quarta-feira, 1 de abril de 2026

A porta


Era uma vez um mestre carpina de nome Pedro que vivia com sua família em pequena provação do interior sertanejo. Tirava o sustento das artes na madeira, fabricando peças primorosas, admiradas por quem as conhecesse, fama que lhe propiciava constantes encomendas.

Além de dedicar-se com carinho ao seu trabalho, mestre Pedro demonstrava profundo interesse pelas coisas religiosas, praticando o bem e zelando pelos semelhantes, orientando, servindo e dando exemplos daquilo em que acreditava.

Certa feita, recebeu ilustre personagem ligado aos negócios do governo querendo que ele produzisse uma porta destinada a templo em construção numa cidade maior do Estado onde habitava. A peça deveria merecer cuidados particulares, porquanto a edificação representava agradecimentos ao santo padroeiro por cura de uma das filhas da autoridade.

O artífice aceitou executar o pedido em fina madeira de lei, a cumprir com folga o projeto daquela porta especial.
Alguns meses passaram até localizar na floresta o tronco destinado à encomenda. Movimentou pessoas do lugar e trouxe para a oficina partes de mogno linheiro e maciço. Outro tempo demorou serrando e planando as tábuas, quando, belo dia, iniciou a montagem do lastro, juntando e colando as peças preciosas.

Medidas exatas, acabamento esmerado, polimento e acabamento... Restava cumprir o desenho que imaginara fixar no rosto da madeira, fruto de um sonho rico em detalhes do qual acordara no meio da noite cheio de júbilo, com o que só enriqueceria a beleza do objeto.

A porta do céu detinha características de semelhante perfeição - imaginavam, extasiadas, as pessoas que formavam fila querendo olhar de perto o efeito magistral conseguido pelo mestre carpinteiro na superfície da madeira.

A essa altura dos sucessos, haviam transcorrido três anos. O profissional ultimava os apuros no trabalho, pousado sobre joelhos e cotovelos, suado, afilando formas quase invisíveis com estiletes afiados a sulcar as riscas das tábuas, daí resolveu erguer de lado a peça para, pela primeira vez, observar na vertical.

Ao levantar do chão a porta, no lugar onde ela se encontrava abriu-se cratera luminosa de proporções iguais ao seu tamanho. Diante daquilo e em face do impacto inesperado, mestre Pedro caiu no espaço aberto, sumindo cavidade adentro.

Fim da tarde e seus familiares notaram sua ausência. Vieram à oficina procurá-lo. Nada encontrariam fora a porta e os equipamentos espalhados no chão e o mais completo silêncio em volta. Nenhum sinal que fosse do artista, apesar de examinarem toda a redondeza e espalharem a notícia do sentido desaparecimento.
Alguns contemporâneos do mestre Pedro quiseram admitir, no entanto, que depois daquele dia, nos inícios da noite, para as bandas do Nascente, sobre a humilde oficina, aparecia estrela de brilho intenso, a clarear os céus da redondeza.

terça-feira, 31 de março de 2026

A noite dos tempos

 


Nisso há qual que melancolia. Longos trechos percorridos sob duras penas. Às vezes, até pensar em evolução. Noutras, puro ostracismo. Mesmo assim, permanecem seus registros, farpas largadas ao lombo da sorte. Nalguma forma, seres a transportar nos horizontes o fardo de vivências guardadas a sete capas, experiências transformadas em novos instintos. Sinuosamente, dali nascem aparentes convicções, depois refeitas em outros dramas e dominações. Bem isto, itinerário que jornadeia, a bem dizer, o próprio absurdo. Fugazes espectros de si, buscam desaparecer pela quadra dos contentes.

Logo adiante, no entanto, num próximo parágrafo, escrituras detalhadas daquilo que antes foram. Histórias, circunstâncias, justificativas, então. Sóbrios, alguns que sejam, apenas observam o percurso deixado nas encostas do Tempo, mas em seguida viram sonhos. Profetas, taumaturgos, videntes, escritas abandonadas em momentos de revelação, porém desfeitas nas dúvidas do que virá. Noutros termos, um caudal ilimitado de possibilidades transformado em ficção, na sua maioria prenhes de outras interrogações.

A seguir, todavia, o foco das luzes alumia essa gente, pois desde sempre existe uma procura insólita dos vínculos com a imaginação, eles feitos de palavras. Espécimes exóticas, fustigam aspectos até então ilimitados. No andamento, se tornam meras figurações dos séculos ao sabor de cada uma delas. Entretanto, algo resistirá ao término das contrições e, mais à frente, sementes e árvores crescerão naquele mesmo sítio de onde vêm e irão todos, num sem fim enigmático. Astutos, sagazes, inteligentes, quais tantos, tocam além belos instrumentos e refazem tantas outras horas em nuvens e ciências,

itinerário este calcado no íntimo de criaturas ainda em movimento, a desvendar aonde irão certa feita. Talvez senhores de reinos desconhecidos, transitam entre nós silenciosamente e transportam sentimentos indefinidos ao furor das gerações. Lá no íntimo, reconhecem o poder dalguma razão que lhes habita. Fartos de quantas lembranças, já mergulhados em planos intocáveis, far-se-ão astros luminosos no eito das consciências.


Há estradas desertas



Um jeans velho e muitas histórias para contar de horas incertas, dos dias nebulosos em passado que de bom não se sabia, naquela hora quando voava nas asas de pássaros pouco felizes, e havia mais amor nos corações, nas tardes, noites, de anos cinzas deixados no tempo. Algo diferente, naquela solidão fria, antiga.

Os jardins que restaram nas flores ao vento e o perfume adocicado de folhas secas, cálidos sonhos, agora dormentes nas pedras róseas dos muros que delimitam supostos territórios livres de manhãs iguais, globalizadas.

Aquilo que chamáramos esperança surgiu, enfim, na curva longa do caminho poeirento, dominando a paisagem diferente da alta estação turística. Jornais apontam novos índices de crescimento do setor. Os prestadores de serviços e a iniciativa privada têm de se articular para a integração dos vários segmentos, cuidando de ações efetivas de pesquisa, superando carências urgentes.

Por conta disso, olhos fixos nas movimentações do comboio, rua acima e abaixo, ouve passar o caminhão do lixo; lembra ser sábado e que não passará correio nesse dia. Então, assim também é bom, porquanto ficará mais tranqüilo, noutra tarde.

Não chegará a correspondência. Vai cuidar mais uma vez dos bichos, no quintal, do banho, de si, lavar o carro; de novo, amar a companheira; duas, dezenas, milhares. Sonhar, filmar, contar suas iguais fantasias eróticas; contemplar as flores no jardim na praça, escutando pássaros, nos começos de noite. Quando chegar, pretende recebê-la a caráter, braços abertos e modo melhor, essa tal missiva, tantas vezes horas, meses, séculos, alimentada nos seios flácidos do coração insistente; com os braços pregados em cruz na mesa do jantar, entre xícaras, talheres, bolos e bules fumegando...

O que sabia disso, contudo, alimentava seus sonhos o suficiente, esquemas e planos políticos favoráveis, na luz do merecimento das prendas positivas, escondidos sob as pálpebras ressequidas. Pois ninguém aceita resposta inadequada, ainda que pergunte do jeito que quiser, dizendo o que quer, sem querer ouvir o que não quer.

As promessas do verde modificaram o espaço e solidificaram cada cratera, num único teto de casa sozinha no seio da mata, donde leve fumaça se evola em fiapos brancos, a subir de chaminé escurecida, brincando no azul antes de rumar suave no céu claro do outro lado de si mesmo. Um território imenso de luz dourada rebrilha nos tetos em formas juvenis, almas novas que a tudo revive na alma imensa dos trilhos eternos.

segunda-feira, 30 de março de 2026

A lebre desprendida


(Tradição budista)

Dentre as lendas que registram vidas passadas de Buda existe a que conta sobre uma lebre jovem que habitava intrincada floresta nas encostas de montanha afastada, tendo por companheiros uma lontra, um macaco e um chacal. A personagem se alimentava de ervas, folhas e frutos, e tomava como prática viver sem prejudicar quem quer que fosse. Entre os outros animais, fazia por ministrar os ensinamentos de como distinguir o mal do bem, passando suas aulas através de longas lições as quais transmitia com imenso prazer.

No transcorrer do tempo, naquelas paragens silvestres, aproximou-se o dia da festa maior do lugar, época de receber visitantes religiosos que peregrinavam pelas matas. De acordo com os costumes, preparariam oferendas a esses destinadas, recolhidas nos diversos encantos da natureza. Enquanto os outros bichos dispunham dos meios de elaborar brindes valiosos, a lebre, contudo, defrontava de pobreza extrema, a dispor tão só, na ocasião, de ervas e coisas de somenos importância a oferecer aos que lhe visitassem. Indagada pelos companheiros do jeito que demonstraria sua gratidão e respeito aos visitantes, não mediu palavras e disse:

- Caso alguém me procure, não oferecerei ervas comuns, de fácil localização no seio da floresta. Quero possuir dote mais precioso. Nisso, a mim mesma, o meu corpo, valor único que possuo, darei de oferenda, pois daqui ninguém retornará sem a devida atenção de minha parte.

