terça-feira, 31 de março de 2026

Há estradas desertas



Um jeans velho e muitas histórias para contar de horas incertas, dos dias nebulosos em passado que de bom não se sabia, naquela hora quando voava nas asas de pássaros pouco felizes, e havia mais amor nos corações, nas tardes, noites, de anos cinzas deixados no tempo. Algo diferente, naquela solidão fria, antiga.

Os jardins que restaram nas flores ao vento e o perfume adocicado de folhas secas, cálidos sonhos, agora dormentes nas pedras róseas dos muros que delimitam supostos territórios livres de manhãs iguais, globalizadas.

Aquilo que chamáramos esperança surgiu, enfim, na curva longa do caminho poeirento, dominando a paisagem diferente da alta estação turística. Jornais apontam novos índices de crescimento do setor. Os prestadores de serviços e a iniciativa privada têm de se articular para a integração dos vários segmentos, cuidando de ações efetivas de pesquisa, superando carências urgentes.

Por conta disso, olhos fixos nas movimentações do comboio, rua acima e abaixo, ouve passar o caminhão do lixo; lembra ser sábado e que não passará correio nesse dia. Então, assim também é bom, porquanto ficará mais tranqüilo, noutra tarde.

Não chegará a correspondência. Vai cuidar mais uma vez dos bichos, no quintal, do banho, de si, lavar o carro; de novo, amar a companheira; duas, dezenas, milhares. Sonhar, filmar, contar suas iguais fantasias eróticas; contemplar as flores no jardim na praça, escutando pássaros, nos começos de noite. Quando chegar, pretende recebê-la a caráter, braços abertos e modo melhor, essa tal missiva, tantas vezes horas, meses, séculos, alimentada nos seios flácidos do coração insistente; com os braços pregados em cruz na mesa do jantar, entre xícaras, talheres, bolos e bules fumegando...

O que sabia disso, contudo, alimentava seus sonhos o suficiente, esquemas e planos políticos favoráveis, na luz do merecimento das prendas positivas, escondidos sob as pálpebras ressequidas. Pois ninguém aceita resposta inadequada, ainda que pergunte do jeito que quiser, dizendo o que quer, sem querer ouvir o que não quer.

As promessas do verde modificaram o espaço e solidificaram cada cratera, num único teto de casa sozinha no seio da mata, donde leve fumaça se evola em fiapos brancos, a subir de chaminé escurecida, brincando no azul antes de rumar suave no céu claro do outro lado de si mesmo. Um território imenso de luz dourada rebrilha nos tetos em formas juvenis, almas novas que a tudo revive na alma imensa dos trilhos eternos.

segunda-feira, 30 de março de 2026

A lebre desprendida


(Tradição budista)

Dentre as lendas que registram vidas passadas de Buda existe a que conta sobre uma lebre jovem que habitava intrincada floresta nas encostas de montanha afastada, tendo por companheiros uma lontra, um macaco e um chacal. A personagem se alimentava de ervas, folhas e frutos, e tomava como prática viver sem prejudicar quem quer que fosse. Entre os outros animais, fazia por ministrar os ensinamentos de como distinguir o mal do bem, passando suas aulas através de longas lições as quais transmitia com imenso prazer.

No transcorrer do tempo, naquelas paragens silvestres, aproximou-se o dia da festa maior do lugar, época de receber visitantes religiosos que peregrinavam pelas matas. De acordo com os costumes, preparariam oferendas a esses destinadas, recolhidas nos diversos encantos da natureza. Enquanto os outros bichos dispunham dos meios de elaborar brindes valiosos, a lebre, contudo, defrontava de pobreza extrema, a dispor tão só, na ocasião, de ervas e coisas de somenos importância a oferecer aos que lhe visitassem. Indagada pelos companheiros do jeito que demonstraria sua gratidão e respeito aos visitantes, não mediu palavras e disse:

- Caso alguém me procure, não oferecerei ervas comuns, de fácil localização no seio da floresta. Quero possuir dote mais precioso. Nisso, a mim mesma, o meu corpo, valor único que possuo, darei de oferenda, pois daqui ninguém retornará sem a devida atenção de minha parte.

