sexta-feira, 27 de abril de 2012

Quando dói o coração


Destes sintomas que apertam o peito à altura dos ombros e descem comprimindo as costelas no rumo do estômago... Essas mumunhas esquisitas que transtornam a alma escamoteada de solidão e desejos gratuitos da rotina, turbilhão pedindo força para viver... Quando apenas apreciar as belas mensagens de livros e discos, revistas e computadores, conta pouco na casa dos elementos de manter acesa a chama da imensidão... Daí o coração reclama que é uma beleza, e dói de arrepiar a gente, cachorro magro de sofrer.

Disseram que coração não dói, que quando dói chegar a eliminar o indivíduo, rasgando lacunas no seio da sociedade, no rol dos seres humanos, essas coisas das notas indesejáveis, etc. Mas não é, não. Coração dói de verdade nas horas da ingratidão, dos atropelos de última hora, nas contradições dos sentimentos, nas incompreensões, traições, decepções. Dói de tirar o juízo se possível até dos santos. Quando acontece, o caboclo sujeita desatinar, virar bicho, correr malassombrados na mata da Lua Nova. Pedir perdão a Deus e ao mundo, jurar de pés juntos. Gemer sem saber de quê. Perambular pelas estradas molambudos, arrastando restos de mesa, tufos desgrenhados na cabeça, mãos sangrando e suor fedendo num corpo abandonado.

Pois coração dói também diante dos desassossegos extremos, prejuízos financeiros, ressentimentos e surpresas das jornadas. Barracão incontido de mágoas, coração corre perigo e esquece o dever de amar a si próprio, plantar o de comer que é bom e, por vezes, atira o freguês nos muros da solidão multiplicada de bares e presídios.

Jamais, no entanto, esquecer de pedir ao Pai guarnição e amparo nessas ocasiões difíceis... Sacrificar os caprichos no altar da vaidade e acreditar no melhor. Sobreviver aos desafios significa, dessa maneira, dever de todo cristão. Salvar a vida que somos nós, seres ímpares, especiais, estudantes da grande escola da existência. Controlar os impulsos, amaciar o peito no carinho das religiões, nas seivas dos matagais, no canto dos pássaros, nos voos saltitantes das borboletas, das flores, da luz; na consciência da força e da coragem de sonhar para produzir dias melhores; e tudo.

Nas dores ocasionais do coração, brisa mais suave de conformação, de aconchego do Amor em nossas práticas de amizade, alimenta a Fé e a Esperança; tranquiliza este pedaço de infinito que cabe nos sorrisos e nas mínimas oportunidades. Assim, ainda que doa o coração lá certa vez, essa Paz será maior e a Vida se reconstruirá para sempre nos planos do interior, no bloco eterno do Coração, a catedral do Sentimento.     

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