terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Um mundo feito de palavras

 

E nos intervalos, de vez em quando surgem as criaturas humanas encapuzadas nos destinos ignorados. Meros seres feitos de carne, ossos e sangue que assustam uns aos outros, feitos visagens doutras histórias ainda em período de incubação. Longos disfarces cobertos de súplicas invadem, destarte, o teto dos instantes e deixam escorrer novas ideias. Tais disfarces compõem o espelho das alturas, desmancham, lentas, as horas sem fim e preenchem de visões disformes a longa imensidão do cotidiano.

Assim transcorre o prisma das noites imaginárias, a meio de um movimento, pela escala do Infinito. Blocos intermináveis de compreensão publicam suas lendas esquecidas nas salas das cavernas escuras aonde chegaram multidões inteiras. Trazem consigo esses equipamentos recentemente desenvolvidos de comunicação. Refazem os mesmos segredos antes guardados no furor das outras civilizações, e adormecem contritos sob o fogo intenso da dúvida.

A bem de se pensar, seriam eles os imaginados heróis lá de longe, desde o início da grande caminhada rumo ao Eterno. Secundados de extensos desesperos em não conhecer tudo neste caminho, agora padecem do quanto houveram de atravessar, nos intervalos acesos dos romances, contos, filmes e novelas, aquilo que pediam os termos desse acordo coletivo que os compõem. Porquanto perguntar a quem, ninguém a de responder com tamanha facilidade se não eles próprios. Talvez encontrem dentro de si justificativas plausíveis, contudo, dotadas de puro desassossego vindo das indecisões dos que construíam as naves dessa viagem exótica sem maiores justificativas de rumo certo.

Face a isto, eis o momento ideal no patamar das estruturas, enquanto permanecem num tempo de relativa paz, porém cercado dos instintos da raça afeita aos apegos da matéria. Padecem, pois, dos contrastes transpostos desde sempre, no seio da fome da espécie. Olham o trilho desse estado atual feitos pedaços dos passados que arrastam a fora, na velha fúria dos antigamente. Nos transes inigualáveis das oportunidades, fitam o mistério e sustentam os arcos do desejo de ser feliz algum dia, outrossim.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Ecos do inexistente


Bem assim de tudo que se conta ouvem sons enigmáticos dos quanto existem em torno de pessoas e lugares. Ainda que tanto, pensamentos e palavras conspiram nisso, à cata de responder dalgum jeito o espectro imenso ali diante das horas, tempos a fio. Conhecem da distância entre saber e compreender, vadiam na sombra dos astros e depois adormecem nos braços das ausências do quanto perpassam seus gestos e expectativas, no entanto. Eles, restos do que virá certa feita, somem no abismo do Infinito quais meros acordos de silêncio e dúvidas firmados eternidades incontáveis.

Há, no entanto, territórios inteiros dessa fronteira do conhecido e do inconsciente nas criaturas humanas. Sobejas vezes vão de encontro às lendas, na formação dos mitos que a isto determinam versões temporárias espalhadas ao sabor das histórias pessoais. Conquanto parceiros do que perdura na face de uma aparente realidade, só destarte ponderam desenvolver nítidas interpretações; daí o caudal sem fim das filosofias e dos grupos. Que transcrevam mistérios sem conta, porém dotados unicamente das avaliações parciais de mentalidades e tradições.

De olhos abertos, pois, multidões inteiras vagaram no correr do Tempo e nem sempre trazem de si uma real certeza desse itinerário já definido entre viver a permanecer, no decorrer das gerações. Sei que carregam consigo aquilo do que avistam lá a qualquer tempo, outrossim assustados do poder apenas imaginário de desvendar segredos e destinos. Perseguem os sóis da mais intensa luz, de consciências acesas aos gestos da verdade absoluta. São diversos aqueles sonhos do quanto esquecidos nas vitórias e domínios. Um a um, todos emitem relatórios talvez sinceros, todavia condicionados a ansiedades em voga no jogo dos poderes, nas fases que viveram.

Deixemos, entretanto, definido a contento esse instinto original de sobreviver, na sequência dos acontecimentos inevitáveis. Saber dos segredos deste Universo de que somos peças e alimentamos de esperança, toda vez que conosco de novo aqui nos reveremos.

sábado, 31 de janeiro de 2026

O princípio dos opostos


Nem de longe haver-se-ia de avistar qual seja um sem o outro, dois complementos inevitáveis, tanto do Mal quanto do Bem, vez trazerem ambos em si a própria sombra. Nesta, a base do quanto existe, porquanto existir a isto significa. Contudo, tais divisores desse duplo conhecer, dois universos, bem ali o Ser persiste. Essa paz que vem de dentro, na linguagem das criaturas, seres outros que buscam definir a compreensão e reconhecer o trilho donde anote viver sem consequências e interpretar essa linguagem. Até nem carecer julgar, demanda o mistério das vidas. A isto, tantas histórias individuais e o transitar do Tempo através das criaturas. Daí vagar entre passado e futuro a braços com o sentido único do quanto perdura, nas eras a fio.