Chegado o grande dia, tais visitantes, pessoas dignas vindas dos mais afastados lugares, adentraram as matas para conhecer de perto seus moradores, um desses peregrinos sendo o próprio Sakka, a personalidade suprema do Poder, que vê os pensamentos que fervilham pelas consciências; veio investido na figura de um simples brâmane e de pronto se dirigiu à toca da lebre.

Ao vê-lo, esta, ágil e prestativa mais do que depressa, falou ao visitante: - Fizeste o melhor vindo à minha morada, pois quem me visitasse neste dia, a ele reservei o que de mais precioso guardo comigo, e é isto te ofereço na hora da linda festa de todos nós. Olhos atentos, o brâmane observava os raros e pobres trastes que existiam naquela casa simples, interrogando a que a lebre se referia em suas palavras acolhedoras.

Daí ouviu o que esta ainda acrescentava: - O dom de que falo e que pretendo oferecer do mais íntimo coração sou eu mesma, o meu corpo vivo, que aqui vês, e que mereces inteiro pela nobreza de tua dedicação aos ditames do Bem nas tuas ações puras e austeras. Por isso, vai e junta gravetos para acender o fogo e preparar o teu repasto deste dia.

Mediante a oferta decidida, o brâmane logo se movimentou, fazendo crepitar uma fogueira cujas chamas vigorosas iluminavam o escuro da folhagem. Em seguida, num gesto impávido, ligeiro, a lebre lançou-se no meio das labaredas crepitantes, como quem se joga no seio de águas profundas, acalmando todos os anseios e dores da existência afetuosa que vivera até então.

domingo, 29 de março de 2026

Tempos heroicos


A braços com o ser que se move no crivo do eterno, levas imensas deles seguram o tempo no espaço, largadas em vão, no entanto que voltam sempre através daquilo o que deixaram no caminho da solidão. Nisto, rever lá dentro as cicatrizes do mistério que sejam as criaturas humanas. E recontar as longas jornadas entre palavras e gastos. Mundo diverso, raiz das indefinições. Transitar a meio das antigas ruínas de tantas histórias, na certeza de prosseguir ao fim e trazer de volta experiências sem conta. São essas as testemunhas desse instinto de sobreviver. Tais sonhos vivos, nos gestos as festas, os abismos ali cavados a duras penas reencontram tudo aquilo.

De novo, as contações, seres talvez individuais que trazem no bojo essas relíquias das fagulhas do imediato, depois feitas de longos suspiros de estender a matéria nos seus traços de significados. Daí, se enxerga o quanto significou existir naquelas épocas distintas. Suportar as ausências longe de esquecê-las, porém. Bem ao gosto dessa procura, seguem, eles todos, pelas bordas do inevitável.

Assim, chegam as fases de volta ao coração dos habitantes desta galáxia. Transitam face a face consigo próprios e sustentam o silêncio das horas nas artérias e veias. Repassam de volta as aventuras arcaicas através de filmes, livros, lá de antes previstos nas fábulas filosóficas mantidas no íntimo e desfeitas no cotidiano. Alimentam a ideia da perfeição em forma de luzes acesas na alma e no Infinito.

Isso das memórias. Saltimbancos do que persiste, veem de olhos fechados as virtudes que os trouxeram até então. Minúsculos habitantes dos reinos encantados, saboreiam as vivências e as fazem contar impossíveis criações, espalhando ao vento. A gente ouve, pois, melodias esplêndidas, recolhidas daquela época do Paraíso. Nem de longe, pois, no azul dos firmamentos haverá dizeres quão profundos, na semente das recordações descritas em única linguagem, por certo enigmática aos instantes de agora.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Impressões dessa viagem


Nisto, o roteiro de andar aqui, percorrer as distâncias e se fartar das suas tantas recordações. Qual numa fita a bem dizer sem limites, um a um prosseguem os protagonistas do grande arcabouço. Vaquejam a si próprios através daquilo guardado na consciência. Luzes insistentes lhes iluminam assim os céus das existências. O que mais causa espécie é isso acontecer de modo intermitente, preenchendo o vago dos momentos que ora somem a fartar. Dali, as criaturas humanas. Olhares silenciosos a quanto veem, porém submissos ao credo lá de dentro, numa relação até então feita de pensamentos, imagens, legendas, transes de cunho pessoal e intransferível.