Chegado o grande dia, tais visitantes, pessoas dignas vindas dos mais afastados lugares, adentraram as matas para conhecer de perto seus moradores, um desses peregrinos sendo o próprio Sakka, a personalidade suprema do Poder, que vê os pensamentos que fervilham pelas consciências; veio investido na figura de um simples brâmane e de pronto se dirigiu à toca da lebre.

Ao vê-lo, esta, ágil e prestativa mais do que depressa, falou ao visitante: - Fizeste o melhor vindo à minha morada, pois quem me visitasse neste dia, a ele reservei o que de mais precioso guardo comigo, e é isto te ofereço na hora da linda festa de todos nós. Olhos atentos, o brâmane observava os raros e pobres trastes que existiam naquela casa simples, interrogando a que a lebre se referia em suas palavras acolhedoras.

Daí ouviu o que esta ainda acrescentava: - O dom de que falo e que pretendo oferecer do mais íntimo coração sou eu mesma, o meu corpo vivo, que aqui vês, e que mereces inteiro pela nobreza de tua dedicação aos ditames do Bem nas tuas ações puras e austeras. Por isso, vai e junta gravetos para acender o fogo e preparar o teu repasto deste dia.

Mediante a oferta decidida, o brâmane logo se movimentou, fazendo crepitar uma fogueira cujas chamas vigorosas iluminavam o escuro da folhagem. Em seguida, num gesto impávido, ligeiro, a lebre lançou-se no meio das labaredas crepitantes, como quem se joga no seio de águas profundas, acalmando todos os anseios e dores da existência afetuosa que vivera até então.

domingo, 29 de março de 2026

Tempos heroicos


A braços com o ser que se move no crivo do eterno, levas imensas deles seguram o tempo no espaço, largadas em vão, no entanto que voltam sempre através daquilo o que deixaram no caminho da solidão. Nisto, rever lá dentro as cicatrizes do mistério que sejam as criaturas humanas. E recontar as longas jornadas entre palavras e gastos. Mundo diverso, raiz das indefinições. Transitar a meio das antigas ruínas de tantas histórias, na certeza de prosseguir ao fim e trazer de volta experiências sem conta. São essas as testemunhas desse instinto de sobreviver. Tais sonhos vivos, nos gestos as festas, os abismos ali cavados a duras penas reencontram tudo aquilo.

De novo, as contações, seres talvez individuais que trazem no bojo essas relíquias das fagulhas do imediato, depois feitas de longos suspiros de estender a matéria nos seus traços de significados. Daí, se enxerga o quanto significou existir naquelas épocas distintas. Suportar as ausências longe de esquecê-las, porém. Bem ao gosto dessa procura, seguem, eles todos, pelas bordas do inevitável.

Assim, chegam as fases de volta ao coração dos habitantes desta galáxia. Transitam face a face consigo próprios e sustentam o silêncio das horas nas artérias e veias. Repassam de volta as aventuras arcaicas através de filmes, livros, lá de antes previstos nas fábulas filosóficas mantidas no íntimo e desfeitas no cotidiano. Alimentam a ideia da perfeição em forma de luzes acesas na alma e no Infinito.

Isso das memórias. Saltimbancos do que persiste, veem de olhos fechados as virtudes que os trouxeram até então. Minúsculos habitantes dos reinos encantados, saboreiam as vivências e as fazem contar impossíveis criações, espalhando ao vento. A gente ouve, pois, melodias esplêndidas, recolhidas daquela época do Paraíso. Nem de longe, pois, no azul dos firmamentos haverá dizeres quão profundos, na semente das recordações descritas em única linguagem, por certo enigmática aos instantes de agora.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Impressões dessa viagem


Nisto, o roteiro de andar aqui, percorrer as distâncias e se fartar das suas tantas recordações. Qual numa fita a bem dizer sem limites, um a um prosseguem os protagonistas do grande arcabouço. Vaquejam a si próprios através daquilo guardado na consciência. Luzes insistentes lhes iluminam assim os céus das existências. O que mais causa espécie é isso acontecer de modo intermitente, preenchendo o vago dos momentos que ora somem a fartar. Dali, as criaturas humanas. Olhares silenciosos a quanto veem, porém submissos ao credo lá de dentro, numa relação até então feita de pensamentos, imagens, legendas, transes de cunho pessoal e intransferível.

Desse empenho nascem as filosofias, literaturas, as artes de modo pleno, nuvens que deslizam pela superfície dos céus a denotar os fragmentos desta interpretação. Quando crianças, ao ver passar as formações desse imaginário na forma de desenhos soltos, abstratos ou figurativos, dar-se a pensar, talvez, que em tudo persistem outros seres que não nós, a confeccionar mil disfarces logo desfeitos na imensidão do Infinito. Daí a busca incansável pelos encontros dalgum dia, aonde isto possa ser de tudo.

Conquanto estejamos a presenciar quais aventuras do espírito, há de, certa feita, perguntar quem possa assistir aos dramas da espécie. Falam em silenciar a mente nas meditações, em acalmar o eu interior no sentido de identificar realidade sobranceira, definitiva, nalgum espaço da gente. Mestres afirmam, desempenham calma, silêncio e refletem algo imprescindível. Em consequência, vivem a bem dizer outras vidas, outras histórias, e contam a seu modo essas vivências.

Enquanto isto, muitos insistem na procura de experiências equivalentes, depois de reconhecer as limitações deste chão. Tateiam na escuridão das quantas aventuras espirituais, por vezes saturados da repetição do ritmo em volta. Destarte, trazem consigo o sonho doutras realizações. Ao lado, horas a fio, anotam vagamente o percurso e aceitam continuar no rumo das verdades eternas.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Libertos da imaginação


Isso logo ali depois do quanto houve de percorrer, dias e dias, através dos rios de tantas histórias lidas, assistidas, vividas, guardadas nos quadrantes da sorte. Eles, os andarilhos do Infinito que estão vagando pelas margens do Tempo, olham em volta e vislumbram todos os animais que lhes acompanham, afeitos ao instinto de ter companhia dalgum jeito. Heróis anônimos da própria interpretação, buscam nos filmes, nas jornadas, multidões, as mesmas luas em que transitaram nos céus da consciência. E nisto pretendem encontrar laços em tudo quanto perdura pelos trastes dessas ficções atuais. Se não encontram de uma vez por todas, seguem a procurar nas encostas dos momentos. Reúnem vastidões, chicoteiam o lombo das alimárias do pensamento e descem feitos astutos buscadores rumo ao eterno, meros transeuntes dos destinos vários.

Lembro de tudo isto agora face ao livre trânsito de deixar o mistério do passado me invadir, vez em quando, as telas da memória e reviver o que se foi antigamente. Quais trilhos sem fim de inesperadas lembranças, chegam aos borbotões cenas inteiras do que ficou lá atrás. Vezes sem conta e revejo inclusive as emoções daquelas oportunidades, talvez meras vivências só de estar neste mundo. Entram sem pedir licença. Vão de canto a canto do quadro de mim e tocam, de novo, aqueles muafos largados há distâncias enormes. Conquanto venham não sei bem de onde, porém fazem da gente pedaços particulares recompostos de emoções, impactos, vidas.

A querer disso a liberdade significa, contudo, reestruturam épocas inteiras, a silenciar tais momentos fortuitos perdidos no passado. As palavras falam desse poder na medida em que sustentamos do que resta tão só detalhes essenciais, enigmáticos, talvez. Houvesse, pois, aprendizado, far-nos-íamos senhores de nossos segmentos, a desfrutar do poder da realidade. Enquanto que, horas e horas, quase nunca ainda exercitamos essa tal faculdade interna.

terça-feira, 24 de março de 2026

Traços de uma eternidade em tudo

 

Há que se saber desde sempre das longas noites e das angústias até desvendar o mistério de tudo, enfim. Reunir pausas e consequências; adormecer muitas vezes ao som cavo do inesperado e continuar, vidas a fio, no transcorrer dos tempos. No entanto, disso persistirão as luas, vagas horas, e nuvens encileiradas ao decorrer das consequências. Destinos superpostos, suaves delírios e doce imaginação seguem pelas estradas, sob o olhar intenso das estrelas. Nalguns, perto ou distante, andam os demais. Nunca, porém, a considerar qualquer hipótese de não tocar os céus logo adiante. Espaços em movimento são elas, as criaturas humanas. Sobretudo diante do silêncio, devem existir as figurações, os delírios, num esforço pungente de vencer o tédio e a angústia, habitantes do que buscam conhecer nalgum dia. Versões sucessivas dessas tais gerações inigualáveis, ali que estiram seus passos e denotam expectativas dalgum lugar aonde sejam recebidas da bom grado.

