De comum é assim, ao escrever vemos de dentro o mundo lá de fora. Disso, vêm os enredos, temas vários, observações do quanto existe ou existirá certa feita. A forma de abordar fica, no encargo, dos autores em voga. Restringem os gestos e os desenvolvem, pondo-se na função de quem desvenda universos à parte. Os meios, as palavras e o leitor, estes seus elementos. Conquanto usufruam de aparente liberdade nesse ofício, há que sustentar o interesse dos que leem, a escolher padrões trazidos pelos tempos e costumes. Aquilo de autonomia que pudesse ter ao produzir vira condições inevitáveis, se é que pretende chegar a algum lugar no que faz.
Noutro extremo, existem os que escrevem a seguir instintos,
inspirações, vindos sei lá de onde. Daí, imaginar, de vez em quando, que as próprias
palavras têm vida e autonomia por si, e sujeitam coagir perceptores a fazer o
que a elas esteja de bom grado. Desde então, os pretensos criadores passam a meros
intermediários de roteiros vindos das luas do tempo e do espaço. Assim, tais avaliações
circunscrevem diferentes aspectos, pondo em xeque, porém, a decantada autonomia
dos escribas.
Nalgumas vezes, quem seria o autor defronta a condição de
mero protagonista naquilo que traga à tona, neste mar enigmático. E invés de
autor passa a espelho doutra condição de ser. Nisto, reflexos doutros
argumentos que não aqueles a que se propôs na cena anterior. Algo compatível ao
desejo profundo restrito aos percalços de novas determinações aleatórias. Senhores
de si apenas em teoria, enquanto dalgum lugar advém fixar nas letras o fervor das
imaginações que não a sua.
Eles, os autores, sabem por demais de tais circunstâncias. Aceitam,
contudo, perante a força dessa intersecção de deles consigo, numa convenção vinda
no gesto de transmitir. A penetrar nesse universo insólito, vislumbram paraísos
os mais distantes. Rendem, destarte, graças a poderes originais vindos dalguma
dimensão além dos céus que avistam agora.