sábado, 21 de março de 2026

Viagens ao Inconsciente



Quando sendo a bem dizer uma outra pessoa, ele habita  em algum lugar lá por dentro de todos, isto num afã de liberdade que, por vezes, sujeita causar susto. Isso bem pode parecer oura das ficções dos tantos conceitos. Vem daí as quantas buscas de explicar aquilo presente nos sonhos, nas artes, nas lendas, nas sombras. No entanto, séculos sem conta, prevalece as intervenções de tal ser, qual galáxias exóticas ali vivendo no meio das outras consciências. Espécie de luz da imaginação, oferece alternativas aos andares, diante dos instantes inúmeros a que nem de longe haver-se-á de responder a seus desafios. Uma sucursal da gente mesma a administrar um sem número de situações, limitando, outrossim, as formas de transmitir, porquanto requer algum conhecimento fortuito destas áreas invisíveis.

As narrativas das civilizações transcrevem infinitamente a presença desse agente da Natureza que aqui percorre as entranhas da criatura humana, participando, de modo constante, das agruras, dos contratempos, das aventuras, num inesperado de perder de vista. A melhor querer dizer, os humanos obedecem, então, de modo contrafeito as determinações dessa força íntima. Na vastidão, pois, do fenômeno individual, escutam vozes, avistam transcendências, leem nos intervalos as notas de orientações que lhes acendem profundamente o penhor doutros mundos que existam, doutras dimensões, isto, porém, num transe de causar espécie, visto de nada poder contar, e aceitam trilhos imensos desse protagonista severo, esdrúxulo.

No pisar dos tempos, são segmentos inteiros de humanidade que, de olhos assustados, têm não outro jeito mas o motivo de presenciar aquilo de acontecer. Definem, a título de escolha do inevitável, a sustentação das continuidades, e mergulham em longos, quiçá, pesadelos da eventualidade histórica, cabais respostas de si próprios. Destarte, obedecem aos ditames dos séculos e padecem nas suas garras, sendo isto o que denomina a História.

Horas quantas, há-de se perguntar o que impõe aos povos submeter outros às suas garras, lastreando o passado dessas aberrações que desde sempre reclamam Paz e Concórdia!

 

sexta-feira, 20 de março de 2026

A literatura no Cariri cearense


Há registros antigos dos primeiros colonizadores através dos documentos oficiais de posse da terra, no entanto que fossem literatura no real sentido, isso sem considerar também o modo antropofágico com que o europeu lidou com a cultura oral dos aborígenes, esquecidos que foram da riqueza original daqueles primeiros habitantes que aqui encontraram e dizimaram, a tomar seu território.  Frei Vicente Salvador estuda os momentos da vida colonial, sem, contudo, situar no território caririense momentos de preocupações literárias. Casimiro de Abreu, história. (Ver outros autores primevos).

Em meados do século XIX, aqui passou o naturalista inglês George Gardner, que fixou, na sua obra Viagem ao Interior do Brasil, descrição de Crato, onde passou alguns meses e conviveu com sua população.

Daí vêm as primeiras manifestações que caracterizam o que se possa denominar de literatura regional, já em finais do século, quando, inclusive, surge o primeiro colégio, o São José, depois revertido no Seminário São José, em Crato.

A origem do Seminário São José começa pelo desejo do primeiro bispo do Ceará, Dom Luiz Antônio dos Santos (1861-1881), de fundar em Crato um educandário religioso. Para executar este sonho, Dom Luiz Antônio enviou em 1872 dois padres lazaristas, Guilherme e Antônio, que pregaram a necessidade deste projeto e recolheram donativos indispensáveis para a sua então realização. O Seminário foi oficialmente fundado no dia 8 de março de 1875, em capela e galpões de taipa e palha.  (site Companhia dos Padres de São Sulpício – Província do Canadá).

A criação do citado educandário passa a permitir formação de autores, dentre esses jornalistas, memorialistas, poetas, cronistas, contistas e romancistas, que cumprirão atividades relacionadas à produção de jornais e livros.

Dentre os principais jornais relativos à segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX podem ser considerados diversos periódicos, a saber: O Araripe, O rebate, A ação, Correio do Cariri, etc.