...

Aves que, distantes, sobrevoam os mesmos pastos e, vez em quando, consideram a possibilidade doutros universos quais, nascidos da ânsia de vislumbrar o Infinito. Nem de longe avaliariam, pois, o furor dos instintos originais que habitam esses protagonistas dos dramas existenciais dagora. Sublinham desertos afora na procura da sorte. Reconhecem os traços dos desejos desde quando lhes afugentavam as horas e destruíam circunstâncias em volta. Dessa virtude das presenças, gorjeiam melodias estimáveis, narrativas daquilo que tocam seus corações pelo silêncio das tardes mornas.

Enquanto isto, vê-se marcas profundas, esquecidas de antes, vultos sombrios de quantos ali transitaram no correr das histórias vividas. Eles, ausentes de si, vislumbraram segredos guardados milênios a fio. Nisto, no embalo das tantas voltas desse parafuso incontável, avistam quando algum escapulirá a meio das órbitas e dos corpos celestes, e abandonam ao léu o princípio que dera início ao circular do imprevisível e das súplicas celestes... 

A epopeia de dentro


E esse travo no coração, bolo alimentar de chumbo quente entalado à altura das costelas superiores, como é que fica? Essa fome doida de não sei o que, quando e onde, caminhar dolente de camelos metálicos nos ombros da gente, como fica, meu amigo? Aí de mim, aí de ti, aí de todos nós, nessa mesma noite escura das delícias, de tantas lanternas apagadas nos portos ausentes e barcaças e marujos bêbados. Sombras vagando no cais de nevoeiros fantasmagóricos, envoltos em bruma pegajosa, espessa, imune ao bafio glacial de harpias envilecidas sobre as pedras toscas de paredão que cresce no horizonte, ao barulho de outras aves noturnas, angustiosas.

Depois, intensas ondas teimam quebrar numa praia vazia de amores, em rodopios constantes quais vôos cegos dentro da sala antiga dos pesadelos sem lua. Ela, mimada, bonita feita flor, saia rodada, bordada de sol, cores profusas, num tudo neutro da adolescência e seus amores incertos.

Aos ouvidos dispersos, novenas cantadas de afastar espíritos tentadores, cantilenas rezadas com gosto amargo para proteger a santidade rara dos santos, raros propósitos firmes de corações fervidos na caldeira vadia das paixões sem jeito. Tabiques rompidos, defesas quebradas a ferro e sangue, na encosta escarpada dos roteiros da alma, penhas de ilhas desertas, filmes vivos do inconsciente audaz.

Quantas vezes haverá sonhos de justificar o frio corrosivo das noites solitárias e dos leitos desfeitos de amores mortos? As lutas internas, intermináveis, dentro do território do tórax dolorido, na ganância de justificar o desejo nas ânsias espasmódicas das máximas culpas.

Sem deixar viver o ritmo da festa do sol no coração, palmas calejadas do herói agarram quais dentes agressivos o mastro negro do barco e se enovela ao cântico das sereias, em romance de estrelas cadentes... Monge encapuzado, apavorado com as vestais em dança frenética, invade a cela sobressaltado às horas de sacrifício, num esforço titânico, a concorrência da busca dos céus, e quer, a todo custo, persistir na peleja do paraíso em queda livre.

Ameixas doces vagueiam no plano entre a língua os dentes, desmanchando vontades eróticas, embate ardente do amor feérico com as ilusões desfeitas. Fugir sem vislumbrar caminhos nítidos, rolar pelas encostas do mistério e deixar escorrer os dedos através do pomo profano da discórdia.

Há horas sobressalentes na parcial angústia, enquanto exóticas visitas envolvem suas tetas quais jóias de prazer e somem manhã afora, no vento, derretidas ao sabor da alva. Trocas desleais, injustas, do eterno pelo fugidio. Olhos arregalados observam a urgência das atitudes, rolando esquálidos, tapetes dourados estendidos sobre as pedras reais do Calvário.

Nisso, farrapo de pele, cabelos, carnes salpicadas em sangue, suspende a silhueta lacrimosa da saudade, abraçado a si próprio, espectro tardio que some no longe da paisagem viva que resiste nas dobras de tempo refeito do dia eterno.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Raízes dessa humanidade


De longe, bem de longe, esse bem-estar que prevalece, vindo dalgum lugar ou tempo, donde nasceram todos que agora tocam estradas por demais cheias dos mesmos questionamentos. Trazem antigos alfarrábios em meio aos pensamentos esquecidos outras vezes.  Permanecem utilizando daqueles poderes surreais que dobram os séculos. Sabem ser de mil modos. Seguram seus instrumentos. Desfazem planos. Dizem-se estranhos e contorcem a linha do horizonte na medida dos interesses imediatos. Nisso, falam em liberdade, enquanto cativos dos próprios impulsos, das atitudes reversas e do inesperado.

Outrossim, quão inesperadas sejam as lembranças que de tudo neles permanecem, fixam em volta o que surpreenda e nem sempre alimentam o suficiente de conter a fome e continuar vidas e vidas. Às vezes, meras palavras, retóricas doutras urgências e significados da humana sobrevivência. Perante, pois, o impulso das existências, todos, de olhos bem abertos, contemplam o crivo da História e tocam adiante o pretexto de estar aqui a qualquer custo. Daí os desmandos aflitivos das populações no jeito de sustentar a paz e reverter o quadro das esperanças.

Serões sem fim totalizam, lá quando seja, essa vontade audaz de presenciar as várias luas, sujeitos aos equívocos e danos. Um estado de espírito que compõe as individualidades. Senhores, talvez, de mínimos pedaços daquilo antes imaginados, descem aos lugares pré-históricos e trazem de volta resquícios deixados pelos que antes passaram. Sabem ler, entretanto, mil códigos, porém demandam largos esforços de compreender o que lhes vem na memória. Mais que aspectos vários, transes de saturações ficam entranhadas nas consciências, virtudes admitidas e depois esquecidas, quem sabe?! A par disso, deslizam as multidões incompreendidas pelas epopeias. Signos fantasiosos, lá dos inícios fervilhavam de sonhos largados nos firmamentos. Sustêm, dias e horas; creem no que contavam as histórias da infância, onde heróis persistiam à busca de transformar mundos abstratos em solidariedade, logo ali feitos de filmes antigos e volumes abandonados em longas estantes deste universo intacto. A que consta, permanecem atentos no afã de, num momento qualquer, as lendas virarem realidade, no entanto.  

domingo, 22 de março de 2026

Nalgumas poucas palavras


Isso de um senso do quanto existe pelas derradeiras frestas, a meio de tudo em volta. Unir em laços o que resta do tempo em movimento face a face consigo mesmo, nuvens sucessivas que percorrem as consciências e deixam de lado o quanto houvesse a dizer, porém nisto havendo dito intensamente. A quem pudessem chegar, desde longe imaginam o inevitável dessas horas de adormecer às folhas dos momentos, tais reflexos de sóis imaginários que transitem pelos céus silenciosos.

Elas assim percorrem esse lastro enorme do quanto existe e perpassam a todas as criaturas, ainda que submersas no Infinito. Avançam mesmo que tanto, e oferecem ramalhetes de perfumadas flores. Alimentam estados de espírito, fornecem mantimentos às poucas aves que sonham nos finais de tarde pelas sombras da Serra.

Contam, sim, de tantas lembranças presas às circunstâncias lá distantes, nas crostas de todas as lembranças que acompanham, devagar, o trilho do que então sobreviver.

Algo assusta, no entanto, a gritar suas falas intangíveis no firmamento das poucas réstias do dia que se vai. Descrevem, narram, sustentam saudades, vidas ali vividas E nisto querer narrar aquelas horas despejadas nos filões de ausências. Olhar em volta e quantas vezes saber que eles resistem ao furor do desaparecimento durante histórias e narrativas. Saem das cavernas de si próprios na forma de vultos dispersos sob trajes multicoloridos, a envolver relíquias largadas no teto desse teatro que o somos, no círculo das mesmas alturas que se foram, marcando a ferro e fogo os dragões do anonimato.