Frutos disso, nascem as interpretações, filosofias, crenças, à cata incessante de respostas ao drama da Criação de que somos parceiros privilegiados do nexo do Absoluto. Perante uma simplicidade universal, veem consciências em movimento na face do Sol. Luzes, atitudes, pensamentos, e instrumentos vorazes das horas, na forma de pessoas e gestos.

Talvez outras versões descrevam o código das muitas existências, porém apenas dentro delas impera esse poder dalgum dia revelar o destino das almas durante os séculos aqui realizadas. Com isto, advêm os quantos significados e denominações, justas falas e nomes que justificam tanta procura, no decorrer dessa epopeia inexplicável a céu aberto e termos próprios do que possam contar.

Conquanto parceiros originais do Cosmos, preenchem crivos imensos de aventuras e transes pelos corredores sem fim, deuses em ação mesmo palco das verdades eternas. Sei que duvidam disso, vez em quando, porém aceitam de bom grado que assim aconteça. Heróis do firmamento, tão-só dispendem o sentido desse furor que lhes domina, e abrem os olhos a quantas providências que imperam no íntimo das certezas em revelação.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Uma realidade imaginária


Cada um que tenha a sua realidade. Cercados doutros seres, objetos e circunstâncias, criam em demasia previsões e plantam flores. Superpõem motivos e neles montam quais beduínos nesse deserto de fantasias constantes. Vagam. Suspiram. Viajam pelo mar sem fim das próprias dúvidas. Daí refazem noutras cores o que lhes resta e avaliam cumprir determinações desses outros territórios imensos das horas. A grosso modo, não vivem, encenam que vivem.

Bom, disto já se sabe a valer, conquanto parceiros, e assistem as mesmas montagens deles nascidas e projetadas nas telas de um suposto infinito. Além de que, nem sempre satisfeitos e querendo mais e mais dos trastes do Destino. Reclamam. Perduram. Insistem. Artesões dessas estruturas metálicas dos pensamentos, percorrem dias inteiros à sombra do anonimato refeito a cada gesto. Filmes sucessivos, incontáveis, despejados nas valas dos instrumentos que manipulam, que logo ali somem ao clarão dos sóis inesperados.

Quer-se dizer, no entanto, ser assim, no entanto ao sabor da perfeição do imediato, porquanto bem aceito no correr das gerações, transformado em narrativas inigualáveis, ao gosto em voga. Um retrato do que seja, a cara de um mundo de festa, descem e sobem os estrados do teatro monumental das residências de fadas e duendes, olhos fixos nas próximas cenas. Pouco, ou quase nada, satisfazem público feérico, passageiros das velhas histórias trazidas e dos gestos deles mesmos, senhores das quantas luas, autores admiráveis de tanta aceitação. Transitam a meio de tudo nos limites do lugar onde moram, nem sempre fieis aos princípios da certeza, porém dotados de prazeres a todo instante.

As palavras são suficientes de contar suas epopeias deixadas no itinerário até então percorrido pelos corredores das existências. E quantas vezes refazem os dias, surge dali a atividade intensa desse movimento iluminado da criação de si mesmo.  

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

O domínio da vontade


Misto de ilusões com liberdade, voeja nos céus da Consciência esse poder maior que tange o mundo, a vontade dos seres. Querer ir e permanecer. Pensar e imaginar. Nutrir e desaparecer. Todos, sem exceção, que sustentam em si o Destino no andar das contingências, no lastro das imensidões, um afã sobremodo constante, porém sustentado pela força invisível de existir. Desde os menores entes, quer-se acreditar em seguir tal e não qual direção, por mínimos que sejam. O mesmo que aqui escolher pensamentos e palavras, e trazer o silêncio horas a fio no pomo da exatidão de um querer sem conta.

Austeros comandantes dessa instrução de viver e fazer sentido, escorrem nos traços do Infinito aparentemente inúteis atitudes, motivo de transcrever as histórias vividas e contadas. Espécies de objetos da própria essência, por vezes padecem doutros sensos e vomitam visões exacerbadas pelos porões da sorte. Nisso, inscrevem nas entranhas a finalidade do que decerto gostaria de ver acontecer.

Isto percorre os mistérios das individualidades, que jamais esquecem o transe de permanecer junto dos outros, no entanto silenciam a luta íntima de instante a instante. Daí, ninguém saber a contento aquilo guardado nas razões que lhes transportam ao desconhecido. A bem dizer, um composto do que pretendem e os desejos escondidos nos escombros do passado, de onde escutam o trotar das noites e padecem, no decorrer das madrugadas, a saudade e os desejos.  

Ao correr de quantas luas, resta patente a indagação de quem lhes domina, se não a vontade, o instinto de continuar à luz dos firmamentos. Dotados, pois, da condição inevitável de tocar em frente as dúvidas, só assim constroem seus monumentos, máquinas e terapias, tudo com a matéria-prima do inesperado que rasgam os hemisférios no furor de justificar mecanismos deles, nascidos no deserto da fama.

