Limpa e aceira o chão, recolhe alguns gravetos na mata, junta blocos de pedra e faz um fogo debaixo da panela de barro, onde põe água para ferver. Essa encenação foi suficiente para atrair a meninada, presença constante dessas paragens interioranas, crianças vivazes e ingênuas, quase sempre despidas e de barriguinha à mostra, de olhos ligados em tudo o que ocorre.
Nisso, Malasartes cuidou de lavar os seixos de pedras esbranquiçados, achados nos lajedões da capoeira, a rebrilhar no sol intenso. Lavou, lavou as pedras, mergulhando-as, em seguida, na panela que aquecia a água ao fogo. E logo veio o garoto maiozinho perguntou: - O senhor que tá fazendo?
- Fazendo uma sopa - resposta na mesma força da pergunta, - uma sopa de pedra. Os meninos se sentiram tocados pelo assunto, para eles novidade moderna. Sopa, conheciam. Mas... de pedra! Que gosto tinha aquilo? Alguém precisava aprender. Daí, como se chamados saíram rumo de casa quintal para contar a mãe.
Conversaram baixinho; depois vierem todos para o terreiro, achegados ao visitante. - De pedra, seu Zé, a sopa do senhor? – indaga a mãe desconfiada.
- Sim, senhora! Quando tem com que, a gente tempera. Um salzim, coentro, cebolinha, pimenta do reino. Quando não, fica que nem agora está. Só água e pedra, que tudo tem lá o seu sabor da natureza. Tocada de compaixão pela carência do jovem, ofereceu os ingredientes, de pronto aceitos com prazer.
- Mesmo assim, o senhor não acha que ainda é pouco? Sopa fraca, sem carne, sem galinha. Cadê a sustança?
- Bom, dona, quando tem a gente bota - rebateu o cozinheiro matuto. Após voltar à residência, a mulher manda vir um quarto de capão, acompanhado de uma porção de farinha.
Nessa altura dos acontecimentos, os garotos enchiam a boca d’água. O aroma do cozido já subia no ar. Tão ligados estavam que nem notaram Malasartes retirar as pedras antes de colocar no prato o alimento saboroso que acabava de preparar.
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(Foto: Jackson Bola Bantim) |
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