quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Paisagens do Inconsciente


Lá de quando a gente se pega a lembrar do que nunca viu e jamais conheceu. Dos lugares aonde em tempo algum pisou certa feita. Dos céus estrelados de quantas luzes de onde chegam tantos e poucos sabem deles. Dessas músicas a vibrar no coração, que vivem soltas nos quadrões desse Universo intempestivo. Campos abertos da alma. Surpresas em movimento que falam de tantas línguas e as quais raros compreendem o significado. Dos momentos que, de tão inebriantes, somem sem deixar vestígios pelas sombras e lembranças. Isto das horas em superposição a conviver nas dobras dos infinitos, distantes e absortas na própria ausência do que hoje sejam.

Deste sempre disforme a que buscar consiste em sobreviver na lama dos destinos. Lastros enormes de verdades acesas dentro da presença que dela ainda impossível seja ter conhecido de tudo. Luares inesquecíveis, todavia apenas rastros de duendes e fadas grudados nas velhas dores de antigamente. Algo tal qual a surrealidade em gestos imperceptíveis de quem adormeceu e foge da presença, espécie de aventureiro ingrato da sorte. Conquanto desvendar a que vieram já esteja escrito nas alturas, tais humanos seres sustentam o barco do instante nas fibras do coração. Há florestas inatingíveis, porém. Ser-se às margens dessas estradas onde ali convivem todos, pacientes de jornadas profanas à procura da luz no íntimo do Ser. Querem, sim, avistar mais adiante, mas afeitos aos gestos limitados de paixões antigas, laços de desejos apressados. E vivem, sobrevivem ao custo de memórias desfeitas.

Portanto, de palavras e gestos, nessa busca incessante, disto resulta rever histórias inolvidáveis que foram a razão de habitar nas existências dagora. Transitam nas frases e nos parágrafos, em cenas infindáveis dos passados agregados ao firmamento azul. Ficaram insistentes aqueles cinzéis das doces certezas que ora alimentam o trâmite do desconhecido e transportam na pele o poder de aqui permanecer.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

As máquinas humanas


Lembro o filme 2001, Uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick, quando os astronautas, em viagem interplanetária, utilizavam essencialmente os equipamentos eletrônicos naquela viagem a bem dizer impossível em tempos dagora. Cumpriam à risca as funções de navegar no espaço lá distante, porém dependiam sobremodo do uso ideal daquelas engrenagens sofisticadas, nível profundo de conhecimento, no entanto a exigir rigor no manuseio dos tais instrumentos. Quando, determinado instante da película, se observa espécie de conspiração cibernética a pôr em risco o seguimento da missão.

Isto quando, visão pessimista daquilo tudo, põe às claras o avanço tecnológico e suas imaginárias consequências. No entanto, há de viver-se outros conceitos, outros resultados. Bem ao modo das aparências do que possa vir a ser, os humanos de hoje já utilizam meios técnicos de inimagináveis resultantes. Qual o quê, traz à baila severa dependência a fatores ora vários da Ciência, do existe no desenho que significa extensa margem de implicações relativas ao momento civilizatório.

Espécie de reconfiguração da própria identidade da raça, vistos conhecimentos formados sob princípios que envolvem técnicas, mecanismos, fórmulas, aprimoradas em âmbitos reservados, secretos, disso vem à tona existir mundo à parte. Linguagens cifradas através de avigoramentos exclusivos, meios outros que não a pauta comum, exercitam, destarte, poderes inaccessíveis aos olhos medianos da massa, deixando-a submetida ao inesperado da cena.

Isso que foge ao lenitivo da espécie e já transita noutras dimensões. Superpõe, talvez, determinações acima da cidadania meridiana. De certeza que existe e permite, inclusive, a sobrevivência de tantos e do sistema em si. Domínio soberano de raros, oferece os saberes necessário, contudo, ao seguimento da Civilização. Ao crivo de tais significações, mesmo assim persistirá sequência inimaginável de acontecimentos. Ao que antes se consideravam inteligência, ora supõem até artificial, numa hipótese de ser algo além da origem pura e simples da memória e do raciocínio de criaturas aqui viventes. Todavia, a grosso modo, o inesperado cria suas asas e novas vertentes, e compreensões bem que devem vir a exercitar o senso da perene realidade.

domingo, 26 de outubro de 2025

Além da sobrevivência


Enquanto imagens se sucedem nos rochedos da memória, longe vivem os extremos desejos de continuar, até depois do próprio tempo. Nisto, são noites e dias que encobrem a claridade e marcam o senso dos que insistem conhecer outros estados da matéria, ou da energia, tais fossem. E, face a tanto, padecem estados de consciência por vezes dolorosos, enigmáticos, razão de muitas apreensões. Farejam, quais entes apreensivos, as folhas secas largadas ao furor da velha História. Mergulham nas superfícies até então conhecidas, mas duvidam sobremodo de si, feitos seres doutras dimensões, por certo.

Daí as filosofias dos destinos. Uns admitem existir, num desafio dos dramas que têm de defrontar. Já outros usufruem das danças siderais de quantas aventuras, na crosta do mistério, olhos abertos aos sonhos, porém. Múltiplos conceitos vagam, pois, pelas praias do Infinito e nelas os elementos que revelam essa inexistência fortuita. Amargam ou desfrutam de prazeres sem conta, numa velocidade a bem dizer imaginária.

Depois de experimentar o sabor dos séculos, apenas aceitam iniciar as outras notas daquilo largado pelas vilas e cidades, soberanos das ilusões de nascerem e sumirem. Estejam fieis à solidão ou repastos de multidões irreverentes, descem aos abismos da ausência e dali só contemplam, vez em quando, as telas do desaparecimento, deles, puros senhores da passividade.

Vistas numas poucas narrativas, essas impressões do movimento de objetos e sentimentos distinguem com facilidade o que poderia resumir a jornada desses atores das perdidas desventuras. Querem, de certeza, cruzar a linha entre os dois mundos, matéria e espírito, contudo sob a fragilidade das horas intermitentes. Refazem o percurso, isto passados que foram os gestos revoltos desde longas epopeias. Convergem de tudo, e, na sequência, observam o itinerário ao sabor da distância dos peões desse tabuleiro que se desfaz ao sabor dos séculos.

Talvez em vista disso, a inevitável resposta sempre supera todos roteiros traçados na pele dos cactos fincados à sombra dos vultos, em volta de tamanhas indagações. Superpostos, assim, cientes do poder que possuem, dormem tranquilos às luzes das manhãs que nunca param de vir de origem constante.