Também nesse meio tempo ocorreram fenômenos da literatura oral, com poetas populares, repentistas de nomeada, quais: Cego Aderaldo, Zé de Matos, Patativa do Assaré, Pio Carvalho (pesquisar os livros de Jurandy Temóteo).

Enquanto a literatura erudita se manifestava, no igual período, através de livros de memória, ficção ou poesia, que permanecem lidos e editados: José de Figueiredo (Ressurreição, Ana Mulata, etc.), Fran Martins (Amigo de Infância, A rua e o mundo, Dois de Ouros, etc.), José Carvalho (O matuto cearense e o caboclo do Pará), Raimundo Quixadá Felício, Antônio Martins Filho, João Brígido,  Manoel Soriano de Albuquerque, Cláudio Martins, Martins D’Alvarez, autores de obras saídas em livros e jornais da época. Joaquim Pimenta esteve no Cariri e faz menção disso em livro seu (!). Ver História da Literatura Brasileira, de José Veríssimo, onde menciona José de Alencar bem nos inícios da literatura brasileira. José de Alencar é filho de José Martiniano de Alencar (?) que viveu em Crato e foi o primeiro Presidente do Ceará depois da Independência do Brasil (?).

Já na segunda metade do século XX, com o surgimento de revistas-livro tipo Itaytera e A província, toma maior impulso a produção literária regional, alimentando a divulgação de textos consagrados da cultura caririense, além de propiciar o surgimento de novos autores. De A província sairiam apenas, no período inicial, três volumes anuais. Já Itaytera obteria sucesso com persistência ano desde o ano de 1955 a 2000, a inteirar, até esse final de século o total de 44 edições sucessivas.

Os próprios fundadores do Instituto Cultural do Cariri, órgão responsável pela edição da revista Itaytera, nas pessoas de Irineu Pinheiro (O Cariri, Efemérides do Cariri e Cidade do Crato), J. de Figueiredo Filho (História do Cariri, Engenhos de rapadura do Cariri, Folclore no Cariri, Patativa do Assaré, Folguedos infantis caririenses, dentre outros), Padre Antônio Gomes de Araújo (A cidade de Frei Carlos, Povoamento do Cariri, etc.), J. Lindemberg de Aquino (Roteiro biográfico das ruas do Crato), Padre Antônio Vieira (Cem cortes sem recortes, O jumento nosso irmão, etc.), Raimundo de Oliveira Borges (A árvore amiga, Crato intelectual, O Coronel Belém do Crato, Reminiscências, etc.), Napoleão Tavares Neves, José Newton Alves de Souza, Zuleika Figueiredo, Jósio Araripe, Eneida Figueiredo, Padre Neri Feitosa, Mons. Antônio Feitosa, Levi Epitácio, José Siebra de Oliveira, Huberto Cabral, Raimundo Pinheiro Teles, José de Figueiredo Brito, José de Paula Bantim, Antônio Correia Coelho, Florisval Matos, Antônio de Alencar Araripe, Jefferson de Albuquerque, Pedro Felício Cavalcanti, Joaryvar Macedo, Otacílio Macedo, José Bizerra de Brito, Maria de Lourdes Esmeraldo, Paulo Elpídio de Menezes, João Alves Rocha, Mons. Francisco Holanda Montenegro, Pedro Teles, Mons. Rubens Gondim Lóssio, Elísio Figueiredo, Dalmir Peixoto, Thomé Cabral dos Santos, Mons. Pedro Rocha de Oliveira, F. S. Nascimento, Padre Cerbelon Verdeixa, Manoel Monteiro, Bruno de Menezes, Padre David Moreira, Geraldo Lobo, Mons. Pedro Esmeraldo da Silva, Padre Antônio Alcântara, Raimundo Pinheiro Teles, Pinheiro Monteiro, Olga Lacerda, mantiveram acesas as produções literárias da Região, dando ênfase à memorialística, à poesia e ao jornalismo político e religioso, divulgando-as pelo País afora por meio de permutas e distribuição das suas publicações, galgando assim o padrão valioso da fama que até hoje persiste de habitar mundo rico de cultura e arte que se propagou a ponto de gerar dividendos na forma da expansão dos estudos acadêmicos ora consagrados por meio das tantas escolas de nível superior que existem na atual Zona Metropolitana do Cariri, formada pelos municípios de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha, cidades que distam não mais que 25km uma da outra, a gerar também duas universidades, uma regional e outra a nível federal..