Além de que, vêm os números e suas narrativas em determinar o fervor das aventuras aqui largadas nos desfiladeiros do que antes transcorrera através dos fios da ausência desfeitos na correnteza dos dias que hão de vir a qualquer momento.

(Ilustração: Centro de Artesanato Mestre Noza, de Juazeiro do Norte CE).

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A capela do sítio


Lá onde nasci, no Tatu, ao lado da casa distante uns 50m, ficava a capela; possuía todas as características dos templos católicos, dotada de torre, sino, altar, sacristia, e era zelada com imenso carinho pela minha avó Lídia, mãe de meu pai. Sempre que possível, recebia a visita de algum sacerdote, quando oferecia missas, novenas, bênçãos, procissões. Ao presenciar as movimentações religiosas, que quase sempre ocorriam, eu, ainda bem criança, ficava a imaginar de que se tratava tudo aqui, algo falava na minha imaginação dos valores dessa busca humana pelo inefável da espiritualidade, o que me acompanha até hoje.

A abnegação de cultuar os valores sacros daquela gente permaneceu comigo em uma busca doutros padrões de consciência que enlevem à compreensão maior o que seja a realidade e o que fica de conhecer perante a Eternidade.

Depois, já em Crato, morava conosco Tia Vanice, irmã de minha mãe e freira do Silêncio, ordem criada ao tempo do Papa Pio X, que não adotava o hábito tradicional das religiosas das outras ordens. Acompanhou durante nossa infância, minha e dos meus irmãos quanto à formação religiosa. Nisto, aprenderia a rezar o Pai Nosso, a Ave Maria e outras orações cristãs, além de fazermos o Terço todas as noites antes de dormir. Vivenciávamos, assim, bem de perto, a formação de nossa família em sua tradição católica.

Só com o tempo, depois de palmilhar outros conceitos, inclusive do materialismo e da indiferença quanto espiritualidade, atravessaria épocas de indiferença a qualquer credo, de fases anarquistas, passando, inclusive pelos transes das substâncias psicodélicas e do álcool.

Já mais recentemente, décadas adiante e de muito percorrer essas vastidões de pensamento, chegaria ao espiritismo kardecista, o que me fez conhecer os conceitos de imortalidade e reencarnação de modo intenso.

Após maiores estudos no que tange esse viver religioso, guardo comigo desde os primeiros sinais de culto e dedicação ensinados por minha mãe em seu fervor constante que rendia forte devoção mística aos santos e aos princípios de fidelidade e amor pela família, isso desde que me entendo de gente.  

(Ilustração: Centro de Artesanato Mestre Noza, de Juazeiro do Norte CE).

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Portais da Consciência


Na antiguidade já falavam nisso, da possibilidade doutros lugares aonde poder despertar a compreensão do quanto existe em definito. São inúmeros os sinais espalhados pelos tempos a dizer dalguma alternativa diante do quanto persiste, anos a fio, o transcorrer dos acontecimentos espirituais. Vislumbrar outros meios de encontrar o próprio ser, face aos impasses dos sonhos de virtude, meios que signifiquem algo de duradouro, constante, a preencher o pomo da significação de estar aqui. Achar esse recanto aprazível da perenidade dos valores maiores.

Enquanto isto, perlustrar intemperanças na crosta do vento, ora felizes, noutras indecisos, inconstantes, incompatíveis. Quiçá, grosso modo, meros artesões de perspectivas por vezes às avessas conquanto imperfeitas, assustadoras, a saber aventureiros do Destino que se sejam eles. As inscrições pelas paredes dos labirintos descrevem bem esses sonhos insistentes quais como que sonâmbulos nas concepções, a vagar nos instantes, austeros, armados, ferrenhos. Autores parciais de si, porém afeitos ao imprevisível das ocorrências fortuitas.

Ao compasso das interpretações tão-só parciais, vislumbram alternativas por demais, nascidas do íntimo dessas mesmas criaturas. Criam teses, desvendam fórmulas mágicas, esperam nos serões das madrugadas, nas vidas, o despertar de um centro que lhes habita desde lá longe na existência. Convergem aos sentidos das cores, dos sóis, numa busca perene de novos inícios. Anseiam viagens fantásticas, descobertas territoriais, suaves mergulhos na alma, até substituir aqueles critérios até então caudais imensos de esperança trazidas consigo.

Sei que tateiam na escuridão desse tempo parcial de aventuras e romances alimentados de alternativas humanas que se desfazem ao compasso dos dias. Quando menos esperar, eis a postos os que assim vivenciaram as conquistas no âmbito invisível. E vêm, narram demasiado partos de iluminação, depois guardados nas sete capas da História. Sejam muitos, panteão de transcendência aos planos superiores. Em contrapartida, os que deixam este aqui persistirão à procura do caminho avassalador da Luz, na super-humana consciência, pois.