(Ilustração: Picasso, Paisagem do Mediterrâneo).

sábado, 25 de outubro de 2025

A escrita livre

Qual entrar numa loja de variedades, assim se escreve. Prateleiras imensas de passados, raciocínios, conceitos, histórias guardadas de muitas formas, isso aflora e dali vêm as palavras. Há um trânsito de pessoas, sons e movimento de máquinas, enquanto as lembranças envolvem a vontade, e, em seguida, aparece o desejo de querer, dalgum modo, contar a alguém que seja, até a si mesmo, talvez. Quase a perder de vista, um tudo invade a compreensão, donde são recolhidos trechos dos mais variados matizes.

Numa busca de interpretação daquilo que interessaria ao momento da escrita, desfilam desde filosofias, místicas, vivências das outras épocas e experiências, numa busca sideral do que possa chegar aqui e trazer frases, parágrafos, imagens. Nisto, tal quem escolhe entre os peixes colhidos de uma rede, põe-se de lado alguns, maiores, de interesse, e deixa de lado aqueles menores e dispensáveis.

A gente interpõe visões recentes do mundo em volta; a lua nova que já apareceu no céu desta noite; o ritmo da caminhada donde chegou recente; os traços no céu de final da tarde; a escuridão, que principia envolver o mundo lá fora; daqui; dali; então surgem réstias do tempo, mínimos rescaldos de dentro e de fora, a formar os esteios dos textos na consciência, e o gosto de pautá-los dalgum jeito.

Ainda que tanto, enxergar os espaços entre as letras e as palavras já descreve o gosto de quem preenche as páginas. Espécie de mania de querer criar motivo de transmitir os quadros da memória, isto resume o que seja o instinto de transcrever, nas folhas em branco, o que nos apresentam os pregões dessa influência que domina os escribas inveterados.

Perante esse vazio das horas que somem rápido, escrever traz consigo o nexo de procurar respostas do quanto esteja agora acontecendo, e suas falas silenciosas, ouvidas naquelas travessias do espírito, sempre ao impulso de ir a algum lugar, que seja, por certo, à presença de um leitor desconhecido.

(Ilustração: Microsoft Copilot).

Natureza indomável II


Para quem imaginou sem dúvida vir dominando a força dos elementos naturais, o Homem suporta com denodo as marcas impostas pelos efeitos inesperados que advêm nos instantes menos previsíveis da sua história.

O que resta considerar em face de situações desse tipo é que há muito para se ser auto-suficiente em termos de controle das ocorrências geológicas, no que pesem as pretensões tecnológicas a que chegaram os povos, a lembrar conceitos clássicos chineses, onde Lao-Tsé afirmava: O céu e a terra não são humanos. Não têm qualquer piedade. Para eles milhares de criaturas são como cães de palha que serão destruídas no sacrifício.

Isso a título de reflexão, neste fim-começo de mais outro longo giro do Planeta em sua órbita na rota do Sol, intérmina jornada que o mistério das eras circunscreve há milhões de anos sem fim.

Enquanto as sociedades parecerem esquecer dos valores originais da simplicidade, num turno de práticas insanas, vaidosas, ilusórias, algo, porém, indica possibilidades no querer de tantos atores que adotam posições de comando, a proferir definições coerentes de utopias renovadoras.

A dialética fundamental identifica os dois fatores estruturais da realidade possível; de um lado, entes materiais, no meio dos quais os seres e os objetos; do outro, idéias e sonhos, a formar a base única do pensamento lógico.

Nesta reflexão, portanto, a esperança de reinterpretação da virtualidade desse mundo, quando a lição da dor pressiona a corrida acelerada do ter em forma de destruição, desprezados conceitos solidários do agir coletivo, nalgumas nações distantes ou próximas.

A saída de um ciclo anual determina pouco, quase nada, em termos de querer decidir a continuação das velhas práticas, nos meses posteriores. Apenas matricular em novas séries resume a atitude usual de pais e filhos, de memória curta, que guardar pouco dos conhecimentos recebidos, conquanto, mais hoje, mais amanhã, entregar-se-ão nos braços fatais do egoísmo de grupo, nada além do que exercita a grande população que cresce em almas que se expõem aos inevitáveis fenômenos dos dias indiferentes.

E que os sonhos da melhor felicidade sempre iluminem a consciência de todos nós, seres humanos!

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Artimanhas do inacreditável


Há uma pendência crônica entre estar e permanecer, distender os limites da existência até o Infinito, numa sustentação a bem dizer impossível. Contudo, essa verdade insiste alimentar a certeza, desde longe, de quando poucos ou nenhum nisso imaginava. E percorriam as veredas dos animais pelas sombras de árvores imensas de uma floresta monumental. Pois sim, disso vivem as criaturas, todo tempo. De imaginar o seguinte e usufruir dessa imaginação. Construir palácios no ar e, contentes, viver de tanta oportunidade.

Longe, porém, de reduzir a conceitos a cinzas, eis o senso do quanto existe durante eras infindáveis, e que continuarão eras a fio. Supor, e respirar as consequências disso. Criar longas lendas, no auge da compreensão, e deitar sobre os lençóis de certezas ainda individuais, não definitivas, a perfazer construções da consciência no repasto de crenças e leis.

Bom, o que demonstra essa força humana senão o exercício da história do que contam a si mesmos e aos seus, vidas e vidas?! Dessa distância intransponível entre os seres persiste a compreensão dos ora existentes. Nalgum momento, lá adiante, se sujeitarão a supor outras versões do quanto existe, no entanto, a pisar num solo ainda pegajoso das lamas do que antes contaram uns aos outros.

O peso de tais significados impera no íntimo de todos, neste salão das maravilhas daqui da Terra. Parceiros do auto anonimato, perduram, outrossim, horas sem conta, a descrever territórios profundos de dentro das visões pessoais, enquanto sustentam o desejo sem conta da imortalidade. Isso, um mergulho na alma, o que corresponde às narrativas do encontro de pessoas e pessoas, neste mundo vário. Sabem de si tanto quanto dos demais, vistos durante algum tempo, e depois viram só memória e canções e livros e salmodias.

Na luz desse entendimento apenas o limitado acontece, no claro-escuro das visões em que constroem os castelos da esperança, da fé e de tantos nutrientes das civilizações, isto até, quem sabe?, outras novas existências e ficções serem aqui estabelecidas, no solo de uma realidade pura.

(Ilustração: O herói por excelência, de Arnóbio Rocha).

Mundo virtual


Vem deles, dos sentimentos acumulados. Desde as mínimas atitudes inesperadas de muitas civilizações. Pergaminhos que ficaram grudados na memória e agora falam disto. Ver-se de dentro e observar o tempo lá de fora, suas inúmeras histórias e os transes acumulados pela Eternidade na pele desse abismo. Isto na face de todos, cativos e senhores, muares e leoninos. Espraiados pelo extenso deste chão, observam em volta e decodificam à sua maneira o mistério das vidas. Descem e sobem os tronos. Vadeiam pelas ruas e praças. Juntam milhas e metais, sempre afeitos aos antigos desejos da humana presença. Nisto, transcorrem as gerações, o que, inclusive, bem poderia denominar esta fala, as gerações.