Sabem das súplicas o suficiente de continuar pelas eternidades. Vislumbram os detalhes ali depositados, feitos restos jamais abandonados de tudo. Conquanto assinalem o eito da memória, dúvidas e questionamentos, enxurradas sem conta do que hoje sejam, donde vieram e nem sabem direito aonde chegar. Compõem, todavia, o princípio da sobrevivência, salientando a claridade nascida dos corações em festa.

sábado, 21 de março de 2026

Viagens ao Inconsciente



Quando sendo a bem dizer uma outra pessoa, ele habita  em algum lugar lá por dentro de todos, isto num afã de liberdade que, por vezes, sujeita causar susto. Isso bem pode parecer oura das ficções dos tantos conceitos. Vem daí as quantas buscas de explicar aquilo presente nos sonhos, nas artes, nas lendas, nas sombras. No entanto, séculos sem conta, prevalece as intervenções de tal ser, qual galáxias exóticas ali vivendo no meio das outras consciências. Espécie de luz da imaginação, oferece alternativas aos andares, diante dos instantes inúmeros a que nem de longe haver-se-á de responder a seus desafios. Uma sucursal da gente mesma a administrar um sem número de situações, limitando, outrossim, as formas de transmitir, porquanto requer algum conhecimento fortuito destas áreas invisíveis.

As narrativas das civilizações transcrevem infinitamente a presença desse agente da Natureza que aqui percorre as entranhas da criatura humana, participando, de modo constante, das agruras, dos contratempos, das aventuras, num inesperado de perder de vista. A melhor querer dizer, os humanos obedecem, então, de modo contrafeito as determinações dessa força íntima. Na vastidão, pois, do fenômeno individual, escutam vozes, avistam transcendências, leem nos intervalos as notas de orientações que lhes acendem profundamente o penhor doutros mundos que existam, doutras dimensões, isto, porém, num transe de causar espécie, visto de nada poder contar, e aceitam trilhos imensos desse protagonista severo, esdrúxulo.

No pisar dos tempos, são segmentos inteiros de humanidade que, de olhos assustados, têm não outro jeito mas o motivo de presenciar aquilo de acontecer. Definem, a título de escolha do inevitável, a sustentação das continuidades, e mergulham em longos, quiçá, pesadelos da eventualidade histórica, cabais respostas de si próprios. Destarte, obedecem aos ditames dos séculos e padecem nas suas garras, sendo isto o que denomina a História.

Horas quantas, há-de se perguntar o que impõe aos povos submeter outros às suas garras, lastreando o passado dessas aberrações que desde sempre reclamam Paz e Concórdia!

 

sexta-feira, 20 de março de 2026

A literatura no Cariri cearense


Há registros antigos dos primeiros colonizadores através dos documentos oficiais de posse da terra, no entanto que fossem literatura no real sentido, isso sem considerar também o modo antropofágico com que o europeu lidou com a cultura oral dos aborígenes, esquecidos que foram da riqueza original daqueles primeiros habitantes que aqui encontraram e dizimaram, a tomar seu território.  Frei Vicente Salvador estuda os momentos da vida colonial, sem, contudo, situar no território caririense momentos de preocupações literárias. Casimiro de Abreu, história. (Ver outros autores primevos).

Em meados do século XIX, aqui passou o naturalista inglês George Gardner, que fixou, na sua obra Viagem ao Interior do Brasil, descrição de Crato, onde passou alguns meses e conviveu com sua população.

Daí vêm as primeiras manifestações que caracterizam o que se possa denominar de literatura regional, já em finais do século, quando, inclusive, surge o primeiro colégio, o São José, depois revertido no Seminário São José, em Crato.

A origem do Seminário São José começa pelo desejo do primeiro bispo do Ceará, Dom Luiz Antônio dos Santos (1861-1881), de fundar em Crato um educandário religioso. Para executar este sonho, Dom Luiz Antônio enviou em 1872 dois padres lazaristas, Guilherme e Antônio, que pregaram a necessidade deste projeto e recolheram donativos indispensáveis para a sua então realização. O Seminário foi oficialmente fundado no dia 8 de março de 1875, em capela e galpões de taipa e palha.  (site Companhia dos Padres de São Sulpício – Província do Canadá).

A criação do citado educandário passa a permitir formação de autores, dentre esses jornalistas, memorialistas, poetas, cronistas, contistas e romancistas, que cumprirão atividades relacionadas à produção de jornais e livros.

Dentre os principais jornais relativos à segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX podem ser considerados diversos periódicos, a saber: O Araripe, O rebate, A ação, Correio do Cariri, etc.

Também nesse meio tempo ocorreram fenômenos da literatura oral, com poetas populares, repentistas de nomeada, quais: Cego Aderaldo, Zé de Matos, Patativa do Assaré, Pio Carvalho (pesquisar os livros de Jurandy Temóteo).

Enquanto a literatura erudita se manifestava, no igual período, através de livros de memória, ficção ou poesia, que permanecem lidos e editados: José de Figueiredo (Ressurreição, Ana Mulata, etc.), Fran Martins (Amigo de Infância, A rua e o mundo, Dois de Ouros, etc.), José Carvalho (O matuto cearense e o caboclo do Pará), Raimundo Quixadá Felício, Antônio Martins Filho, João Brígido,  Manoel Soriano de Albuquerque, Cláudio Martins, Martins D’Alvarez, autores de obras saídas em livros e jornais da época. Joaquim Pimenta esteve no Cariri e faz menção disso em livro seu (!). Ver História da Literatura Brasileira, de José Veríssimo, onde menciona José de Alencar bem nos inícios da literatura brasileira. José de Alencar é filho de José Martiniano de Alencar (?) que viveu em Crato e foi o primeiro Presidente do Ceará depois da Independência do Brasil (?).

Já na segunda metade do século XX, com o surgimento de revistas-livro tipo Itaytera e A província, toma maior impulso a produção literária regional, alimentando a divulgação de textos consagrados da cultura caririense, além de propiciar o surgimento de novos autores. De A província sairiam apenas, no período inicial, três volumes anuais. Já Itaytera obteria sucesso com persistência ano desde o ano de 1955 a 2000, a inteirar, até esse final de século o total de 44 edições sucessivas.

Os próprios fundadores do Instituto Cultural do Cariri, órgão responsável pela edição da revista Itaytera, nas pessoas de Irineu Pinheiro (O Cariri, Efemérides do Cariri e Cidade do Crato), J. de Figueiredo Filho (História do Cariri, Engenhos de rapadura do Cariri, Folclore no Cariri, Patativa do Assaré, Folguedos infantis caririenses, dentre outros), Padre Antônio Gomes de Araújo (A cidade de Frei Carlos, Povoamento do Cariri, etc.), J. Lindemberg de Aquino (Roteiro biográfico das ruas do Crato), Padre Antônio Vieira (Cem cortes sem recortes, O jumento nosso irmão, etc.), Raimundo de Oliveira Borges (A árvore amiga, Crato intelectual, O Coronel Belém do Crato, Reminiscências, etc.), Napoleão Tavares Neves, José Newton Alves de Souza, Zuleika Figueiredo, Jósio Araripe, Eneida Figueiredo, Padre Neri Feitosa, Mons. Antônio Feitosa, Levi Epitácio, José Siebra de Oliveira, Huberto Cabral, Raimundo Pinheiro Teles, José de Figueiredo Brito, José de Paula Bantim, Antônio Correia Coelho, Florisval Matos, Antônio de Alencar Araripe, Jefferson de Albuquerque, Pedro Felício Cavalcanti, Joaryvar Macedo, Otacílio Macedo, José Bizerra de Brito, Maria de Lourdes Esmeraldo, Paulo Elpídio de Menezes, João Alves Rocha, Mons. Francisco Holanda Montenegro, Pedro Teles, Mons. Rubens Gondim Lóssio, Elísio Figueiredo, Dalmir Peixoto, Thomé Cabral dos Santos, Mons. Pedro Rocha de Oliveira, F. S. Nascimento, Padre Cerbelon Verdeixa, Manoel Monteiro, Bruno de Menezes, Padre David Moreira, Geraldo Lobo, Mons. Pedro Esmeraldo da Silva, Padre Antônio Alcântara, Raimundo Pinheiro Teles, Pinheiro Monteiro, Olga Lacerda, mantiveram acesas as produções literárias da Região, dando ênfase à memorialística, à poesia e ao jornalismo político e religioso, divulgando-as pelo País afora por meio de permutas e distribuição das suas publicações, galgando assim o padrão valioso da fama que até hoje persiste de habitar mundo rico de cultura e arte que se propagou a ponto de gerar dividendos na forma da expansão dos estudos acadêmicos ora consagrados por meio das tantas escolas de nível superior que existem na atual Zona Metropolitana do Cariri, formada pelos municípios de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha, cidades que distam não mais que 25km uma da outra, a gerar também duas universidades, uma regional e outra a nível federal..