Em seguimento ao exemplo dos fundadores do ICC, caudal de novos beletristas adveio das gerações posteriores, o que merece destaque sobremodo naqueles que se revelaram escritores nas aragens libertárias dos anos 60, jornalistas, poetas, contistas, cronistas, teatrólogos e ensaístas, de quem podemos citar: Tiago Araripe, Assis Lima, Jurandy Temóteo, Luiz Carlos Salatiel, Manoel Patrício de Aquino, José Hélder França, Emerson Monteiro Lacerda, José Esmeraldo Gonçalves, J. Flávio Vieira, Oswaldo Alves de Souza, Wellington Alves, Sarah Esmeraldo Cabral, Flamínio Araripe, Geraldo Urano, Pedro Antônio Lima Santos, Vicelmo Nascimento, Armando Lopes Rafael, Carlos Rafael, Olival Honor de Brito, Waldesley Alves, José Huberto Tavares de Oliveira, João Teófilo Pierre, Pedro Bezerra, José Flávio Bezerra Morais, Cacá Araújo, Ronaldo Brito, Rosemberg Cariry, Roberto Jamacaru, Pachelly Jamacaru, Antônio Correia Lima, Claude Bloc Boris, Wilton Dedê, Francisco Silvino da Silva, Plácido Cidade Nuvens, Luiz José dos Santos, José Jezer de Oliveira, Miguel Costa Barros, José Peixoto Junior, Antônio Luiz Barbosa Filho, José do Vale Pinheiro Feitosa, Emídio Lemos, Chico Pedro, Josimar Lionel, Alfredo Teixeira Mendes, Heitor Brito, Geraldo Ananias Pinheiro, João Marni Figueiredo, Carlos Esmeraldo, Magali Figueiredo, Ebert Fernandes Teles, Elói Teles de Morais, Amarílio Carvalho, Almério Carvalho, Geraldo Macedo Lemos, Abidoral Jamacaru, Luciano Carneiro, Mirtes Machado, Alzir de Oliveira, José Humberto Tavares de Oliveira, Hamilton Lima Barros, Padre Ágio Augusto Moreira, Anilda Figueiredo, Willian Brito, outros CORDELISTAS (vide abaixo, Academia dos Cordelistas do Crato), Francisco Alves Rocha, Cícero Magérbio Lucena, Hilário Lucetti, João Bosco Rodrigues, Jorge Carvalho, Padre Teodósio, Dihelson Mendonça, Francisco Edésio Batista, Telma de Figueiredo Brilhante, Socorro Moreira, Waldemar Arraes de Farias Filho, Pedro Esmeraldo, José Esmeraldo da Silva, Francisco de Assis Brito, Marcos Lionel, Gilberto Dummar Pinheiro, Everardo Norões, Paulo Tarso Teixeira Mendes, Aglézio de Brito, Eugênio Dantas, Humberto Mendonça, Stela Siébra, Edméia Arraes, José Hermínio Rebouças, Alderico de Paula Damasceno, Padre Raimundo Elias, J. Ronald Brito, Tancredo Lobo, Padre Roserlânio, Rubens Soares Chagas, Dom Newton Holanda Gurgel, Dom Francisco de Assis Pires, Francisco Salatiel de Alencar, Múcio Duarte, Dandinha Vilar, Maria Júlia Limaverde, Correinha, Tarciso Martins, Vera Maia, Lireda Noronha, Jorge Emicles Paes Barreto, Geraldo Moreira de Lacerda, Rocélio Siébra, Ivan Alencar, Roberto Marques,  

Autores juazeirenses:Padre Cícero Romão Batista, Ralph della Cava, Floro Bartolomeu da Costa, Amália Xavier de Oliveira, Padre Alencar Peixoto, Padre Azarias Sobreira, Renato Casimiro, Mons. Murilo de Sá Barreto, Geraldo Menezes Barbosa, Aderson Borges, Elias Sobral, Daniel Walker, Anchieta Martinez d’Montalverne, Raimundo Araújo, Jackson Barbosa, Rosário Lustosa, Pedro Bandeira, João Bandeira, Daudeth Bandeira, Geraldo Amâncio, Pedro Ernesto Filho, Sidney Rocha, Luiz Fidelis, Alcimar Monteiro, Santana, Wellington Costa, Franco Barbosa, Hermano Morais, J. Farias,

Poetas malditos:  

Autores barbalhenses: Machet Callou, Edmilson Félix,

Academia dos Cordelistas do Crato:

Registro da fundação da Academia Caririense de Letras.  

