Vem de longe esse gosto de conversar com os outros elementos que não sejam nós, os humanos. Ver, considerar, quem sabe?, um diálogo possível, imaginário, da gente com algum dos componentes dos palcos, das peças, numa pretensão talvez desencontrada do que andam dizendo neste mundo. De objetos em seres que também tenham de viver, contar de si e despejar nas circunstâncias os dramas soltos nos instantes das aventuras. Quase, por certo, tipo os animais, só que nem esses ainda participam tão intensamente dos sóis aqui em torno. Olham, padecem, analisar, sem, no entanto, trazer daqui quais narrativas lhes caberia preencher os bornais da imaginação.
Mas há disso desde sempre na consciência de menino. Ficar demorado na observação das alimárias que percorriam os terreiros, as estradas, o chão. E nisso o que pensar, pois, das histórias escritas, contadas nas valhas noites do passado. Saber, decerto, pela metade, aquilo que ficou guardado no quanto existe do furor dos acontecimentos. Aquela roupa folgada que se largou pelos cestos das horas e jamais regressou a procurar. Tal qual tantos abandonam leves amores em nome doutras pretensas aventuras errantes. As canetas deixadas ao relento das ruas, nas atitudes ingratas dos que delas tanto necessitavam logo ali antes uns poucos passos.
Bem isto, de contemplar longas paisagens e depois esquecer lá dentro dos muafos de quantas certezas de há muito deixadas de lado. Nisto, feitos senhores da ingratidão, semeiam dias e dias no coração das pessoas e as desmancham a meio dos trastes e viagens. A verdade, no entanto, fala mais alto, desvenda leis incontáveis no coração das criaturas, transformando-as em pequeninos seres ingratos, arrevesados. Todavia percorrem os trilhos das lendas aonde eles próprios hão de retornar e se deparar consigo na inevitabilidade dos olhos acesos.
Nesse diapasão da continuidade, dali renascem os sonhos, a vontade de encontrar tantas vezes o filão do Tempo, avô das humanidades, artesão do imprevisível, espalhado pelos universos que tudo sustentam e determinam.
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