das danças siderais de quantas aventuras, na crosta do mistério, olhos abertos aos sonhos, porém. Múltiplos conceitos vagam, pois, pelas praias do Infinito e nelas os elementos que revelam essa inexistência fortuita. Amargam ou desfrutam de prazeres sem conta, numa velocidade a bem dizer imaginária.

Depois de experimentar o sabor dos séculos, apenas aceitam iniciar as outras notas daquilo largado pelas vilas e cidades, soberanos das ilusões de nascerem e sumirem. Estejam fieis à solidão ou repastos de multidões irreverentes, descem aos abismos da ausência e dali só contemplam, vez em quando, as telas do desaparecimento, deles, puros senhores da passividade.

Vistas numas poucas narrativas, essas impressões do movimento de objetos e sentimentos distinguem com facilidade o que poderia resumir a jornada desses atores das perdidas desventuras. Querem, de certeza, cruzar a linha entre os dois mundos, matéria e espírito, contudo sob a fragilidade das horas intermitentes. Refazem o percurso, isto passados que foram os gestos revoltos desde longas epopeias. Convergem de tudo, e, na sequência, observam o itinerário ao sabor da distância dos peões desse tabuleiro que se desfaz ao sabor dos séculos.

Talvez em vista disso, a inevitável resposta sempre supera todos roteiros traçados na pele dos cactos fincados à sombra dos vultos, em volta de tamanhas indagações. Superpostos, assim, cientes do poder que possuem, dormem tranquilos às luzes das manhãs que nunca param de vir de origem constante.

(Ilustração: Picasso, Paisagem do Mediterrâneo).

sábado, 25 de outubro de 2025

A escrita livre

Qual entrar numa loja de variedades, assim se escreve. Prateleiras imensas de passados, raciocínios, conceitos, histórias guardadas de muitas formas, isso aflora e dali vêm as palavras. Há um trânsito de pessoas, sons e movimento de máquinas, enquanto as lembranças envolvem a vontade, e, em seguida, aparece o desejo de querer, dalgum modo, contar a alguém que seja, até a si mesmo, talvez. Quase a perder de vista, um tudo invade a compreensão, donde são recolhidos trechos dos mais variados matizes.

Numa busca de interpretação daquilo que interessaria ao momento da escrita, desfilam desde filosofias, místicas, vivências das outras épocas e experiências, numa busca sideral do que possa chegar aqui e trazer frases, parágrafos, imagens. Nisto, tal quem escolhe entre os peixes colhidos de uma rede, põe-se de lado alguns, maiores, de interesse, e deixa de lado aqueles menores e dispensáveis.

A gente interpõe visões recentes do mundo em volta; a lua nova que já apareceu no céu desta noite; o ritmo da caminhada donde chegou recente; os traços no céu de final da tarde; a escuridão, que principia envolver o mundo lá fora; daqui; dali; então surgem réstias do tempo, mínimos rescaldos de dentro e de fora, a formar os esteios dos textos na consciência, e o gosto de pautá-los dalgum jeito.

Ainda que tanto, enxergar os espaços entre as letras e as palavras já descreve o gosto de quem preenche as páginas. Espécie de mania de querer criar motivo de transmitir os quadros da memória, isto resume o que seja o instinto de transcrever, nas folhas em branco, o que nos apresentam os pregões dessa influência que domina os escribas inveterados.

Perante esse vazio das horas que somem rápido, escrever traz consigo o nexo de procurar respostas do quanto esteja agora acontecendo, e suas falas silenciosas, ouvidas naquelas travessias do espírito, sempre ao impulso de ir a algum lugar, que seja, por certo, à presença de um leitor desconhecido.

(Ilustração: Microsoft Copilot).

Natureza indomável II


Para quem imaginou sem dúvida vir dominando a força dos elementos naturais, o Homem suporta com denodo as marcas impostas pelos efeitos inesperados que advêm nos instantes menos previsíveis da sua história.

O que resta considerar em face de situações desse tipo é que há muito para se ser auto-suficiente em termos de controle das ocorrências geológicas, no que pesem as pretensões tecnológicas a que chegaram os povos, a lembrar conceitos clássicos chineses, onde Lao-Tsé afirmava: O céu e a terra não são humanos. Não têm qualquer piedade. Para eles milhares de criaturas são como cães de palha que serão destruídas no sacrifício.

Isso a título de reflexão, neste fim-começo de mais outro longo giro do Planeta em sua órbita na rota do Sol, intérmina jornada que o mistério das eras circunscreve há milhões de anos sem fim.

Enquanto as sociedades parecerem esquecer dos valores originais da simplicidade, num turno de práticas insanas, vaidosas, ilusórias, algo, porém, indica possibilidades no querer de tantos atores que adotam posições de comando, a proferir definições coerentes de utopias renovadoras.

A dialética fundamental identifica os dois fatores estruturais da realidade possível; de um lado, entes materiais, no meio dos quais os seres e os objetos; do outro, idéias e sonhos, a formar a base única do pensamento lógico.

Nesta reflexão, portanto, a esperança de reinterpretação da virtualidade desse mundo, quando a lição da dor pressiona a corrida acelerada do ter em forma de destruição, desprezados conceitos solidários do agir coletivo, nalgumas nações distantes ou próximas.

A saída de um ciclo anual determina pouco, quase nada, em termos de querer decidir a continuação das velhas práticas, nos meses posteriores. Apenas matricular em novas séries resume a atitude usual de pais e filhos, de memória curta, que guardar pouco dos conhecimentos recebidos, conquanto, mais hoje, mais amanhã, entregar-se-ão nos braços fatais do egoísmo de grupo, nada além do que exercita a grande população que cresce em almas que se expõem aos inevitáveis fenômenos dos dias indiferentes.

E que os sonhos da melhor felicidade sempre iluminem a consciência de todos nós, seres humanos!