Em seguimento ao exemplo dos fundadores do ICC, caudal de novos beletristas adveio das gerações posteriores, o que merece destaque sobremodo naqueles que se revelaram escritores nas aragens libertárias dos anos 60, jornalistas, poetas, contistas, cronistas, teatrólogos e ensaístas, de quem podemos citar: Tiago Araripe, Assis Lima, Jurandy Temóteo, Luiz Carlos Salatiel, Manoel Patrício de Aquino, José Hélder França, Emerson Monteiro Lacerda, José Esmeraldo Gonçalves, J. Flávio Vieira, Oswaldo Alves de Souza, Wellington Alves, Sarah Esmeraldo Cabral, Flamínio Araripe, Geraldo Urano, Pedro Antônio Lima Santos, Vicelmo Nascimento, Armando Lopes Rafael, Carlos Rafael, Olival Honor de Brito, Waldesley Alves, José Huberto Tavares de Oliveira, João Teófilo Pierre, Pedro Bezerra, José Flávio Bezerra Morais, Cacá Araújo, Ronaldo Brito, Rosemberg Cariry, Roberto Jamacaru, Pachelly Jamacaru, Antônio Correia Lima, Claude Bloc Boris, Wilton Dedê, Francisco Silvino da Silva, Plácido Cidade Nuvens, Luiz José dos Santos, José Jezer de Oliveira, Miguel Costa Barros, José Peixoto Junior, Antônio Luiz Barbosa Filho, José do Vale Pinheiro Feitosa, Emídio Lemos, Chico Pedro, Josimar Lionel, Alfredo Teixeira Mendes, Heitor Brito, Geraldo Ananias Pinheiro, João Marni Figueiredo, Carlos Esmeraldo, Magali Figueiredo, Ebert Fernandes Teles, Elói Teles de Morais, Amarílio Carvalho, Almério Carvalho, Geraldo Macedo Lemos, Abidoral Jamacaru, Luciano Carneiro, Mirtes Machado, Alzir de Oliveira, José Humberto Tavares de Oliveira, Hamilton Lima Barros, Padre Ágio Augusto Moreira, Anilda Figueiredo, Willian Brito, outros CORDELISTAS (vide abaixo, Academia dos Cordelistas do Crato), Francisco Alves Rocha, Cícero Magérbio Lucena, Hilário Lucetti, João Bosco Rodrigues, Jorge Carvalho, Padre Teodósio, Dihelson Mendonça, Francisco Edésio Batista, Telma de Figueiredo Brilhante, Socorro Moreira, Waldemar Arraes de Farias Filho, Pedro Esmeraldo, José Esmeraldo da Silva, Francisco de Assis Brito, Marcos Lionel, Gilberto Dummar Pinheiro, Everardo Norões, Paulo Tarso Teixeira Mendes, Aglézio de Brito, Eugênio Dantas, Humberto Mendonça, Stela Siébra, Edméia Arraes, José Hermínio Rebouças, Alderico de Paula Damasceno, Padre Raimundo Elias, J. Ronald Brito, Tancredo Lobo, Padre Roserlânio, Rubens Soares Chagas, Dom Newton Holanda Gurgel, Dom Francisco de Assis Pires, Francisco Salatiel de Alencar, Múcio Duarte, Dandinha Vilar, Maria Júlia Limaverde, Correinha, Tarciso Martins, Vera Maia, Lireda Noronha, Jorge Emicles Paes Barreto, Geraldo Moreira de Lacerda, Rocélio Siébra, Ivan Alencar, Roberto Marques,  

Autores juazeirenses:Padre Cícero Romão Batista, Ralph della Cava, Floro Bartolomeu da Costa, Amália Xavier de Oliveira, Padre Alencar Peixoto, Padre Azarias Sobreira, Renato Casimiro, Mons. Murilo de Sá Barreto, Geraldo Menezes Barbosa, Aderson Borges, Elias Sobral, Daniel Walker, Anchieta Martinez d’Montalverne, Raimundo Araújo, Jackson Barbosa, Rosário Lustosa, Pedro Bandeira, João Bandeira, Daudeth Bandeira, Geraldo Amâncio, Pedro Ernesto Filho, Sidney Rocha, Luiz Fidelis, Alcimar Monteiro, Santana, Wellington Costa, Franco Barbosa, Hermano Morais, J. Farias,

Poetas malditos:  

Autores barbalhenses: Machet Callou, Edmilson Félix,

Academia dos Cordelistas do Crato:

Registro da fundação da Academia Caririense de Letras.  

Outros jornalistas do Cariri. Derivações dos autores a outros ramos do conhecimento e prática literária, quais jornalismo, magistério, teatro, música, direito e cinema.

Alguns editores do Cariri: J. Lindemberg de Aquino, Jurandy Temóteo, Emerson Monteiro, Cláudia Pierre,

Principais publicações: Folha do Cariri, Jornal do Cariri, Folha Liberal, A Ação, Folha do Juazeiro, Folha da Manhã, Gazeta de Notícias, O Ideal, Ceará News, Foco, Acontece, Crato Jovem 1968, Vanguarda, Folha de Piqui, Cariri, A Província, Hyhité, Ciências Sociais, Psicologia (site),

Produção acadêmica do Cariri:

Coleção do Centenário do Juazeiro do Norte (autores publicados: Mirtes Machado, Alzir Oliveira e outros).

terça-feira, 17 de março de 2026

Lá onde houver consciência


Desfeitas que forem tantas outras interrogações, ali sustenta, nítida, a grandeza da Luz. Lugares vários, sombrios, de tantas quantas existam, circunspectas, suaves, definitas, trazem consigo a totalidade do Ser. Inteiras multidões, entes iguais ao valor absoluto do Tempo, ouvirão chilreios de todos os pássaros, acordes de todas as canções, e nenhuma saudade que seja senão íntimo sabor de novos universos em formação. Bem junto do Cosmos, miríades inesgotáveis de lembranças, refeitas nas horas vagas daquela ausência, durarão infinitos séculos.

Diante, por isso, da imensidão, o que antes fora meros desejos contidos depois desvendarão o espaço das horas e descobrirão os portais inesgotáveis de uma alegria sem par.

Esse edifício que plenificará os horizontes desde há muito vive nos mesmos córregos donde vieram as primeiras águas que aqui estejam, salpicadas de cores e luzes. Disto, desta semente em formação, nasceram os heróis da antiguidade, fruto das percepções guardadas no arrebol dos firmamentos. Saber, buscar, encontrar, ser-se-ão mínimos argumentos do painel indizível da Natureza em volta.

Enquanto isto, aquilo doutras eras, fragmentos de esperança e fé, vislumbram no íntimo as verdades ocultas que sobreviveram, pois, aos contrafortes do inesperado e favem de si próprio o sabor de manjares até então narrados nas ficções e despejados pelas calçadas do mundo; sendo, sim, por demais necessários de trazê-los até os céus. Tais relíquias significam sinais dessa expedição de quantos às florestas inesgotáveis dos sonhos atuais.

Talvez na mesma conta se achem, também, seres ainda desconhecidos pelos padrões da época e ora estejam pelas cavernas em movimento na alma das criaturas humanas. Porém seguem abismadas rumo ao destino que lhes habitam o arcabouço do que sobrevive a tanto. Foram, assim, frutos da necessidade dos ventos a tanger os barcos e fazê-los imagens espalhadas nas civilizações afora, trastes e contrates de um só deslumbramento, durante o correr das gerações no Humanidade. Agora, é ouvir o silêncio e adormecer na essência dos astros, neste espaço entre gestos e palavras...

(Ilustração: Centro de Artesanato Mestre Noza, Juazeiro do Norte CE).


domingo, 15 de março de 2026

O peso da Cruz


Ao meu amigo Lirismar Macêdo

Uma vez poder escrever o que tange a minha vontade, busco dizer dos temas positivos, por vezes alegres, cheios de esperança. Foi do tempo, nos finais da década de 60, quando mantinha uma coluna no Jornal A Ação, em Crato, o que depois pensei publicar em livro, mas daí observei o peso daquela época, de pessimismo exacerbado e da impaciência de então. Hoje, porém, vejo diferente. Quero não tirar a alegria de ninguém. Abordar temas dotados de confiança no quanto acontece, uma vez sentir em tudo a força de um poder maior que rege e dispõe, de jeito positivo, a tônica das existências.

No entanto, reconheço estar aqui neste chão ainda de tantas contradições e desafios. E, nisso, lembro de sermos espíritos em evolução, a traçar metas e superar o fragor da matéria em nós próprios, isto sob a determinação do aperfeiçoamento de que somos peças necessárias e fundamentais. Quando acalmo os raciocínios à cata de sentido, recordo a missão de Jesus Cristo, exemplo desta missão de todos, seu mestre e modelo de tantos. Ele, a praticar o Bem no nível de quem conhece em tudo o destino que nos esperar, e padeceu às raias de inimigos extremos.