Contudo, na mesma força de querer, resta o poder dalguns criar a própria sina através dos espaços entre seus dedos. Viajam o mar da sorte e, por vezes, apenas aceitam descobrir outros destinos nascidos de dentro deles mesmos, dessas criaturas exóticas. Sem mais, nem menos, dentro em breve o inesperado sujeita guiar as intenções de paz em películas cheias de surpresas, porém quase nunca ao gosto das pessoas envolvidas.

Esta a realidade que predomina nos dias atuais. Superpõem palavras invés de argumentos e esquecem do que lhes dera origem. Tais autômatos sujeitos a ser deles instrumentos. A força das matemáticas portanto corresponde ao tão sonhado progresso destes pequenos seres. Foram muitas lendas a circular as mentes que geraram o estado momentâneo de expectativa, no entanto.

Quer-se compreender, por isso, a distância infinita dos sonhos e possibilitar as novas definições do discernimento. Mergulhar nas águas turvas do inigualável e desvendar as portas dos sentidos feitos meros joguetes de mágicos discernimentos. São marcas e marcas deixadas no lombo dos paquidermes hoje só donatários das tantas capitanias, autores dos variados trilhos dessa jornada incomum. No roteiro das possibilidades, então, seguem-se os passos dos que aqui passaram nos inícios, sobreviventes dos períodos geológicos e das camadas superpostas da fama e dos argumentos. As razões desses invernos seguem, pois, preenchidas de antigas hipóteses inscritas no tempo.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

A ordem do Universo


Dalguma razão haveria de ser desse equilíbrio que a tudo preenche, a força viva da Natureza. Quisesse, doutro modo, que assim não acontecesse, a quem demonstrar tal intenção?! Disso, o princípio intransigente e a soberbia da ignorância de muitos. Daí a inevitabilidade do quanto existirá desde antes e aos olhos acesos dos que andam neste chão inesgotável dos acontecimentos.

No mais, a pura experiência de existir que ora se confunde com a liberdade, a realidade, o sonho. Rebanhos sucessivos de videntes padecem do mesmo instinto de sobreviver a qualquer custo. Cercados da imensa cratera do inefável, removem, pouco a pouco, restos de si próprios dessa lama cósmica aonde querem chegar lá um tempo desses. Quais seres assustados da sorte, porém vaquejam noites a fio na ânsia do definitivo.

Enquanto isto, a Lei impera extática, percuciente, dadivosa. Espécie de sistema coeso, magnânimo, permite que caos acorra, porém sob o crivo da arrebatação dos destinos em voga. Nada, pois, consiste doutros motivos senão destes, de uma força superior a quaisquer formações. Sob o critério dessa obediência, deslizam no Infinito alimárias e objetos, quadro a bem dizer dantesco de quantas expectativas criadas no vácuo do pensamento. Cores, formas, sons, conquanto pequenas gotas do espaço e das horas superpõem o inexistente e definem desejos de eternidade apenas trazidos da imaginação desses entes superpostos.

Ainda, e por demais, persistam desvendar todo mistério; ser-se-ão minúsculos instrumentos de longas epopeias, dagora e para sempre. Nisto, a finalidade última das circunstâncias, durante o trilho das ilusões em contraste, vivem, sobrevivem e esperam. A que superpor face ao panorama inatingível de todas as gerações, serem autores e protagonistas de roteiro magistral, em vista de resistir a provas intermináveis. Perante, pois, plano de igual finalidade, se pressupõem livres, em respeito de real certeza à perfeição espraiada aos céus, palco este de tamanhas realizações.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Quando ali diante do espelho


E pensar-se a ver tudo transcorrer aos próprios olhos e permanecer extático, impassível, fruto do inesperado de todo momento. Observar, sonâmbulo, face às circunstâncias desta vida, credos, lendas e fantasias. Enquanto o tempo em fogo invade lentamente o silêncio das horas, qual furtivo parceiro das mesmas histórias então esquecidas.

Isso de contemplar os acontecimentos e neles reconhecer o limite das atitudes, meros autores de sonhadas ilusões do que seja observar a solidão e dela usufruir derradeiras miragens. Esses, os espectadores da sorte, ali metidos em trajes esquisitos, suspensos nos braços da distância e senhores do quanto existe nas abas do Destino avassalador.

A imaginação do que resta apenas envolve de luzes o estirão das histórias deixadas que foram à margem dos sonhos. Nisso, vêm os acordes sucessivos das manhãs inigualáveis, tangidas pelo Sol. Em si, as mesmas indagações do quanto habita as criaturas em volta. Tais parceiros de igual compreensão, fixam nos céus seus instintos e desejos, cercados das longas epopeias desses que aqui estiveram e hoje nem de longe se superpõem ao deserto das ausências, nas distâncias e nos suores das quantas lutas.

No meio do clamor das inúmeras criaturas que ouvem tão-só o ruído abafado de pássaros a voar nos oásis sem fim, são agora habitantes fugazes, portanto, dos abismos infinitos, e vagam apáticos pelas trilhas de antigas aventuras, audazes que sobreviveram à inexistência.

Em contemplar o véu que cobre de furor a solidão individual, desvendam, passo a passo, o mistério disso tudo que lhes tritura uma aparente inutilidade. Esquálidos, no entanto, sabem do quanto houve de singular naquilo onde viveram suas vidas a fora. Daí, na intenção de revelar a consciência, aceitam as contradições de que foram parceiros e reclamam da clemência do Infinito para consigo, vez desconhecer profundamente as razões de ter chegado até este lugar e ainda continuar em via das novas estações. 

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

De algum lugar há de vir


Isso das palavras, que nunca param de preencher o vazio do tempo e dividir a realidade em duas. Uma que seja interna, a da razão individual; e outra, atônita, distante, livre das contingências e senhora absoluta do quanto e onde existe. Aspectos distintos do Universo, pois, as criaturas pensantes, e os atributos em torno, quais determinações cósmicas do Destino.

Superpostas assim, mais parecem descrição inolvidável dessas lendas espalhadas nas literaturas, no entanto que pesam a ponto de determinar a que sejamos componentes de um quadro em formação. Longas noites, longos dias, e pensamentos e palavras que mergulham no passado, sem desaparecer de todo, porquanto há de se dizer serem as vozes constantes da mente de cada ser. Eles, tais figurantes de misteriosas crenças, nisso divagam aqui feitos escravos e senhores da imaginação, e transportam vidas e vidas.