Desse empenho nascem as filosofias, literaturas, as artes de modo pleno, nuvens que deslizam pela superfície dos céus a denotar os fragmentos desta interpretação. Quando crianças, ao ver passar as formações desse imaginário na forma de desenhos soltos, abstratos ou figurativos, dar-se a pensar, talvez, que em tudo persistem outros seres que não nós, a confeccionar mil disfarces logo desfeitos na imensidão do Infinito. Daí a busca incansável pelos encontros dalgum dia, aonde isto possa ser de tudo.

Conquanto estejamos a presenciar quais aventuras do espírito, há de, certa feita, perguntar quem possa assistir aos dramas da espécie. Falam em silenciar a mente nas meditações, em acalmar o eu interior no sentido de identificar realidade sobranceira, definitiva, nalgum espaço da gente. Mestres afirmam, desempenham calma, silêncio e refletem algo imprescindível. Em consequência, vivem a bem dizer outras vidas, outras histórias, e contam a seu modo essas vivências.

Enquanto isto, muitos insistem na procura de experiências equivalentes, depois de reconhecer as limitações deste chão. Tateiam na escuridão das quantas aventuras espirituais, por vezes saturados da repetição do ritmo em volta. Destarte, trazem consigo o sonho doutras realizações. Ao lado, horas a fio, anotam vagamente o percurso e aceitam continuar no rumo das verdades eternas.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Libertos da imaginação


Isso logo ali depois do quanto houve de percorrer, dias e dias, através dos rios de tantas histórias lidas, assistidas, vividas, guardadas nos quadrantes da sorte. Eles, os andarilhos do Infinito que estão vagando pelas margens do Tempo, olham em volta e vislumbram todos os animais que lhes acompanham, afeitos ao instinto de ter companhia dalgum jeito. Heróis anônimos da própria interpretação, buscam nos filmes, nas jornadas, multidões, as mesmas luas em que transitaram nos céus da consciência. E nisto pretendem encontrar laços em tudo quanto perdura pelos trastes dessas ficções atuais. Se não encontram de uma vez por todas, seguem a procurar nas encostas dos momentos. Reúnem vastidões, chicoteiam o lombo das alimárias do pensamento e descem feitos astutos buscadores rumo ao eterno, meros transeuntes dos destinos vários.

Lembro de tudo isto agora face ao livre trânsito de deixar o mistério do passado me invadir, vez em quando, as telas da memória e reviver o que se foi antigamente. Quais trilhos sem fim de inesperadas lembranças, chegam aos borbotões cenas inteiras do que ficou lá atrás. Vezes sem conta e revejo inclusive as emoções daquelas oportunidades, talvez meras vivências só de estar neste mundo. Entram sem pedir licença. Vão de canto a canto do quadro de mim e tocam, de novo, aqueles muafos largados há distâncias enormes. Conquanto venham não sei bem de onde, porém fazem da gente pedaços particulares recompostos de emoções, impactos, vidas.

A querer disso a liberdade significa, contudo, reestruturam épocas inteiras, a silenciar tais momentos fortuitos perdidos no passado. As palavras falam desse poder na medida em que sustentamos do que resta tão só detalhes essenciais, enigmáticos, talvez. Houvesse, pois, aprendizado, far-nos-íamos senhores de nossos segmentos, a desfrutar do poder da realidade. Enquanto que, horas e horas, quase nunca ainda exercitamos essa tal faculdade interna.

terça-feira, 24 de março de 2026

Traços de uma eternidade em tudo

 

Há que se saber desde sempre das longas noites e das angústias até desvendar o mistério de tudo, enfim. Reunir pausas e consequências; adormecer muitas vezes ao som cavo do inesperado e continuar, vidas a fio, no transcorrer dos tempos. No entanto, disso persistirão as luas, vagas horas, e nuvens encileiradas ao decorrer das consequências. Destinos superpostos, suaves delírios e doce imaginação seguem pelas estradas, sob o olhar intenso das estrelas. Nalguns, perto ou distante, andam os demais. Nunca, porém, a considerar qualquer hipótese de não tocar os céus logo adiante. Espaços em movimento são elas, as criaturas humanas. Sobretudo diante do silêncio, devem existir as figurações, os delírios, num esforço pungente de vencer o tédio e a angústia, habitantes do que buscam conhecer nalgum dia. Versões sucessivas dessas tais gerações inigualáveis, ali que estiram seus passos e denotam expectativas dalgum lugar aonde sejam recebidas da bom grado.

