quarta-feira, 1 de maio de 2013

Fideralina e o Açude Grande


As chuvas do Sertão surgem só no Verão, estação do estio noutras regiões. Ainda assim, quando vêm, se é que vêm, chegam com intensidade a ponto de o sertanejo classificar de inverno, seu Inverno, porquanto irriga o solo e possibilita o plantio das lavouras de subsistência, milho, feijão, arroz, fava, jerimum, maxixe, no tanto suficiente a cruzar o ano inteiro.

No Tatu, situado a meio do semiárido cearense, no Sertão do Salgado, segundo a classificação atual, o regime das chuvas funciona desse modo típico. Pelos inícios do século XX, numa dessas quadras chuvosas que superam a média histórica de causar espanto face ao excesso de águas, naquele ano, Fideralina Augusto Lima viu o Açude Grande receber volume além do suportável, o que ameaçava a capacidade do reservatório.

Diante daquilo, como seguissem chuvas volumosas e na madrugada em nada diminuíssem de ritmo, a matriarca decidiu fazer, ela própria, a defesa da parede de barro do açude, indo se postar no logo percurso da barragem que retinha as águas, munida de um rosário, e rezava andando de extremo a outro em preces fervorosas.

Contava o meu avô que os relâmpagos ali indicavam na escuridão a presença aflita do vulto sobre a barragem. O leito do açude já iniciava levar o obstáculo de barro que retinha o volume d’água, enquanto a tempestade monumental prosseguia célere.

Os gestos da velha senhora refletiam o tanto do seu desespero, que, de longe, lá do beco entre a casa grande e o engenho, testemunhavam familiares e moradores, absortos e cientes das impossibilidades para conter a fúria natural dos elementos.

O dia nem clareara e Fideralina, em lágrimas, abandonaria o cimo da parede à convulsão das águas a rolar devastando os obstáculos que achasse pela frente, levando num único gesto o apurado de todo inverno, fortuna do ano inteiro da sobrevivência dos matutos.

Esgotada, trêmula, cabisbaixa, molhada no corpo e na alma, quem demonstrara tanta valentia perante desafios guerreiros e tempestades emocionais, agora revelava a fragilidade feminina e os limites da vontade humana.

Ao claro tímido da manhã chuvosa, enquanto as pessoas observavam o estrago deixado pela força indômita das águas no ventre devastado das plantas do brejo logo abaixo, caminho aonde fugira o açude, a principal personagem do drama noturno sob os lençóis dormia sono solto.           

4 comentários:

  1. Émerson,

    Precisamos de suas histórias sobre Fideralina, familiares e o Tatu.
    Grata pela sua contribuição.
    Cristina Couto.

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  2. Emerson, concordo plenamente com a Cristina Couto: você deve escrever mais sobre a memória do Sítio Tatu, e contar o que sabe sobre Dona Fideralina e ainda não foi revelado. Forte abraço.

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  3. Dimas,

    Às vezes chega à memória narrativas de meu avô e de meu pai a propósito do Tatu dos tempos de D. Fideralina. Quero juntar isso aos poucos. Já escrevi um pouco, e quero escrever mais. Hoje mesmo, Um escravo branco, atualiza algo disso.

    Abraço.

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