Depois, logo ali, vêm as histórias pessoais que sustentam os frutos da vontade e do desejo. Querem, n todo custo, fazer valer essa vontade surda de preencher os instantes das marcas indeléveis que alimentam os feitos e as feras famintas diante do caos e do desaparecimento inevitável.

Talvez face a tanto quer-se disso achar o prisma da realização de ideias e atitudes, espécie de vultos sombrios de romances largados nas estradas em volta. Todos que alimentam o gosto incessante de constar das listas eternas do Infinito, na salvação de tantos e de tudo. Destarte, autores das configurações desse futuro em voga, deslizam pela encosta dos séculos e fazem das horas o palco da própria inexistência.

Ser-se-ia, nisto, tais resquícios do mistério em movimento através de mil gestos da ausência, quais esforço descomunal de alguém afirmar nas criaturas a razão do quanto persiste deste sempre tão sonhado. Eles, nós, entes exponenciais de uma verdade que acontece interminavelmente através dos tantos que estejam neste Chão das almas. Porquanto a ciência dos céus conta conosco a todo momento, numa parceira dadivosa da felicidade em flor.

domingo, 19 de outubro de 2025

Revolução da Consciência


Tanto se falou até hoje em transformar o mundo e poucos disseram do quanto necessário será a própria transformação. Nisto, livros e mais livros são escritos desde sempre. No entanto, a urgência dos tempos fica por conta de reverter os quadros sociais e ocupar os lugares, intenções pessoais que prevalecem nos projetos em andamento. Incentivam a paz e saem de armas em punho. Alimentam sonhos e criam disso pesadelos sem conta. Quando, na verdade, há, sim, real significado no que importa acontecer neste chão, porém vindo de dentro das criaturas humanas, longe das ânsias só materialistas. Nesse mergulho interno chegar-se-á, lá um dia, no auge das possibilidades.

Que mais que nasça de mim? Quais meios de reverter um quadro aparentemente histórico, dantesco, indefinido? De tanto esforço a chegar noutros lugares que não os assim desejados, ver-nos-emos face a face conosco mesmos qualquer dia desses. De propagar o senso dos destinos, a Humanidade resolve, então, desvendar as malhas íntimas da consciência. Passados foram tantos e tantos séculos e agora se distingue a importância de interpretar o mistério no seio das individualidades.

E narrar essas aventuras espasmódicas despejadas pela História, quantas intenções foram desfeitas nos impuros agregados de pessoas e grupos, espraiados nos roteiros dos filmes de antigamente... Nem de longe atenderia o gosto de achar as abas de verdade no que nos aguardam as gerações infinitas.

Há que haver, na essência do ser humano, a tal descoberta de um novo ente que refaça o trilho onde largaram as ilusões políticas, sociais, quais fossem meros agregados de sortes várias. Desvendar de si o segredo das descobertas e construir um mundo novo. Equilibrar as funções da Natureza de que somos partes fundamentais, que a isso aqui viemos, pois. Espécie de interpretação do drama coletivo, um a um eis a missão. Não só de matemáticas vivem os seres, porquanto doutras sementes eles vieram e existem.

(Ilustração: Uma casa abandonada).

sábado, 18 de outubro de 2025

Saber-se assim


Desde seus primeiros encoros, vemo-nos quais entes diversos, no entanto sob as condições de uma única cápsula perlustrando os firmamentos da consciência. Seres sem tamanho ou individualidade. Espécie de desconhecidos entre si, no entanto que padecem dos mesmos dramas, vivem idênticas alegrias e sobrevivem às sórdidas experiências desses eus estranhos dentro do picadeiro da fama. Nem que nunca previssem, lançados estejam no coreto das horas. Observam os idênticos espetáculos e teimam nos instantes de avaliá-los, porém. Um ao lado de outro, nos vagões constantes do definitivo. Transitam pelos iguais corredores, olhares furtivos, dentes afiados e lividez nas presenças insanas. Tudo o que tal signifique, longe, outrossim, das idênticas formações e coerências da sorte.

Eles dois aqui conosco passo a passo, nessa longa estrada dos dias. Seres que quais, órgãos e sonhos, todavia meros desiguais a voar soltos pelos céus desse infinito universal. Durante as atitudes eis que se veem no campo da igualdade, e têm de responder aos desafios em uma pátria livre. Ambos senhores de si e das respostas às próprias atitudes. Eu comigo mesmo. Em bloco casado de um mundo mercantilista, hão de responder a todas ações que lhes couber iniciar.

Daí o termo merecimento, ou justiça efetiva do quanto haverá quando e onde destarte acontecer. Nem de longe, dado este acasalamento efetivo, ninguém é dono e exclusivo da passagem dos dramas semelhantes. As escolhas, por isso, significam parceria aonde isto vier a ser, nalgum lugar das ocorrências, pois. Em mergulhos continuados, quiseram o espaço livre de coexistir, impossível de vir à tona só pela simples pretensão; vindos lá do Inconsciente, território livre dos desejos.

Andarilhos das estradas do silêncio, de uma a outra hora surgirá diante, dos dilemas já abertos, as muitas histórias destes seres que tanto, fruto da união dessas duas metades, exercitam as individualidades. Bem dali surgirá, eco inesquecível da real finalidade, o quanto aqui persistiu dessa desunião, segredo afinal do quanto existiu até agora.

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

A certeza do tempo


Há lembranças soltas que nos percorrem o juízo, isto sem motivos aparentes. Quais assim nos víssemos à margem de uma estrada onde passam sucessivos comboios de objetos e pessoas, num vai-e-vem constante. São pensamentos e sentimentos, por vezes agrupados ou sozinhos, tangidos dalgum jeito qual seja. Nisto, a convicção de que existe esse fator determinante, a conduzir as histórias, independente doutras opiniões ou determinações.

Dalgum modo fica presente, indefinidamente, esse fator inextinguível a produzir essa estabilidade sobre o que nos vemos e tudo, enfim, e também persiste initerruptamente, o tempo.

Lembro bem doutras horas, lá na infância, quando presenciei saírem de casa rumo a lugar distante três irmãs de meu pai, na fazenda onde vivíamos, em Lavras da Mangabeira, aqui no Ceará. Aquilo tocou em mim com profundidade sem par. Algo ininteligível à época na mente de uma criança. Pude revê-las décadas depois. Mas as marcas deixadas de então ficaram por dentro de minha consciência qual exercício inexplicável de raciocínio. Tanto que ainda hoje, de vez em quando regresso ao instante, sem saber interpretar as ausências de tantos e de tudo que nos some num abrir e fechar de olhos, repondo tão-só lembranças esparsas em substituição.

