Vinda
de longe, lá de outras horas silenciosas, de quando a cidade transpirava cheio
de incenso e mirra pelas calçadas das igrejas, havia qual o que espécie de
religiosidade pelo ar. Um respeito às normas das mãos de ferro dos costumes
europeus trazidos nas malas dos portugueses. Bom, sem querer avaliar resultados
que estão aí ao dispor de quem quiser, lembro desse tempo de padres e freiras,
e colégios, e rituais, pedaços de memórias de quando criança, de quando íamos
às missas, às bênçãos, ouvir os cânticos acompanhados de órgãos e rebatidos ao
ribombar dos sinos.
Depois,
diante da aceleração dos séculos sem fim, vieram os ecos da deusa Razão e tanto
se modificou o quadrante dos costumes. As encíclicas dos papas, a missa que
deixaria de ser rezada em latim, as práticas dos credos e das cerimônias, o
texto das orações. Mas bem isso que marcou a percepção do movimento dos astros
nas praças e nos templos.
Primeiros
foram os filmes, que chegavam toda semana, de que íamos logo na segunda-feira
ver os cartazes dos lançamentos. Isso principiava de acontecer a ponto de mudar
em quase tudo as minhas concepções antes firmadas em conceitos da religião
católica. Fiquei qual à margem de tudo aquilo de antes. Dos sacramentos que
recebera com a família, das rezas que Tia Vanice ensinava à gente na véspera de
dormir. Dos conselhos dos meus pais sempre calcados na formação religiosa
trazida do berço.
E
me jogaria de corpo inteiro ao mundo profano, nas festas, nas farras, nos
passeios, política clandestina, bebida, cigarro, ritmo alucinado de finais da
década dos 60, com hippies, rock, Guerra do Vietnam, tantos e
quantos chamamentos vadios, nas hordas do desespero de uma época frenética que
se foi.
Ouço,
agora, lá distante, o badalar daqueles carrilhões de outros tempos, sonoros
sinais dos momentos outros abafados pelos instintos de uma geração macerada no
caldo grosso das consequências históricas. Acalmo por dentro e reavivo o clima
dessas lutas internas que atravessei e ora obtenho a oportunidade rara de poder
ouvir de novo, na alma, o vigor de uma fé que mora nos meus sentimentos de
saudade que restaram intactos.






