Outros jornalistas do Cariri. Derivações dos autores a outros ramos do conhecimento e prática literária, quais jornalismo, magistério, teatro, música, direito e cinema.

Alguns editores do Cariri: J. Lindemberg de Aquino, Jurandy Temóteo, Emerson Monteiro, Cláudia Pierre,

Principais publicações: Folha do Cariri, Jornal do Cariri, Folha Liberal, A Ação, Folha do Juazeiro, Folha da Manhã, Gazeta de Notícias, O Ideal, Ceará News, Foco, Acontece, Crato Jovem 1968, Vanguarda, Folha de Piqui, Cariri, A Província, Hyhité, Ciências Sociais, Psicologia (site),

Produção acadêmica do Cariri:

Coleção do Centenário do Juazeiro do Norte (autores publicados: Mirtes Machado, Alzir Oliveira e outros).

terça-feira, 17 de março de 2026

Lá onde houver consciência


Desfeitas que forem tantas outras interrogações, ali sustenta, nítida, a grandeza da Luz. Lugares vários, sombrios, de tantas quantas existam, circunspectas, suaves, definitas, trazem consigo a totalidade do Ser. Inteiras multidões, entes iguais ao valor absoluto do Tempo, ouvirão chilreios de todos os pássaros, acordes de todas as canções, e nenhuma saudade que seja senão íntimo sabor de novos universos em formação. Bem junto do Cosmos, miríades inesgotáveis de lembranças, refeitas nas horas vagas daquela ausência, durarão infinitos séculos.

Diante, por isso, da imensidão, o que antes fora meros desejos contidos depois desvendarão o espaço das horas e descobrirão os portais inesgotáveis de uma alegria sem par.

Esse edifício que plenificará os horizontes desde há muito vive nos mesmos córregos donde vieram as primeiras águas que aqui estejam, salpicadas de cores e luzes. Disto, desta semente em formação, nasceram os heróis da antiguidade, fruto das percepções guardadas no arrebol dos firmamentos. Saber, buscar, encontrar, ser-se-ão mínimos argumentos do painel indizível da Natureza em volta.

Enquanto isto, aquilo doutras eras, fragmentos de esperança e fé, vislumbram no íntimo as verdades ocultas que sobreviveram, pois, aos contrafortes do inesperado e favem de si próprio o sabor de manjares até então narrados nas ficções e despejados pelas calçadas do mundo; sendo, sim, por demais necessários de trazê-los até os céus. Tais relíquias significam sinais dessa expedição de quantos às florestas inesgotáveis dos sonhos atuais.

Talvez na mesma conta se achem, também, seres ainda desconhecidos pelos padrões da época e ora estejam pelas cavernas em movimento na alma das criaturas humanas. Porém seguem abismadas rumo ao destino que lhes habitam o arcabouço do que sobrevive a tanto. Foram, assim, frutos da necessidade dos ventos a tanger os barcos e fazê-los imagens espalhadas nas civilizações afora, trastes e contrates de um só deslumbramento, durante o correr das gerações no Humanidade. Agora, é ouvir o silêncio e adormecer na essência dos astros, neste espaço entre gestos e palavras...

(Ilustração: Centro de Artesanato Mestre Noza, Juazeiro do Norte CE).


domingo, 15 de março de 2026

O peso da Cruz


Ao meu amigo Lirismar Macêdo

Uma vez poder escrever o que tange a minha vontade, busco dizer dos temas positivos, por vezes alegres, cheios de esperança. Foi do tempo, nos finais da década de 60, quando mantinha uma coluna no Jornal A Ação, em Crato, o que depois pensei publicar em livro, mas daí observei o peso daquela época, de pessimismo exacerbado e da impaciência de então. Hoje, porém, vejo diferente. Quero não tirar a alegria de ninguém. Abordar temas dotados de confiança no quanto acontece, uma vez sentir em tudo a força de um poder maior que rege e dispõe, de jeito positivo, a tônica das existências.