Daí, são as músicas, os livros, filmes, ocorrências fortuitas, pessoas, num fluir inesperado uns dos outros a fugir na imensidão. O esforço de preservá-los chega às raias do absurdo, com quantas recordações feitas de homenagens, nos museus espalhados pelo mundo. Numa função quase a se dizer absurda, isso consiste no empenho de somar as frações dos instantes e criar novas linguagens que as pudessem consignar numa suposta e aparente eternidade.

Mas, é o tempo a percorrer as visões neste mundo a fora. Espécie de reação talvez provisória, vêm as saudades que tocam os corações, vidas e vidas. Fruto, pois, das ausências que pairam tão fortemente nos que habitam este chão, no mínimo se dispõe da certeza de habitarmos seções insoladas em nós mesmos, no entanto envoltos na magnitude de um fenômeno maior a dar sentido às existências e possibilitar novos dias e nossa evolução hora dessas.

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

A outra identidade


De comum, vivera quantas experiências o mundo deixara que pudesse e lhe ofereceu. Nascera na carne; curtira a infância interiorana; claudicara na adolescência e na idade adulta; sendo esta onde conhecera de perto as raízes das contradições humanas. De tudo, a bem dizer, lançara mão, desde viagens astrais a sonhos químicos fantasiosos, noitadas indolentes, trançados e pergaminhos dos quatro quilates do Chão. Tivera fases sucessivas, lera livros, vira filmes, ouvira canções românticas, constituíra família, reunira filhos e netos, e exercera funções públicas, além de criar produções artísticas, desde literatura às artes plásticas.

Desajuizado, talvez, quantas horas percorrera os caminhos tortuosos de uma sociedade sempre afeita ao imprevisível e aos espetáculos noturnos. Dessa loteria onde vivera, dali vieram as interpretações. Umas, classificando a si e aos demais, na balança do impossível e dos prazeres sem conta; doutras, apenas de pequenos entendimentos e compreensões. Conquanto se conheçam, quase a ninguém assim seja. Então, ele, certa feita, num final de tarde, graças aos elementos da natureza em volta, lá foi que avistou, num transe, percorrer o céu em voltas repetidas, a contemplar do alto aquela paisagem esverdeada a viajar sobre o vale da Serra e avistar a imensidão em um voo de pássaro grande.

Passou, desde aquele dia, a considerar fosse doutro canto que não desse. Outro ser, que não aquele ora vivendo. Algo, por certo, fruto de imaginação fértil, ou do exercício de transcendência, ou estresse dos tempos atuais. Veja só, alguém a preencher um papel neste chão e supor haver vindo de outro espaço que não esse, e estar cumprindo roteiro tão-só provisório, qual ensaio do que poderia lhe acontecer logo adiante, a qualquer tempo.

Sob quais conceitos, certa noite avistaria nave sideral a lhe invadir os olhos e os pensamentos, a revisar a consciência e definir essa recente interpretação. Ele, de pronto, quedou-se noutro papel, sendo, daí, outro protagonista em nova condição, e se viu, pois, recebido pela equipe de bordo daquela composição, nisto esquecendo de vez e de tudo quem fora, o que vivera, largando à margem o que cumprira naquele ente só provisório, nisto deixado atrás, num abrir e fechar de olhos.

Mais que dizer, ficaria sob o domínio dos que acompanharam a narrativa até agora, em face da necessidade pura e simples de revelar isso, uma troca absoluta de identidade, verificada naquele instante inesperado.

 

De repente, enquanto caminhavam e conversavam, apareceu uma carruagem de fogo puxada por cavalos de fogo que os separou, e Elias subiu aos céus em um redemoinho. 2Reis 2:11

O instinto da busca


Antes, falar um pouco da pretensa liberdade, aquilo dos sonhos dos ficcionistas, dos aventureiros e místicos. Andar ao relento e viver de mistério ao pé da letra dos desejos. Isto de que se sabe quase nada e nada seja. Muitos, a não dizer todos, padecem da vontade insana de continuar, por vezes até de regressar ao passado e revear o senso dessa procura, desfeitos aos sóis. Mesmo que tal, no entanto, tocar adiante o impulso das horas através de quantos existem. Viver, praticar o fenômeno vida com as próprias mãos. Isso do indiscutível que se transporta nos laços das virtudes de ser.

E pensar-se livre, no entanto. Padecer dessa fome constante do domínio de si, porém face a face com o Destino. No uso das palavras, o palpite vem à tona. Ser-se-á concorde ao inevitável, contudo. A gente defronta o cruzar dos firmamentos e avaliar ter de sustentar as alças da vida aos olhos invisíveis da sorte.

Gosto disso, de abordar a urgência de conhecer o que virá em seguida, conquanto nada imponha e tudo haja de acontecer a todo custo. Foram séculos de filosofia a descobrir tanta verdade exposta aos sabores do vento. Todavia, o verbo cria asas e sobrevoa as lendas, donde vêm os facínoras e os heróis, sob rajadas e circunstâncias. Desfazem-se de igual jeito. Padecem de histórias semelhantes. Revelam os caminhos abertos e, em seguida, os desprendem do roteiro, cobertos que foram pelas malhas do definitivo.

São as cores desse painel de aventuras que contam o segredo de mundos inexistentes, e aqui oferecem as refeições do cotidiano. Saberes, viveres, tronos e cavernas, folhas espalhadas ao Infinito, cada vez mais. Nisto, os protagonistas tão-só imaginam o poder de haver criado quaisquer possibilidades. Depois, ausentes que sejam, outros céus cobrem o espelho e pensamentos, e virão o silêncio na alma das criaturas humanas.

terça-feira, 14 de outubro de 2025

As imagens e as palavras


A bem dizer numa distância infinita elas vivem umas das outras. Mas o espaço é que persiste  aqui desde sempre. Ao dizer isto, nalgum lugar  se formam novas imagens e nascem novas palavras. Vive-se disso, portanto, de um dizer sem conta ao largo dos rios do Universo e suas paisagens estonteantes. As próprias horas nisso desfazem seus cantos, suas pulsações. E em seguida refazem  no tempo o instinto de existir, de sonhar quando assim não acontece de seguirem adiante, porém. Palmilham ao Sol e regressam a outras galáxias na mesma intensidade das existências. Em contraste ao silêncio, sobrevivem diante do presente, nisto construindo imagens sem conta, feitas de formas e cores, letras e fôlegos.

Descritas  tais possibilidades, agora resta tão só o ser em si, no deserto imenso de tudo que há e haverá. Nós, a junção desse nada e tudo, em movimento na crosta do Infinito. Expostos às ausências constantes dessa fagulha de estar aqui, sorriem, contudo, aos olhos do definitivo e, por vezes, qual padecem desse motivo original. Longos transes acontecem no pequenino território das almas,cobertas de verdades antes desconhecidas.

