segunda-feira, 30 de março de 2026

A lebre desprendida


(Tradição budista)

Dentre as lendas que registram vidas passadas de Buda existe a que conta sobre uma lebre jovem que habitava intrincada floresta nas encostas de montanha afastada, tendo por companheiros uma lontra, um macaco e um chacal. A personagem se alimentava de ervas, folhas e frutos, e tomava como prática viver sem prejudicar quem quer que fosse. Entre os outros animais, fazia por ministrar os ensinamentos de como distinguir o mal do bem, passando suas aulas através de longas lições as quais transmitia com imenso prazer.

No transcorrer do tempo, naquelas paragens silvestres, aproximou-se o dia da festa maior do lugar, época de receber visitantes religiosos que peregrinavam pelas matas. De acordo com os costumes, preparariam oferendas a esses destinadas, recolhidas nos diversos encantos da natureza. Enquanto os outros bichos dispunham dos meios de elaborar brindes valiosos, a lebre, contudo, defrontava de pobreza extrema, a dispor tão só, na ocasião, de ervas e coisas de somenos importância a oferecer aos que lhe visitassem. Indagada pelos companheiros do jeito que demonstraria sua gratidão e respeito aos visitantes, não mediu palavras e disse:

- Caso alguém me procure, não oferecerei ervas comuns, de fácil localização no seio da floresta. Quero possuir dote mais precioso. Nisso, a mim mesma, o meu corpo, valor único que possuo, darei de oferenda, pois daqui ninguém retornará sem a devida atenção de minha parte.

Chegado o grande dia, tais visitantes, pessoas dignas vindas dos mais afastados lugares, adentraram as matas para conhecer de perto seus moradores, um desses peregrinos sendo o próprio Sakka, a personalidade suprema do Poder, que vê os pensamentos que fervilham pelas consciências; veio investido na figura de um simples brâmane e de pronto se dirigiu à toca da lebre.

Ao vê-lo, esta, ágil e prestativa mais do que depressa, falou ao visitante: - Fizeste o melhor vindo à minha morada, pois quem me visitasse neste dia, a ele reservei o que de mais precioso guardo comigo, e é isto te ofereço na hora da linda festa de todos nós. Olhos atentos, o brâmane observava os raros e pobres trastes que existiam naquela casa simples, interrogando a que a lebre se referia em suas palavras acolhedoras.

Daí ouviu o que esta ainda acrescentava: - O dom de que falo e que pretendo oferecer do mais íntimo coração sou eu mesma, o meu corpo vivo, que aqui vês, e que mereces inteiro pela nobreza de tua dedicação aos ditames do Bem nas tuas ações puras e austeras. Por isso, vai e junta gravetos para acender o fogo e preparar o teu repasto deste dia.

Mediante a oferta decidida, o brâmane logo se movimentou, fazendo crepitar uma fogueira cujas chamas vigorosas iluminavam o escuro da folhagem. Em seguida, num gesto impávido, ligeiro, a lebre lançou-se no meio das labaredas crepitantes, como quem se joga no seio de águas profundas, acalmando todos os anseios e dores da existência afetuosa que vivera até então.

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