
De todos eles o mais famoso era Noventa, figura folclórica pelo jeito ligeiro de andar, falar e contar suas histórias prenhes de humor fino e malicioso.
Bom, dizíamos, em Crato, naquele tempo, os ônibus do Expresso de Luxo, que faziam a linha para Fortaleza, saíam da esquina da Rua Nélson Alencar ao lado da Praça Francisco Sá, a da Estação Ferroviária... Época quando vieram a Crato Irmã Maria Alice e outras freiras do Silêncio, assim denominadas pela ausência de hábito ostensivo, característica dessa ordem da qual participou
Tia Vanice.
Vieram em visita de poucos dias, conhecer Crato, Juazeiro de Norte e lugares típicos da Região, e nessa noite retornavam para Fortaleza, daí seguindo a Recife, casa de onde provinham e residiam.
O chapeado que transportava a bagagem da freira e das suas acompanhantes, a seu turno, não parecia viver noite das mais felizes quando chegou superlotado de malas e sacos, despejando-os sobre a passarela de embarque. Exasperado, resmungão, grosseiro, ele falava alto, chamava nome feio, respondia ríspido aos que lhe falavam, esbravejava com tudo e todos, bruto de causar espanto, coiceando até o vento.
Apreensiva, Tia Vanice, uma das anfitriãs, meio sem jeito, observou instante em que a Madre aproximou-se do chapeado agressivo, chamando-o fora do movimento e dizendo-lhe baixinho algumas palavras próximas aos ouvidos. Depois daquilo, a calma dominou o recinto aonde circulava boa quantidade de gente, passageiros e familiares, na hora da despedida. O homem terminou de cumprir sua função, recebeu o pagamento, e viajaram em paz.
Porém Tia Vanice guardou o gesto que modificou o astral do chapeado. Lembrou ainda por longo tempo da cena, força persuasiva da religiosa e sua atitude tranquilizadora.
Passados cinco anos, ou mais um pouco, achava-se em Salvador, durante bela festa de homenagem à Irmã Maria Alice, que inteirava meio século de serviços prestados, conquista marcante em prol da educação, da solidariedade... Ótima ocasião de recordar o poder de convencimento da feira na estação de passageiros de Crato... Indagação que alimentara tanto tempo.
Na primeira chance, chamou de lado a homenageada e perguntou-lhe o transmitira de conselho ao chapeado, o que causara efeito mágico de mudar o seu humor, arrefecer-lhe os impulsos, pondo-o de volta à passividade.
Sem maiores esforços, a freira lembrou com detalhes o episódio, inclusive o que dissera:
- Não falei coisa muito especial, não. O que fiz foi mostrar a ele que sua braguilha estava desabotoada. - Daí, ele se afastou um pouco, recompôs o traje e continuou a trabalhar como se nada houvesse acontecido. - Apenas isso.
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