Nisto, o significado daquilo que teve de atravessar, a título de demonstração do quanto viera ensinar à Humanidade, nos moldes do egoísmo dos ditos poderosos. Julgado, torturado, coroado de espinhos e preso à Cruz, este o símbolo daquilo que se há de passar nesse transe dos seres humanos onde vivemos agora. Noutras palavras, ao desafio da carne, das contingências da Terra, rumo ao Infinito, cujo caminho existe no coração de todos, a lição suprema dos iluminados, caminho aonde haver-se-á de chegar quando vencer o estágio da força bruta. Enquanto isto, tão só temos a notícia dessa libertação em mundo de dualidades e ilusão, o enigma maior das consciências a serem despertadas lá certa feita.

Por mais ansiosos, nessa faixa estreita a meio do prazer físico e da Eternidade, somos os habitantes da imensa Luz desde sempre guardada nos sentimentos, um a um, senhores da libertação e da Paz.

sexta-feira, 13 de março de 2026

Nalgum dos objetos em volta


Vem de longe esse gosto de conversar com os outros elementos que não sejam nós, os humanos. Ver, considerar, quem sabe?, um diálogo possível, imaginário, da gente com algum dos componentes dos palcos, das peças, numa pretensão talvez desencontrada do que andam dizendo neste mundo. De objetos em seres que também tenham de viver, contar de si e despejar nas circunstâncias os dramas soltos nos instantes das aventuras. Quase, por certo, tipo os animais, só que nem esses ainda participam tão intensamente dos sóis aqui em torno. Olham, padecem, analisar, sem, no entanto, trazer daqui quais narrativas lhes caberia preencher os bornais da imaginação.

Mas há disso desde sempre na consciência de menino. Ficar demorado na observação das alimárias que percorriam os terreiros, as estradas, o chão. E nisso o que pensar, pois, das histórias escritas, contadas nas valhas noites do passado. Saber, decerto, pela metade, aquilo que ficou guardado no quanto existe do furor dos acontecimentos. Aquela roupa folgada que se largou pelos cestos das horas e jamais regressou a procurar. Tal qual tantos abandonam leves amores em nome doutras pretensas aventuras errantes. As canetas deixadas ao relento das ruas, nas atitudes ingratas dos que delas tanto necessitavam logo ali antes uns poucos passos.

Bem isto, de contemplar longas paisagens e depois esquecer lá dentro dos muafos de quantas certezas de há muito deixadas de lado. Nisto, feitos senhores da ingratidão, semeiam dias e dias no coração das pessoas e as desmancham a meio dos trastes e viagens. A verdade, no entanto, fala mais alto, desvenda leis incontáveis no coração das criaturas, transformando-as em pequeninos seres ingratos, arrevesados. Todavia percorrem os trilhos das lendas aonde eles próprios hão de retornar e se deparar consigo na inevitabilidade dos olhos acesos.

Nesse diapasão da continuidade, dali renascem os sonhos, a vontade de encontrar tantas vezes o filão do Tempo, avô das humanidades, artesão do imprevisível, espalhado pelos universos que tudo sustentam e determinam.

quinta-feira, 12 de março de 2026

O abstrato das palavras


Disposição existe em admitir uma força maior ao poder dos acontecimentos. Enquanto que o sujeito conceitua os objetos, nesse espaço intermediário aprimora a consciência. Numa relação fortuita, nisto convive consigo próprio a perder de vista. Aperfeiçoa o conhecimento, a crença, certezas maiores a transportar, nalgum tempo, aos páramos superiores, sonho contumaz de, lá um dia, vencer a fragilidade deste chão. Aspiração desde sempre a transportar nos sentimentos, vislumbra a hipótese de uma vida além da carne, aonde possa usufruir da imensidade dos céus, livre das contingências e do desaparecimento.

Nesse meio donde segue pelos quadrantes do Infinito, dali observa a fragilidade os ditames sob os quais ora persiste. E estabelece o diálogo constante na entreface dos pensamentos e do que eles significam, na tradução daquilo que imagina, fala, ouve, incansáveis habitantes do ente que carrega na alma em si. São conversas intermináveis. Perguntas. Respondes. Observa os demais. Nas visões, nos desejos, noticiários.

Personagem da escritura de que busca o alimento, dias inesperados, dúvidas, percalços, a cruzar territórios por demais desconhecidos e vastos na intimidade onde sobrevive por vezes a duras penas. A exemplo, horas sofre, segura traslados, vacila nos pés, contudo afeito ao furor das circunstâncias e longe do seu domínio. Por quês imensos transporta no senso, na interrogação das razões de antes fartas e inatingíveis. Bem isso, este autor das ficções e perceptor dos disfarces incontidos, a viajar nas abas do vento.

Assim vêm as investigações de ser vítima ou herói, na medida em que experimenta continuar vidas e vidas nos bastiões da existência. Noutras vezes, usufrui de convicções plenas de haver um poder transcendente que rege tudo e todo qualquer fenômeno. Sustenta neste equilíbrio o gosto de tocar em frente, face a face aos mistérios de que faz parte integrante. Gosta de saber das novas teses e praticar as aventuras de quanta liberdade, ao correr das mesmas histórias, a tocar detidamente nas grossas muralhas da solidão individual.  

quarta-feira, 11 de março de 2026

As fronteiras da consciência


Terras sem fim que hoje lhes preenchem os olhos e desfazem lá dentro os pensamentos trazidos das estradas. Longos percursos rumo a si próprios estando bem aqui do lado. Vagas noites de um silêncio abissal. Luzes que às vezes acendem, doutras esquecem a quem iluminar, e, de novo, deixam escurecer a imensidão. Rios de água pura, no entanto submersos, talvez, nas ilusões. Esses protagonistas da sorte, que, extáticos, desde antigamente dividem e percorrem os mesmos lances de escada, ao abandono das lembranças até então guardadas nos sótãos das existências que sumiram.

Isto de ser que tanto e perlustrar tão só as visões do imediato, quais pescadores esquecidos nas praias do Universo onde habitam. E que vivem a se perguntar do destino, das roupas do próximo baile à fantasia, esquisitos autores de cenas jamais imaginadas, enquanto produzem o cenário de doces histórias que narram interminavelmente. Querem do Infinito apenas alguns do papeis improvisados, versões superficiais, daquilo que desejam, conquistaram e nem reconhecem.

Em rápidas pinceladas, seriam peças ainda indecifradas desse mais imenso tabuleiro de glórias fáceis e superficiais dos dias em transe. Contudo por demais indispensáveis, constantes e necessárias. Eles, minúsculos objetos em movimento a céu aberto, no desfilar interminável dos inesgotáveis compêndios. Estejam presentes ou ausentes, haver-se-ão a braços com os enigmas originais que trazem consigo perenemente.

Portadores, pois, das quantas variações dessas linguagens, dalgum lugar que sejam tangerão os barcos do Destino e sobreviverão a todo custo às tempestades imprescindíveis. Este qual par de circunstâncias nada além significa do que a razão primordial de estar aqui e sobreviver aos percalços das densas e maiores determinação. Um episódio individual e soberano mistério das ruínas, dos mitos, das lendas, fixados no quanto de valiosos, e confortam o Tempo, caudal supremo do que sempre existiu pelas quebradas do firmamento. Destarte, abraçam de tudo a inevitabilidade do Ser que os compõe. Acalmam o coração, fixam no íntimo as paisagens em volta e saem às novas e surpreendentes aventuras.

segunda-feira, 9 de março de 2026

As noites e os sonhos


Eles chegam sem prenúncio, há que se imaginar quais fossem, porém só depois das lembranças desmancharem no ar o pouco que seria dali guardado. De uma impetuosidade tamanha, no entanto prenhes de transes inimagináveis, sobrevivem ao vazio e oferecem narrativas, porém, de ser assim, algo intocado pelos sonhadores, seus fieis e inevitáveis parceiros. Tudo em volta, séculos de tamanhas surpresas que dentro em breve podem virá filmes, histórias e lendas, donde provêm, contudo, resta à Ciência desvendar com clareza.

Neles perduram isto de sabor imprevisível, circunstanciais de haver, tipo as composições musicais provenientes dalgum céu de longe e que chegam faceiras à inspiração dos autores. Tal quem escreve, donde vem tão só o instinto de transformar palavras em pensamentos nesse deslizar constante das falas íntimas. Uma quanta certeza, outrossim, carregam consigo vastidões inatingíveis, senhores que decerto das criaturas sonhadoras, no seguimento do deslizar-lhes na consciência. Sejam assustadores, dadivosos, íntimos, surpreendem pela força que carregam, e dominam aonde possam chegar.

Dali nascem os códigos dessa perene licenciatura das contrições de horas sem fim. Vadeiam pelas cercanias de todos, faceiros, audazes, surreais, numa surpreendente consistência até então sob o crivo das interrogações inexplicáveis. Qual fossem procedentes das próprias pessoas, deitam e rolam na interpretação daquilo que elas vivem e, quem sabe?, quisessem esquecer, sobretudo. Todavia trazem de volta os perrengues de quantas vivências, equívocos, padecimentos, desejos, vindos dalgum deus que os transportam aos bilhões e espalham noites a fio, ao silêncio dos ânimos calados.