Saber-se-á, decerto, aonde reviver esses sonhos inigualáveis de quantos ligados a existir sem propósitos nítidos. Sustentam a lâmina do mistério de contar as histórias ou as aconchegam ao coração. Foram tantos em surgir e desfazer-se em luzes que gritam o sentido disso pelos nos céus e, de uma hora a outra,  mostram a hora da sobrevivência definitiva.

 

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Vozes da noite


Tempos de tantas histórias, e só agora refeitos noutras imagens em movimento. Enquanto isto, nota-se aumento sucessivo na velocidade dos dias, ou nos veículos acelerados que percorrem as avenidas lá fora. De longe, sons esmaecidos preenchem de vazio o silêncio, algo assim dominado de alguém escondido nas esquinas do Universo. Nisto, tantas perguntas querem reaver o crivo dos destinos e pedem justificativas vindas dalgum lugar desse infinito estonteante, misterioso. Busca incessante, pois, de explicações desde sempre. Elas contam das respostas guardadas a sete capas sob ruínas largadas aqui nas ilusões enfurecidas. Estes mesmos seres que ora observam já foram eles próprios doutras vezes, nos princípios. Palavras. Encontros. Lendas. E uma sequência infinita de tais semelhantes a andar soltos na atmosfera dos lugares, eis o resumo deste tudo que ora somos.

Ao somar as quantas versões deixadas no sítio donde viveram, são meros fragmentos desses sonhos e aventuras sem conta que bem desejariam identificar na realidade, porém. Andaram, andaram, até chegar ao mesmo lugar e nem de si se reconhecer do tanto que ali existiram, de tocar tantas vezes, mais e mais, a verdadeira consciência que hoje são. Uns dizem carecer dominar os instintos e transformá-los em essência. Outros relembram as muitas visões do Paraíso que trouxeram consigo e, em seguida, as deixaram esquecidas no passado, enquanto cuidavam dos afazeres mil de sobreviver. Há o que saber, no entanto, disso daqui, pelas luzes da visão.

Habitantes, por isso, do vale das sombras, acreditam escolher a melhor parte e continuam a jornada rumo a isso que os alimenta de viver. Escutam essas vozes vindas de dentro e sustentam a certeza das heranças que supõem transportar na alma. Reflexos desses sintomas inigualáveis de onde procedem, nisto iluminam a imensidão e silenciam, também, as dores que antes significavam estar e partir, ao mesmo tempo.

(Ilustração: Hieróglifos egípcios).

domingo, 12 de outubro de 2025

Outras visões do Paraíso


Isso de persistir aonde rever tantas criaturas espalhadas ao firmamento resume seus significados. Às vezes, feitos de nuvens. Doutras, seres só prisioneiros de tempo e espaço, porém assustados e ariscos. Enquanto as nuvens formam castelos de sombra, os seres olham atentos o que possa acontecer logo no momento seguinte. Ainda que tanto, sustentam as hastes dos céus de modo talvez esquisito, por demais, ou em sórdidos e repetitivos gestos, séculos a fio.

Guardam consigo uma saudade, no entanto. Asseguram vir de um território neutro, onde viveram a luz da consciência e adormeceram sobre as largas aventuras dos cavaleiros andantes. Vivem quase de jeito repetitivo seus ritos sequenciados, a colher histórias que os alimentam dias e dias. Vêm daí as ditas civilizações. Criam instrumentos letais e seguem à procura da sorte nos campos de batalha do horizonte de depois.

Eles, quais criaturas errantes, entes limitados no quanto viver neste chão, sabem sobejamente dos extremos a que se submetem. Mesmo que quanto, de novo esquecem de si e plantam os restos de esperança nas fibras do impossível. Fossem, pois, avaliar cada período da História, teriam de outrora as quantias gastas em perjúrios daqueles protagonistas que preenchem de dor o solo dos contentes e desmancham as ruínas da ilusão com as próprias unhas.

Bom, decerto de aventuras e consequências vivem esses seres. Buscam o que já dispõem nas abas de si, velhos segredos que carregam nos campos afora. Sabem dentro da relatividade do que existe, porém afeitos a sonhos inesperados de mistérios os mais esquisitos. Daí, nascem afoitas palavras, sem limite, feitas de fagulhas dessa fogueira de estar aqui e haver de ser, a qualquer custo.

Bem isto, máculas em movimento pelas trilhas do Destino. Contam, portanto, as fantasias que compõem o quadro onde caminham, o que chamam determinismo. Quando saíram de lá já traziam no íntimo o roteiro completo dessa epopeia que hoje praticam, sábios autores da humana compreensão, todavia parceiros do sentido que aguarda, até trazer de volta a paz do que deseja.

Gustavo Barroso

Havia chegado ao Colégio Diocesano naquele mesmo ano de 1959, quando passara no Exame de Admissão ao ginásio, provindo do Ginásio São Pio X, que, então, oferecia apenas o curso primário. Desde cedo notava a personalidade forte de Padre Montenegro, o diretor do colégio, sempre em movimento pelas salas e ligado aos acontecimentos em volta, que chegaria a mais de 50 longos anos de serviços prestados ao ensino cearense. E naquela manhã do dia 07 de setembro, me chamara a ficar ao seu lado no palanque armado na sacada do Diocesano, no alto das escadarias, defronte à Avenida Duque de Caxias, esquina com a Rua Nélson Alencar. Dali presenciaríamos o desfile cívico-militar alusivo ao Dia da Pátria.

Conto isto porque ao nosso lado, naquela manhã ensolarada, estava Gustavo Barroso, emérito escritor cearense e amigo pessoal do sacerdote. De estatura elevada, moreno forte, calvo, alegre, trajava terno cinza claro e desenvolvia animada conversação com seu amigo e diretor da minha escola. Na ocasião, eu, menino de dez a doze anos, tive oportunidade de ser a ele apresentado pelo Padre Montenegro, junto de quem estávamos. Só mais adiante conheceria algumas de suas obras, hoje clássicos da literatura cearense, quando vim a saber que naquele mesmo ano Gustavo Barroso iria completar seus dias aqui conosco. Agora, lembro com respeito o raro momento de haver visto de perto tão destacada presença, pessoa reconhecida e respeitada nas letras da Língua Portuguesa pelo quanto realizou na pesquisa histórica e etnográfica da nossa gente.

...

