
Isso tal qual escrever; ousar pelos territórios virgens do silêncio e saber que haverá, nalgum lugar distante, sobreviventes que leem. Avançar sobre a carne das palavras e retalhar ossos e nervos numa espécie de piratas das noites escuras à busca dos galeões abandonados em que se transformou o vazio das letras caladas. Passo ante passo, e percorrer o destino das ideias a lançá-las feridas e sórdidas longe da inocência original. Fazer face às garras da previsão de sentido e ferir as telas e as tardes; contar em fúria o que nunca passaria de mero vômito do presente a cada imagem do que iria e jamais voltaria a ser de novo, não fosse audácia impetuosa dos que falam, contam, escrevem; dizer nas entrelinhas das ausências em queda livre as visões e os sonhos que testemunhavam inconformados em perdê-los.
Virarão depois em telas abandonadas a correr da pena e do tocar dos dedos nos teclados aquilo tão querido, fagulhas de vidas retemperadas, fervidas e enviadas a outros aventureiros da leitura, nesse mundo afora.
Escrever, pois, espécie de repartir clandestino do pouco que somos em pequenos mercados de tintas e papéis deixados à margem dos firmamentos e guardados bem íntimo das horas eternas, fragmentos dos que feriram a exaustão da inutilidade e resolveram multiplicar possibilidades no dizer acontecer que viraram gritos de vontades e flores secas ao Sol.
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