...

Aves que, distantes, sobrevoam os mesmos pastos e, vez em quando, consideram a possibilidade doutros universos quais, nascidos da ânsia de vislumbrar o Infinito. Nem de longe avaliariam, pois, o furor dos instintos originais que habitam esses protagonistas dos dramas existenciais dagora. Sublinham desertos afora na procura da sorte. Reconhecem os traços dos desejos desde quando lhes afugentavam as horas e destruíam circunstâncias em volta. Dessa virtude das presenças, gorjeiam melodias estimáveis, narrativas daquilo que tocam seus corações pelo silêncio das tardes mornas.

Enquanto isto, vê-se marcas profundas, esquecidas de antes, vultos sombrios de quantos ali transitaram no correr das histórias vividas. Eles, ausentes de si, vislumbraram segredos guardados milênios a fio. Nisto, no embalo das tantas voltas desse parafuso incontável, avistam quando algum escapulirá a meio das órbitas e dos corpos celestes, e abandonam ao léu o princípio que dera início ao circular do imprevisível e das súplicas celestes... 

A epopeia de dentro


E esse travo no coração, bolo alimentar de chumbo quente entalado à altura das costelas superiores, como é que fica? Essa fome doida de não sei o que, quando e onde, caminhar dolente de camelos metálicos nos ombros da gente, como fica, meu amigo? Aí de mim, aí de ti, aí de todos nós, nessa mesma noite escura das delícias, de tantas lanternas apagadas nos portos ausentes e barcaças e marujos bêbados. Sombras vagando no cais de nevoeiros fantasmagóricos, envoltos em bruma pegajosa, espessa, imune ao bafio glacial de harpias envilecidas sobre as pedras toscas de paredão que cresce no horizonte, ao barulho de outras aves noturnas, angustiosas.

Depois, intensas ondas teimam quebrar numa praia vazia de amores, em rodopios constantes quais vôos cegos dentro da sala antiga dos pesadelos sem lua. Ela, mimada, bonita feita flor, saia rodada, bordada de sol, cores profusas, num tudo neutro da adolescência e seus amores incertos.

Aos ouvidos dispersos, novenas cantadas de afastar espíritos tentadores, cantilenas rezadas com gosto amargo para proteger a santidade rara dos santos, raros propósitos firmes de corações fervidos na caldeira vadia das paixões sem jeito. Tabiques rompidos, defesas quebradas a ferro e sangue, na encosta escarpada dos roteiros da alma, penhas de ilhas desertas, filmes vivos do inconsciente audaz.

Quantas vezes haverá sonhos de justificar o frio corrosivo das noites solitárias e dos leitos desfeitos de amores mortos? As lutas internas, intermináveis, dentro do território do tórax dolorido, na ganância de justificar o desejo nas ânsias espasmódicas das máximas culpas.

Sem deixar viver o ritmo da festa do sol no coração, palmas calejadas do herói agarram quais dentes agressivos o mastro negro do barco e se enovela ao cântico das sereias, em romance de estrelas cadentes... Monge encapuzado, apavorado com as vestais em dança frenética, invade a cela sobressaltado às horas de sacrifício, num esforço titânico, a concorrência da busca dos céus, e quer, a todo custo, persistir na peleja do paraíso em queda livre.

Ameixas doces vagueiam no plano entre a língua os dentes, desmanchando vontades eróticas, embate ardente do amor feérico com as ilusões desfeitas. Fugir sem vislumbrar caminhos nítidos, rolar pelas encostas do mistério e deixar escorrer os dedos através do pomo profano da discórdia.

Há horas sobressalentes na parcial angústia, enquanto exóticas visitas envolvem suas tetas quais jóias de prazer e somem manhã afora, no vento, derretidas ao sabor da alva. Trocas desleais, injustas, do eterno pelo fugidio. Olhos arregalados observam a urgência das atitudes, rolando esquálidos, tapetes dourados estendidos sobre as pedras reais do Calvário.

Nisso, farrapo de pele, cabelos, carnes salpicadas em sangue, suspende a silhueta lacrimosa da saudade, abraçado a si próprio, espectro tardio que some no longe da paisagem viva que resiste nas dobras de tempo refeito do dia eterno.