domingo, 7 de outubro de 2012

Sonhar consigo



Quando palavras querem sair elas acham jeito ideal de nascer e falar bem alto nos céus azuis. Houvesse, pois, menos ruído entre horas e dias, e ouvir-se-ia a música das manhãs festivas, pássaros cantadores e o vento soprando gostosas as histórias do tempo, com toda intensidade imaginária. Contudo atrações insistentes do burburinho invadiram becos e vilas, enchem de ondas os ouvidos e escorrem aceleradas pelas paredes do estômago da gente. Avestruzes, traumas, lutas e viagens, na rotina dos animais velhotes racionais, começam a dar soco no ar, por determinações dos aleijões feitos a capricho na civilização de plástico e açúcar.

Às primeiras vezes, quase ninguém notava viver de improviso e perderia o charme da beleza original, força do inesperado que dissolveu a suavidade primitiva. Depois, lá adiante, preenchido o espaço do sexo à boca, agora imitam modinhas do passado, ritual guardado nas gavetas das emissoras de rádio. Comem o pão seco mofado nas prateleiras da saudade, marcados no andar monótono dos quebra-molas e trilhos pretos das estradas; pisar só onde permitem os boletos bancários e as normas das companhias aéreas...
Ninguém que se preze acreditaria nas mudanças oferecidas em pacotes promocionais da mídia dominadora. Bichos de bingos eletrônicos e armas mortíferas apenas dominam a tela dos escritórios e o número das datas nos calendários antigos e engolem espécie de parasitas chegados nas caravelas, numa conclusão melancólica do capitalismo selvagem. 

Enquanto poucas chances existem de aguardar respostas melhores da horda bárbara que alucina e ilustra os corpos nas tatuagens dos ídolos desaparecidos, figuras queridas nos filmes continuam as batalhas da cultura de sucata. Poucos, raros talvez, avaliam os desejos verdadeiros de encontrar liberdade real além dos vícios, da desilusão, desespero. Meios de nortes possíveis na transformação de objetos em conhecimento ainda trabalham calados, invisíveis nos grupos isolados, na clandestina romântica.

Reunissem caravanas todas que seguem o deserto dos relógios, e formar-se-iam imensos pelotões de rebanhos alternativos à cor do consumo, angústia de não saber, para custo final do melodrama atual. Peregrinos de si, valorosos guerreiros cautelosos, entregam capacetes e fuzis nas praças públicas, longe da ganância dos líderes que comandam. Velhos corações esfacelados de paz rifam a dor e enxugam as feridas com o lenço da esperança, acesos olhando o que restou de alegria nos vales do silêncio dessa intensa felicidade.

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