Isso toca profundo nas existências, a ponto de supor alguns serem sonhados e não sonhadores. Transitam, sim, dentro da mais inteira liberdade, espécie de saltimbancos em movimento pelas quadras dos destinos. Uma safra, pois, de longos segredos soltos entre credos e desafios. Disto dão notícias atuais, revelam lastros encobertos de alvuras sem par. Primos-irmãos da plenitude, tocam o coração de tantos, seguido, furtivos, a sumir debaixo do manto ainda morno das silentes madrugadas.

domingo, 8 de março de 2026

Em meio a tantas luas


Decerto quantos habitantes desse universo ainda distante, porém já afeitos a novas interpretações. Ser-se-á um dentre inúmeros a testemunhar enigmas sem conta. Nisto, espécies de fome a imperar no vazio, vidas e vidas, que indagam o cerne do quanto existe. Sei, são fieis da resistência de continuar, feiticeiros de si, autores das ficções e os arautos das partículas infinitesimais de histórias sem fim, e preenchem de sortilégios o campo das visões em volta. Esperam desde longe ali chegar, pois.

A meio dos valores humanos, criaturas perfazem o intervalo das noites submersas nas ondas do inesperado. Enquanto isso, nada pode estagnar, que fosse, diante do mistério. As próprias palavras decidem o impacto desse reencontrar consigo, no íntimo dessas alimárias sob o peso de caravanas inteiras pelo deserto das compreensões até então adormecidas. Pórticos de novos ensinos, contudo revelados gradualmente através das consciências.

Observar dessas distâncias, a bem dizer intransponíveis, guardam no senso a luz dalguma revelação em andamento. Sustentam marcas, elevam pensamentos, contradizem a imaginação, o sabor dos mares e das cores. Tocam que signifiquem o vasto cotidiano desses tantos, deixados aqui na busca de perceber com o roteiro de gerações inteiras. Eles se veem, percebem pouco a pouco o limite de ontem no penhor dos dias seguintes; perduram nas manhãs sofisticadas, iluminadas de tudo e livres de viver.

Em volta, astros, imensidão, movimentos, sons inigualáveis, pessoas e objetos largados assim no teto das alturas. Conhecem, quiçá, o suficiente de suportar tamanhas interrogações, no entanto. Narram sonhos transcendentais na forma de suas epopeias e lendas, depois refeitas na lama dos outros padeceres. Alguns jogam xadrez nos vendavais da sorte e despejam ilusões aos deuses recém criados lá de dentro dos abismos mais profundos.

Nesse correr das inatingíveis aventuras, sofrem de lembranças escondidas a meio das ânsias trazidas no coração, cientes que estejam, nestante, da certeza dos melhores dias nalguma das estradas do Infinito.

sábado, 7 de março de 2026

As luzes da credibilidade


Estirões sem limite resumem continuar durante essas gerações. Trâmites por demais inesperados fazem disso, a bem dizer, a justificativa de tudo. Senão, que mais fora das horas? Isso de um tempo poderoso no domínio de quem esteja além das meras cogitações. Em volta disso, os monturos e a fria imaginação. Transes do inesperado, pois, somados aos pretensos autores, definem, pouco a pouco, o justo motivo do quanto existirá sempre.

Ao ver assim, circunstâncias e figurantes já perfazem todos os lances desse tabuleiro em que persistem as criaturas de qualquer natureza. Umas, maiores; outras, fruto das próprias dimensões arrevesadas no tacho da ilusão. Nesse sequenciar das palavras, hostes intermináveis de mistérios os conduzem pelo campo. Disto, as filosofias e crenças sob as quais constroem palácios e subúrbios. A se pensar nas multidões, quanto furor de compreensão desfilam pelos ares. Em cada cabeça, uma sentença. Descrito esse universo de microrganismos e movimento, tem-se o Infinito em pequenas doses e conceitos inevitáveis.

Passadas fossem tantas histórias, restariam tão só os abismos em formação, dias e dias. Impressões, emoções, crostas acumuladas nos ombros do firmamento. Com isto, escutam vozes. Nascem novas sementes. Sobrevivem aqueles mesmos que antes preencheram no vácuo os destinos. Alguns ainda escolhem dizer daquelas vozes ouvidas de não se sabe onde. Parcelas e dúvidas multiplicam esperanças, sustentam as encostas de longas travessias e logo depois aceitam também desaparecer pelo corredor dos pensamentos.

Contadas tamanhas atitudes, resta, pois, a tela do silêncio no coração de todos, presente o eito dos sentimentos. Serem eles, a qualquer custo. Segurar as hastes do Sol e prosseguir nalgum instante lá que estejam noutras invenções e certezas guardadas em si próprio. No tal diapasão, dali significam o clímax dalgum desejo, sobremodo inscrito nas gradas da real compreensão.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Animais do Paraíso


Garças, muitas garças, rinocerontes, cochonilhas, avoantes, sequência interminável de seres os mais diversos, transcritos em códigos, no princípio, depois feitos de peles, penas, carne, osso, medulas, que tudo o que a natureza de então orientava. E entre eles, afeitos a longos percursos no lombo uns dos outros, o bicho dos humanos. À época quase nem existiam as tais reuniões periódicas de tribos e clãs, logo adiante feitas de costume, a decidir a sorte dos outros e a sua, também.

Passados o que restou, hoje traduzem a valer o instinto guardado lá de antes, aprendido nas horas dos interesses. Agora bem isto que anda pelos ares, figuras abismadas em volta de capítulos inteiros daquilo dos inícios, restos quiçá largados pelas estradas do Infinito. São muitos deles vestidos de armaduras medievais, munidos com peças destrutivas e descritos nas lendas esquecidas nas matas. Há que se pensar nalguns destes submersos nas nuvens de antigamente. Isso porque insistem carregar consigo os perjúrios que lhes fizeram contrariedade e lamúria.

Ainda que tanto, narram fábulas enigmáticas de vidas afora, por certo alimentando aqueles velhos augúrios das raças agressivas de espécies daqueles princípios enigmáticos. Recurvados sob o peso de ferragens sofisticadas e do padecimento dos outros ali em torno deles, nisso vêm de perguntar quando irão esquecer de vez quanta estultice e exercer de tudo a paz nas consciências. Afeitos por isso ao nexo do padecimento, reúnem de si o fruto que haverão de colher logo ali nas cercanias.

Em face de tais resultados dessas memórias arcáicas, circunscrevem distâncias a imaginar inatingíveis, produto sórdido em movimento. Quadro espesso dessas tintas ancestrais, relembram aqueles primeiros séculos da história de gerações inteiras, sempre senhoras de feitos memoráveis, conquanto vistas naquelas paisagens originais do transcorrer das inconsciências, e revivem o sonho das sequências e dos instantes de Amor que ocasionou tudo, porém.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Palavras acesas


Lado a lado consigo mesmas, tocam o significado e do quanto existe. Dom de supremas verdades, espraiam sentimentos a torto e a direito pelas encostas deste Chão. Salvaguarda de tantos, mesmo assim sobrevivem às duras penas. Circunstanciais, irreverentes vezes outras, reúnem letras e formam sons nas consciências. A bem dizer, livres, suaves, constantes, andam pelos desertos, pelas cidades, aversas a tudo que seja de permanecer em único lugar. Nascem dos pensamentos, porém dotadas daquele afã de tantas luas e que narram do passado e o futuro o que virá numa maior sem cerimônia. Lustres, pois, dos palácios em festa, das cargas no lombo das criaturas, segmentos do que antes imaginaram, constroem o sentido das alturas nos abismos mais profundos. Um atributo a mais do quanto existe e permanência inevitável diante dos afagos e desesperos. Frações de tudo e resumo do quanto haverá lá um tempo a qualquer dia.

Depois das gerações, ali estarão, afeitas aos destinos que, de novo, haverá de vir dalgum hemisfério qual seja, circunspectas dos orgulhos, das pretensões dessas vacuidades que se arrastam nos mangues e nas noites. Risos, músicas, caprichos, vontades soltas e vagas, resquícios de antigos verões, de sentidos espalhados pelo vento aonde houve de chegar dalgum jeito. Ostras adormecidas pelos dicionários, nos grandes romances universais, nas notas das caligrafias deixadas pelas calçadas. Seres assim, por demais independentes de quem quer que as utilize; ardentes, fieis, circunspectas; dotadas desses todos pressupostos até então escondidos nos saguões desses hotéis de lixo, adormecidas e sagazes, a invadir os sonhos do inesperado.