No entanto, reconheço estar aqui neste chão ainda de tantas contradições e desafios. E, nisso, lembro de sermos espíritos em evolução, a traçar metas e superar o fragor da matéria em nós próprios, isto sob a determinação do aperfeiçoamento de que somos peças necessárias e fundamentais. Quando acalmo os raciocínios à cata de sentido, recordo a missão de Jesus Cristo, exemplo desta missão de todos, seu mestre e modelo de tantos. Ele, a praticar o Bem no nível de quem conhece em tudo o destino que nos esperar, e padeceu às raias de inimigos extremos.

Nisto, o significado daquilo que teve de atravessar, a título de demonstração do quanto viera ensinar à Humanidade, nos moldes do egoísmo dos ditos poderosos. Julgado, torturado, coroado de espinhos e preso à Cruz, este o símbolo daquilo que se há de passar nesse transe dos seres humanos onde vivemos agora. Noutras palavras, ao desafio da carne, das contingências da Terra, rumo ao Infinito, cujo caminho existe no coração de todos, a lição suprema dos iluminados, caminho aonde haver-se-á de chegar quando vencer o estágio da força bruta. Enquanto isto, tão só temos a notícia dessa libertação em mundo de dualidades e ilusão, o enigma maior das consciências a serem despertadas lá certa feita.

Por mais ansiosos, nessa faixa estreita a meio do prazer físico e da Eternidade, somos os habitantes da imensa Luz desde sempre guardada nos sentimentos, um a um, senhores da libertação e da Paz.

sexta-feira, 13 de março de 2026

Nalgum dos objetos em volta


Vem de longe esse gosto de conversar com os outros elementos que não sejam nós, os humanos. Ver, considerar, quem sabe?, um diálogo possível, imaginário, da gente com algum dos componentes dos palcos, das peças, numa pretensão talvez desencontrada do que andam dizendo neste mundo. De objetos em seres que também tenham de viver, contar de si e despejar nas circunstâncias os dramas soltos nos instantes das aventuras. Quase, por certo, tipo os animais, só que nem esses ainda participam tão intensamente dos sóis aqui em torno. Olham, padecem, analisar, sem, no entanto, trazer daqui quais narrativas lhes caberia preencher os bornais da imaginação.

Mas há disso desde sempre na consciência de menino. Ficar demorado na observação das alimárias que percorriam os terreiros, as estradas, o chão. E nisso o que pensar, pois, das histórias escritas, contadas nas valhas noites do passado. Saber, decerto, pela metade, aquilo que ficou guardado no quanto existe do furor dos acontecimentos. Aquela roupa folgada que se largou pelos cestos das horas e jamais regressou a procurar. Tal qual tantos abandonam leves amores em nome doutras pretensas aventuras errantes. As canetas deixadas ao relento das ruas, nas atitudes ingratas dos que delas tanto necessitavam logo ali antes uns poucos passos.

Bem isto, de contemplar longas paisagens e depois esquecer lá dentro dos muafos de quantas certezas de há muito deixadas de lado. Nisto, feitos senhores da ingratidão, semeiam dias e dias no coração das pessoas e as desmancham a meio dos trastes e viagens. A verdade, no entanto, fala mais alto, desvenda leis incontáveis no coração das criaturas, transformando-as em pequeninos seres ingratos, arrevesados. Todavia percorrem os trilhos das lendas aonde eles próprios hão de retornar e se deparar consigo na inevitabilidade dos olhos acesos.

Nesse diapasão da continuidade, dali renascem os sonhos, a vontade de encontrar tantas vezes o filão do Tempo, avô das humanidades, artesão do imprevisível, espalhado pelos universos que tudo sustentam e determinam.

quinta-feira, 12 de março de 2026

O abstrato das palavras


Disposição existe em admitir uma força maior ao poder dos acontecimentos. Enquanto que o sujeito conceitua os objetos, nesse espaço intermediário aprimora a consciência. Numa relação fortuita, nisto convive consigo próprio a perder de vista. Aperfeiçoa o conhecimento, a crença, certezas maiores a transportar, nalgum tempo, aos páramos superiores, sonho contumaz de, lá um dia, vencer a fragilidade deste chão. Aspiração desde sempre a transportar nos sentimentos, vislumbra a hipótese de uma vida além da carne, aonde possa usufruir da imensidade dos céus, livre das contingências e do desaparecimento.

