E esse travo no coração, bolo alimentar de chumbo quente entalado à altura das costelas superiores, como é que fica? Essa fome doida de não sei o que, quando e onde, caminhar dolente de camelos metálicos nos ombros da gente, como fica, meu amigo? Aí de mim, aí de ti, aí de todos nós, nessa mesma noite escura das delícias, de tantas lanternas apagadas nos portos ausentes e barcaças e marujos bêbados. Sombras vagando no cais de nevoeiros fantasmagóricos, envoltos em bruma pegajosa, espessa, imune ao bafio glacial de harpias envilecidas sobre as pedras toscas de paredão que cresce no horizonte, ao barulho de outras aves noturnas, angustiosas.
Depois, intensas ondas teimam
quebrar numa praia vazia de amores, em rodopios constantes quais vôos cegos
dentro da sala antiga dos pesadelos sem lua. Ela, mimada, bonita feita flor,
saia rodada, bordada de sol, cores profusas, num tudo neutro da adolescência e
seus amores incertos.
Aos ouvidos dispersos, novenas
cantadas de afastar espíritos tentadores, cantilenas rezadas com gosto amargo para
proteger a santidade rara dos santos, raros propósitos firmes de corações fervidos
na caldeira vadia das paixões sem jeito. Tabiques rompidos, defesas quebradas a
ferro e sangue, na encosta escarpada dos roteiros da alma, penhas de ilhas
desertas, filmes vivos do inconsciente audaz.
Quantas vezes haverá sonhos de
justificar o frio corrosivo das noites solitárias e dos leitos desfeitos de
amores mortos? As lutas internas, intermináveis, dentro do território do tórax dolorido,
na ganância de justificar o desejo nas ânsias espasmódicas das máximas culpas.
Sem deixar viver o ritmo da festa
do sol no coração, palmas calejadas do herói agarram quais dentes agressivos o
mastro negro do barco e se enovela ao cântico das sereias, em romance de
estrelas cadentes... Monge encapuzado, apavorado com as vestais em dança frenética,
invade a cela sobressaltado às horas de sacrifício, num esforço titânico, a
concorrência da busca dos céus, e quer, a todo custo, persistir na peleja do
paraíso em queda livre.
Ameixas doces vagueiam no plano entre
a língua os dentes, desmanchando vontades eróticas, embate ardente do amor feérico
com as ilusões desfeitas. Fugir sem vislumbrar caminhos nítidos, rolar pelas
encostas do mistério e deixar escorrer os dedos através do pomo profano da
discórdia.
Há horas sobressalentes na
parcial angústia, enquanto exóticas visitas envolvem suas tetas quais jóias de
prazer e somem manhã afora, no vento, derretidas ao sabor da alva. Trocas desleais,
injustas, do eterno pelo fugidio. Olhos arregalados observam a urgência das
atitudes, rolando esquálidos, tapetes dourados estendidos sobre as pedras reais
do Calvário.
Nisso, farrapo de pele, cabelos,
carnes salpicadas em sangue, suspende a silhueta lacrimosa da saudade, abraçado
a si próprio, espectro tardio que some no longe da paisagem viva que resiste
nas dobras de tempo refeito do dia eterno.
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