Gustavo Adolfo Luís Guilherme Dodt da Cunha Barroso  (Fortaleza29 de dezembro de 1888 - Rio de Janeiro3 de dezembro de 1959) foi um advogadoprofessormuseólogopolíticocontistafolcloristacronista, ensaísta e romancista brasileiro. É considerado mestre do folclore brasileiro. Foi o primeiro diretor do Museu Histórico Nacional e um dos líderes da Ação Integralista Brasileira, sendo um dos seus mais destacados ideólogos. Wikipédia

sábado, 11 de outubro de 2025

Estes seres magnéticos


São eras sem conta. Vivem soltos pelals selvas vastas da inspiração e padecem de uma fome constante de se alimentar de si mesmos. Tem de tudo nesse meio onde vivem. As alturas significam, a bem dizer, de um padrão quase absoluto, porquanto querem, mas não conseguem, tocar as profundezas dos céus em cima, no azul. Mas observam demasiadamente essa outra vontade extrema de ultrapassar a Era Cósmica que eles inventaram certa feita, na década de 60 do século passado, e notam haver transmutado em cinzas a necessidade disto. Vadeiam no vento em volta e desfrutam da temperatura das estrelas. Criam animais doutros portes e fogem daqueles maiores que têm presas afiadas e que pensem menos, quem sabe?

Quais seres esdrúxulos querem crer se amar na velocidade das paixões, todavia fazem disso meros romances a vender nas feiras ou nos festivais cinematográficos, além de propagá-los nos festivais de música, de tempos em tempos. Fixam ideias e as desenvolvem na medida dos calendários, sempre acesos, pelas frestas do Infinito. Muitos, muitos, acham-se espalhados por vários continentes banhados de rios e mares. Desenvolvem máquinas de transmitir conhecimentos, porém no meio dessas transmissões pululam iniciativas funestas que machucam de arder o coração da espécie.

Ainda assim descrevem sítios maravilhosos de beleza rara, relíquias, talvez, a serem descobertas lá em futuras escavações nos outros tempos que depois. E pedem clemência aos deuses pelo furor dos instintos que os prendem à consciência em flor. De inteligência por vezes surpreendente, gostam de veículos acolchoados a rodar em pistas caras, cercados de admiradores e futuros clientes. Quanto é bom gostar de ser que tais, espalhados ao vento de tardes primaveris. Acordes suaves das suas canções marcantes as conservam na alma no desejo ardente dos amores inesquecíveis, do que tanto falam e mentalizam.

Por isso, pelas inúmeras experiências dessa espécie surpreendente, edificam castelos valiosos a sustentar os sonhos de chegar, alguma vez, ao país das luzes que saboreiam ao continuar aqui de olhos fixos num futuro quiçá melhor, logo ali sob o fruto das consequências do que estejam realizando agora.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Esse eu de antigamente


Outro dia, passava na minha mente as presenças dos que insistem andar pelas ruas da cidade apesar do tempo transcorrido das suas histórias aqui, e que foram embora. Fossem ver de certeza, algo acontecera e lhes arrastar dali e que disso nem soubessem, ou não quisessem saber. Nisto, vejam só, entre aqueles também me avistei, mas noutra formulação, a carregar velhas angústias de ser lotado das apreensões lá no passado, desde impaciência de aguentar o que lhe acontecia, independente da minha vontade e dos poderes humanos da ocasião. Aquele seria, (quem sabe?), uma criatura diferente por demais do que hoje sou, nesse instante. Aquele nutria outras histórias, vindas, por certo, dos muitos livros lidos, filmes assistidos, pessoas, amores, saudades, ansiedades a todo o custo e um furor de habitar algum canto desse chão naquele eito.

Quis dele me aproximar, no entanto, sendo quase repelido, a não dizer ignorado. Vivia na própria pele pensamentos de Sartre, Camus, Hemingway, Kafka, Bergman, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Manuel Bandeira, Érico Veríssimo, Machado de Assis, um turbilhão de autores, diretores, dúvidas, personagens, incertezas mil espalhadas pelo vento em volta. Lá dentro dele, um ente raquítico, apreensivo, escondido nas sombras da infância, de afetos raros e interrogações exacerbadas.

Busquei, sem me achegar por demais, reviver o lado bom daquilo tudo, porém qual estrangeiro de mim mesmo, num outro que não mais fosse aquele ali. Sentar juntos, é cogitar, no entanto, de assuntos raros, nem de longe semelhantes aos que ambos pudessem contar então. Outras lendas, novos cenários, uma existência que de nada houvesse de haver entre eles dois.

Mesmo assim, hoje revivo a tal figura daqueles instantes arcaicos, suas vivências, contradições, desassossegos inúmeros, em forma de gente. No meio deles, o véu preto e branco da distância no tempo das duas gerações; duas criaturas exóticas. Ainda que tanto, o reconforto dos reencontros. Vozes vindas tais ecos de florestas imensas, desfeitas em névoa e sonhos. Ele, não mais este eu de hoje, contudo vagas sementes de esperança dalguma transformação no percurso, neste mundo tão vasto de interrogações e ruídos metálicos. E nisto, grata surpresa, em algum se admitem possíveis amigos, conquanto nenhuma outra alternativa viesse à tona naqueles instantes esquisitos de acreditar nos universos de dentro, além dessa igualdade avassaladora do que só agora somos.


quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Pelas ruas da cidade II



O que mais me surpreende é reviver tantas e tantas lembranças ao passar nos mesmos lugares onde antes andei. São muitas as cenas, muitos os personagens; as mesmas histórias que, ali, dantes, aconteceram e as presenciei, ou vivi. Sem tirar ou acrescentar, vejo nisto memórias, trançado de figuras conhecidas lá dos idos anteriores, que agora fincam os pés naquele chão onde pisaram. Nisto, lhes acompanham os desdobramentos, as situações; por vezes ingratas, talvez. No entanto, persistem, ainda que, decerto, hajam seguido a outros planos de depois. A cidade permanece viva desde sempre nalgum lugar das presenças, relatando, horas a fio, os enredos, quais filmes já exibidos nas salas de projeção dali de perto.

Quero crer ser assim com quem insiste andar pelas ruas das cidades onde, noutros tempos, viveu suas ocasiões de estar aqui. Nisto, o que mais espanta são elas, as pessoas que foram continuar ligadas à gente, a uma espécie de sobrevivência de qualquer custo.

Dentre elas, estão amigos, conhecidos, tipos populares, criaturas preservadas nas entranhas, tais habitantes doutros momentos e também destes. Nessa memória viva estariam todos e suas contrições. Viventes perenes daquilo que foram, entranhados pelas vestimentas do tempo ficam existindo. Conquanto se pretenda achar só perante esse contingente de visagens, nos veem indiferentemente, em um arremedo calcado na ausência de, nem de longe, pretender serem avistados por quem quer que seja.

Independente, pois, da estação em que isso ocorra, às vezes cresce no íntimo impressão de ser desse jeito que passam as gerações, e que, apesar das contingências já terem preenchido as paisagens das épocas, delas ficaram a bem dizer daquilo proprietárias inalienáveis.