Nesse meio donde segue pelos quadrantes do Infinito, dali observa a fragilidade os ditames sob os quais ora persiste. E estabelece o diálogo constante na entreface dos pensamentos e do que eles significam, na tradução daquilo que imagina, fala, ouve, incansáveis habitantes do ente que carrega na alma em si. São conversas intermináveis. Perguntas. Respondes. Observa os demais. Nas visões, nos desejos, noticiários.

Personagem da escritura de que busca o alimento, dias inesperados, dúvidas, percalços, a cruzar territórios por demais desconhecidos e vastos na intimidade onde sobrevive por vezes a duras penas. A exemplo, horas sofre, segura traslados, vacila nos pés, contudo afeito ao furor das circunstâncias e longe do seu domínio. Por quês imensos transporta no senso, na interrogação das razões de antes fartas e inatingíveis. Bem isso, este autor das ficções e perceptor dos disfarces incontidos, a viajar nas abas do vento.

Assim vêm as investigações de ser vítima ou herói, na medida em que experimenta continuar vidas e vidas nos bastiões da existência. Noutras vezes, usufrui de convicções plenas de haver um poder transcendente que rege tudo e todo qualquer fenômeno. Sustenta neste equilíbrio o gosto de tocar em frente, face a face aos mistérios de que faz parte integrante. Gosta de saber das novas teses e praticar as aventuras de quanta liberdade, ao correr das mesmas histórias, a tocar detidamente nas grossas muralhas da solidão individual.  

quarta-feira, 11 de março de 2026

As fronteiras da consciência


Terras sem fim que hoje lhes preenchem os olhos e desfazem lá dentro os pensamentos trazidos das estradas. Longos percursos rumo a si próprios estando bem aqui do lado. Vagas noites de um silêncio abissal. Luzes que às vezes acendem, doutras esquecem a quem iluminar, e, de novo, deixam escurecer a imensidão. Rios de água pura, no entanto submersos, talvez, nas ilusões. Esses protagonistas da sorte, que, extáticos, desde antigamente dividem e percorrem os mesmos lances de escada, ao abandono das lembranças até então guardadas nos sótãos das existências que sumiram.

Isto de ser que tanto e perlustrar tão só as visões do imediato, quais pescadores esquecidos nas praias do Universo onde habitam. E que vivem a se perguntar do destino, das roupas do próximo baile à fantasia, esquisitos autores de cenas jamais imaginadas, enquanto produzem o cenário de doces histórias que narram interminavelmente. Querem do Infinito apenas alguns do papeis improvisados, versões superficiais, daquilo que desejam, conquistaram e nem reconhecem.

Em rápidas pinceladas, seriam peças ainda indecifradas desse mais imenso tabuleiro de glórias fáceis e superficiais dos dias em transe. Contudo por demais indispensáveis, constantes e necessárias. Eles, minúsculos objetos em movimento a céu aberto, no desfilar interminável dos inesgotáveis compêndios. Estejam presentes ou ausentes, haver-se-ão a braços com os enigmas originais que trazem consigo perenemente.

Portadores, pois, das quantas variações dessas linguagens, dalgum lugar que sejam tangerão os barcos do Destino e sobreviverão a todo custo às tempestades imprescindíveis. Este qual par de circunstâncias nada além significa do que a razão primordial de estar aqui e sobreviver aos percalços das densas e maiores determinação. Um episódio individual e soberano mistério das ruínas, dos mitos, das lendas, fixados no quanto de valiosos, e confortam o Tempo, caudal supremo do que sempre existiu pelas quebradas do firmamento. Destarte, abraçam de tudo a inevitabilidade do Ser que os compõe. Acalmam o coração, fixam no íntimo as paisagens em volta e saem às novas e surpreendentes aventuras.