domingo, 20 de julho de 2014

A botija de Fideralina

Quem lá viveu ou conheceu de perto o sítio Tatu, no município de Lavras da Mangabeira, sertão cearense, pode falar a propósito de dona Fideralina e de uma botija que teria deixado enterrada nas cercanias da casa grande da sua propriedade. Em face disso, muitos consideram mal-assombrada a fazenda, sede secular do clã dos Augustos. Há histórias de aparições e outros fenômenos instigantes, qual se espectros desejassem comunicar algo desde o mundo invisível, a querer informar onde estivessem depositados  haveres em ouro da velha senhora. 

As informações reservadas que a família detém dão conta de que apenas três pessoas testemunharam a hora de enterrar a fortuna. O vaqueiro Lourenço, a ex-escrava Tomázia e a própria Fideralina.

Segundo reza a tradição oral, as duas mulheres que escolheram o local em que, elas mesmas, cavaram o buraco, dentro, ou nas proximidades, da casa. E numa noite, convidaram o vaqueiro; vendaram-lhe os olhos e cuidaram de girá-lo muitas vezes, enquanto repetiam as palavras: Faz roda, Lourenço. Faz roda, Lourenço. Faz roda, Lourenço.

Ao imaginá-lo tonto, lhe puseram na cabeça pesado tacho feito de cobre, desses de fazer doce e queijo no sertão, recheando-o de pratarias e libras esterlinas. Puxaram o homem pelo braço até o lugar onde arriaram a carga, depositando-a no solo escavado; em seguida tudo cobrindo de terra.

Nessa noite, se conta, caiu chuva forte, impedindo quaisquer possíveis identificações posteriores por parte das pessoas, inclusive do próprio vaqueiro, o qual, após o desaparecimento das duas outras personagens (o que não demorou muito a ocorrer) pôs-se a comentar o assunto com moradores do sítio. Dizia que, naquela noite, a caminho do ponto em que poriam o tacho, e nesse trajeto, ouvira batida de duas cancelas que cruzavam, sem precisar, no entanto, a situação em que haviam largado o tesouro.

No ano de 1919, Fideralina sucumbiu à febre denominada baliarina, pandemia que assolou o mundo depois da Primeira Grande Guerra, a tantos vitimando nos sete continentes. Tomázia seguiu logo depois, deixando viúvo seu Antônio Pretinho, que ainda viveria tempo mais, responsável por filhos, netos e bisnetos de numerosa prole, fiel contador dessas histórias.  

Passados alguns anos, o vaqueiro alucinou de todo, se afastando por completo do convívio social. Nos seus delírios, repetia vezes sem conta as palavras que escutara na noite em que transportou os haveres da matriarca:

- Faz roda, Lourenço. Faz roda, Lourenço. Faz roda, Lourenço - ocorrência testemunhada pelas pessoas que, nessa época, o conheceram. 



Muitas tentativas se promoveram na intenção de achar esse rico  depósito, contudo até hoje não existe notícia de alguém dele lançar mão, persistindo intacta a lenda de quase um século.    

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