Porém sinto essas marcas consistentes dessas tais pessoas vagando nas calçadas, nas praças, lugares outros, fantasias em movimento incessante na alma dos seres dagora. Basta apenas fixar os entremeios de casas, comércios, e o traçado das ruas e, dali, os intérpretes doutras ocasiões se fazem presentes sem a menor cerimônia. Quiçá fruto das recordações, dos estilos e sentimentos, cores, sons, fisionomias, daí, na constância dos dias, insistem permanecer e morar lá dentro de cada um que ora exista.

(Ilustração: chat.mistral.ai).

Um tema qualquer


Desses que rodeiam o mundo ao calor das tardes ensolaradas e ferem de vontade o gosto de contar as histórias inéditas do cotidiano; ver as palavras se sucederam quais bichos esquisitos e sumiram no azul dos céus. De quando tudo acontece e quase nada parecer guardado nas margens deste rio, isso numa velocidade a bem dizer imperceptível, que, no entanto, devora os acontecimentos pelos dentes do mistério inevitável. No sítio das vontades o abismo se reveste de tantos afazeres, de antes, e brisa suave parece dizer muito mais daquilo que grita no silêncio, nessa imensidão do quanto anda em volta.

Ali estejam, pois, detalhes sem conta, os tais senhores da liberdade tão só contemplativos ao ritmo do Tempo, criaturas quase inexistentes. Nisso, vem o instinto de sonhar acordado e permanecer de olhos fixos na ausência constante e devoradora. Multidão inteira de quais seres minúsculos, porém, transforma em ruídos mecânicos as horas e desfazem caprichosamente, na força bruta, o que ainda restava nos transforma pouco a pouco imperceptíveis.

Face ao lastro imenso de solidão, conduzem seus barcos rumo ao desconhecido e aceitam de bom grado viver assim. Sei que alimentam virtudes e as fazem crescem copiosamente. Superam desejos e os transformam em fome de viver. Criam, sobrevivem, destroem, construindo logo em seguida, a destruir outras vezes. Talvez cruzem, certa feita, o Infinito e faça dele pequenos instrumentos de sopro. Refaçam novos filmes daqueles que viram lá antigamente. Sustentem o impacto das eras no próprio peito e suspirem fundo, a todo momento, na certeza de seguir a Estrala da Manhã.

Nesse vaivém da sorte, pois, a isto vieram e agora acreditem, além do que nunca, nas verdades que os alimentaram desde sempre. Sim, imbatíveis heróis do firmamento, autores de obras monumentais, astros e estrelas de películas inesquecíveis. Quanto penhor isto de permanecer intactos perante dores e desafios, outrossim cobertos de andrajos e glórias, mas sementes de uma consciência pura, lá um dia.

domingo, 5 de outubro de 2025

As muralhas azuis do Infinito


Marcas foram deixadas lá fora pelos derradeiros viajantes das estrelas, o que hoje são rasgos profundos na superfície de toda criatura que resistiu. Traços a bem dizer definitivos das luas que percorreram nos céus suas entranhas ressurgem, vezes sem conta, nas crateras das consciências. Pedem refúgio às normas do esquecimento e apenas fixam os olhos nas histórias contidas pelas forças do Tempo.

Isto do quanto existe dentro das criaturas, ora transformado em razões de estar aqui, perguntar por si mesmo, juntar os motivos que lhes trouxeram desde então, faz deles seres talvez deixados no mistério das espécies e submersos neste oceano de possibilidades, nas perguntas mil das luzes em movimento. Porém mínimas ausências que persistem naquilo que restou das tantas horas, a ferir de vivências os sons das almas absortas.

Estes que tocam adiante o destino e sustentam planos de felicidade... Motejadores daquilo que antes foram, só assim persistem nas próprias recordações, a fazer disso o senso da presença que conduzem. São muitos, infinitos, por certo, em vultos a deslizar pela superfície dos mementos. Falam vozes arrevesadas, dotam as paisagens de cores surreais superpostas, no desejo de continuar. Criam farpas nos corpos, nas escadas onde avançam a duras penas. Enquanto, ao sabor das visões, apenas distinguem a Eternidade nos entes que sejam e se assuntam de tantos sonhos.

Destarte, entre sentir e permanecer, escutam a música do vento, conquanto saibam muito mais daquilo que ouçam. Isso de guardar as gravações do que houve e viveram define a valer o critério de todos quantos existam. Conservam no íntimo a tonalidade das palavras, os dias passageiros e essa vontade instintiva de permanecer grudados nas abas do Infinito; quisessem, todavia, merecer tal sorte. Ninguém há que escute com clareza plena o ritmo das estações e abrace a leveza de responder às interrogações que transporta ao preço de sobreviver.

(Ilustração: copilot.microsoft.com).

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

A que é que se destina


Se é que se procura alguma coisa... Isto no frêmito das horas, pelas jornadas, enfim, aonde se chegar lá um dia, eis o instinto de
prosseguir a qualquer tempo. Essa a impaciência de obter algo que nem se sabe o quê. As razões de estar aqui na face desse chão das almas, em lugares estoicos, por vezes ásperos, porém sem os limites da inconsequência. Nós, quem quer que seja, então, fragmentos de memórias. Astutos perseguidores da sorte. Aventureiros do mistério. Parceiros abismados de todos os destinos que andam soltos pelos ares. A que é que se procura?!

No entanto, bem que tais, senhores abismados de quantas loterias, tocam o rebanho às próprias interrogações, aos grilhões do Infinito. Olhares a dentro, todavia audazes buscadores das hostes definitivas, espalhadas aos sóis do anonimato. Num instante, por isso, vêm à tona... as indagações consequência das falas das entranhas, gritos pertinentes de causas e justificativas dos gestos quiçá insanos dalguns, no rol das atitudes e dos impulsos do esquecimento.

...

Espécie de buscadores desses objetivos das existências, nunca há de ser tão só espasmos vários o que de quanto acontece nas tantas ocasiões. O rastro disso marca o que lhes traz até aqui o trilho da existência. Um lastro fabuloso de variações, de desejos, que impossível ser-se-ia apresentar motivos que as justifiquem, contudo.

Foram muitas histórias desse personagem inesperado a contar de uma raça aos pedaços de séculos. Encher-se-ia de letras a face do Planeta e mais houvesse de oportunidade a dizer o mesmo tanto. Daí as incontáveis aventuras pelos dias e lugares, na constância do movimento dos afoitos criadores de sonhos. Pisam, sim, as hostes do passado, porquanto ainda não visitaram o futuro. Em acordo consigo, todos vestem o traje do inevitável e tocam adiante o pendor da irreverência. Pisam, correm, voam... Depois, do quanto existe, param ao pulsar dos firmamentos e adormecem nos braços fieis de um sono em profundidade.

(Ilustração: Camille Pissarro).