Nisto, espécies de devotas credoras das maravilhas que tangem a humana presença nesses universos desconhecidos, fazem enxergar, de visão aberta; ver-nos-íamos, quem sabe?, delas os instrumentos, artesões da luz que lhes transportam o segredo lá desde quando... Arautos das verdades puras, alimentam e digerem as estultices siderais dos que viajam pelos céus da paciência. Nós, esse caudal prenhe de ampla felicidade, a todo instante presente e talvez sob o mistério maior do próprio Ser.

terça-feira, 3 de março de 2026

Compreender a si mesmo


Somos uma alma dentro do corpo. O tempo passa, o espírito permanece. George Harisson

Início e fim de tudo. Desvendar. Abrir as portas do mistério que hoje conta pelas narrativas. Encontrar o princípio da lucidez e vivê-lo o mais intensamente. Razão de ser de toda filosofia, toda religião, causa e origem das entrelinhas do Destino, dele, consigo próprio, desde sempre. Antes disso, os longos intervalos da sorte no movimento dos astros.

As civilizações daí buscaram isto, no entanto cercadas dos interesses imediatos. Valores ilusórios das outras interpretações. Ainda que tanto, alimento de quantos. A ânsia de continuar a qualquer custo face a face com as ilusões febris dos apegos, frutos do ego em ação, além desfeitas que sejam tais excursões aos mundos aparentes, certo dia, certa feita, haverá de haver o quanto lá de longe alguns imaginaram.  

Nisso, os motivos sociais dos interesses em jogo. A criação irreverente de posses e ganhos, fome descomunal de largas eras. Existissem, por isso, causas de tocar adiante o que traz até então, de novo redundariam no desfecho só imediato das quantas e tantas vezes.

Bom, diante das circunstâncias dessas quantas histórias, eis que se defrontam as noites dos séculos, das perdidas aventuras pelos corredores do Tempo. Numa continuação de todos, quais entrar no ser de dentro, nas florestas da consciência, tornam-se espécie de intérpretes da jornada humana, um a um. Indagam do silêncio, das visões e aparências, dos sonhos, doutras confissões, num constante aguardar dalgum lugar alguma revelação.

Esses personagens perscrutam em volta as demais criaturas, os objetos, as luzes que cintilam na distância, os credos, as publicações. Em painel descomunal de inúmeras possibilidades, há que voltar ao Eu por demais interior e dialogar com o passado, os aprendizados, as muitas reservas acumuladas no decorrer das lendas de si e dos semelhantes. Fossos de pedras raras, carregam na alma seu objetivo e sentido universal do uma realidade, logo após, definitiva.

(Ilustração: Castelo de Brennand, Recife PE).

segunda-feira, 2 de março de 2026

O acaso e a necessidade

 

Algo semelhante a destino e liberdade, porquanto ambos se tocam e se diluem no tempo e no espaço. E entre ambos, um ser que atravessa o Infinito na busca do Sol. Em um dos extremos, a imaginação. No outro, a determinação do que haja de ocorrer a qualquer custo. Assim, são as existências. Enquanto isso, na esteira dos dias que descrevem a noite do Tempo, frases inteiras dizem disto, pespontam o que haveria de estar nas consciências. Insistem, descrevem, contêm. Na imensidão desse vazio composto de ilusões, tudo tende a acontecer. Todos protagonistas do que resume o mistério.

Detalhes mínimos detêm a sorte de quantos, ao furor das consequências. Transes diversos preenchem a pauta dessa canção inigualável nos corações. Férteis horizontes formam, nisso, abismos intactos de sonhos e desejos, nuvens dos céus que os encobrem todo momento. A quem dizer tais pensamentos, quiçá verdes ramas doutras cogitações, deslizam aqui por entre os dedos de quais entes imaginários feitos só de aventuras e sofreguidão.

Pouco a pouco, das palavras nascem ideações, depois transpostas, ao correr de dúvidas, em suores e dramas. Ninguém mais que possa ouvir, contudo. No empenho desses acontecimentos, correm as rotinas. Logo em seguida transpostas nas falas, notícias, pelo inesperado de cada instante. Daí, os desmandos impostos às coletividades silentes.

O que antes fora somente vozes perdidas pela solidão afora, dentro em breve vira descaminhos e avisos de novos séculos, ruínas daquilo que foi e súplica de uma coerência até então desconhecida. Retrato fiel das sequidões impostas à multidão, esta, de olhos extáticos, desvenda, quem sabe?, nas crateras de si mesma, o lenitivo desde sempre sonhado. Longos desvios, pois, de vontades outras, agora calculam o que haveria de ter sido, porém impossível de reviver, se não nas horas do que virá adiante.

domingo, 1 de março de 2026

Mundos individuais


São estrelas, umas ao lado das outras; umas ainda apagadas, mesmo assim existentes, que percorrem trilhas sem final, rumo ao desconhecido. Houvesse, contudo, certezas desde então, ainda que tanto tocariam em frente passos e dúvidas, porém cientes de nenhuma chance das inexistências. Submissos das contingências, passam aos milhões ali diante do Eterno, a sonhar consigo noutras histórias.

As antigas contradições lá dos inícios ferem por dentro as tais criaturas, vezes e vezes restritas ao código que as transportam vidas a fora. Transitam no espaço das alturas, serviçais da incompreensão, no entanto afeitas ao desejo de se auto revelar qualquer tempo, madrugada destas, espécies de números vagando nos céus, horas contadas daquilo que antes foram. Forçados, imaginam, contudo, encontrar a resposta desse enigma milenar que guardam no íntimo.

Dias feitos de carne e ossos, metais e contrições, percorrem a imensidão qual disto fossem único motivo. Sorriem vez em quando, de olhos fixos nessa condição inevitável dagora, rescaldo imenso das tantas verdades escondidas na ânsia dalguma ocasião as distinguir no claro da consciência. Um perfil por demais estonteante desses tais seres que preenchem lendas e mitos; seriam filhos diletos que sejam do imaginário e dos dramas deixados no vácuo do Infinito.

Quando as palavras oferecem, pois, o sentido próprio das interpretações, outrossim restritas ao signo da visão imediata, entes desta sinfonia supõem possibilidades de perdurar. Em consequência, daí os frutos lançados ao chão pelas sementes, as árvores, lances restritos de intensas caminhadas através de florestas sombrias, reservadas aos ditos autores. Visagens dos contos surreais, cenas absortas de roteiros em andamento, sabem-se dotados em forma de imagens ora assustadoras, vilões astutos da indecisão de estar aqui.

Portanto, perfis entre animais e arcanjos, estabelecem de detalhes esse território imenso das verdades profundas, durante percursos trazidos pelos traços de uma longa jornada, a meio das marés e dos sóis em movimento. Bem isto, ser-se-iam fagulhas da fogueira descomunal do silêncio, logo em seguida transpostos à mais pura das perfeições.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Dias e dias


Isto um passar cadenciado, séculos sem fim diante das longas estradas cobertas de palavras e tradições. Nisto, as pessoas, esteiras imensas de transformações em andamento, diante do vazio ora em movimento. Abertos os olhos, fitam essas paisagens de silêncio e multidões que trazem consigo. Superpõem a si mesmos qualquer possibilidade do que virá logo em seguida. Esses, as testemunhas incontáveis de circunstâncias do que significam. Sei que existem suposições, falas continuadas de histórias inigualáveis; dúvidas feitas de riscos na face do Tempo. No entanto, meras buscas do quanto percorrer na face dos destinos. Personagens individuais, criaturas nascidas de dentro das consciências e expectativas febris do que haveriam de ser horas dessas.

Razão disso, narrativas constantes do mistério que lhes compõe sustentam o drama de aqui viver, entretanto. São distintas as vertentes que as descrevem. Acalmam os pensamentos, transpiram motivos que devoram o Infinito num abrir e fechar de intervalos. Há de conhecer as consequências, todavia cobertos dos entulhos das idades e das flores. Rios, mares, regiões ilimitadas ali através das escrituras que transportam sem cessar. Fossem rever o passado, habitariam esquecimentos sem conta.

Bem depois, pelos rastros informes largados nos rochedos das eras, dormem contritos pelas crostas de tudo aquilo desde antes acondicionado na alma de cada dessas pessoas. Porém apuram de si mínimos detalhes feitos farpas deixadas ao relento. Conquanto reúnam, pois, milhões de estrelas na fresta de um desaparecimento imediato, mesmo assim reconhecem que traduzem do inesperado a certeza de novos séculos. Nisso, arrebanham os momentos eternos em pequenos artesanatos de couro e madeira, distribuídos pelo correr dos sóis. Seguram as rédeas dos animais e os tangem devagar no fluir das gerações.

Impávidos, segredam entre eles todos os códigos conquistados, resquícios de vivências até então enigmáticas. Veem, sonham, definem, enquanto só presenciam tantos, quais outros que fossem. E em blocos coesos, arquitetam o futuro nas folhas secas da floresta onde habitam.